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Símbolo da tradição religiosa e cultural, a Igreja Católica São Pedro e São Paulo, construída a mais de 70 anos, passa por reformas estruturais custeadas com doações e apoio da comunidade
A igreja, com mais de 70 anos, conta com a mesma estrutura desde quando construída - Foto: Esther Kremer

Esther Kremer

A comunidade de Gonçalves Júnior, no interior de Irati, iniciou um movimento de mobilização para restaurar partes da Igreja Ucraniana Católica São Pedro e São Paulo, construída há mais de 70 anos. O local de madeira, considerado um dos últimos do rito ucraniano católico preservados nesta mesma estrutura, tem apresentado problemas que exigem obras de reparo. As reformas são financiadas integralmente com recursos da própria comunidade, arrecadados em festas, leilões solidários e doações.

A história da igreja remonta à chegada dos primeiros imigrantes ucranianos, que inicialmente dividiam o mesmo espaço de culto com os ortodoxos. Mais tarde, houve a separação e, com esforço coletivo, foi erguida a atual igreja. Segundo Nadia Lucavei, moradora da comunidade e testemunha da inauguração quando tinha 10 anos na época, conta que a obra foi resultado da união de muitas famílias.

“Meu pai, Valdomiro, carregava toras de pinheiro no caminhão que ele tinha para que fossem desdobradas em madeira e usadas na construção. Parte do material foi comprada, outra doada. Cada família colaborava como podia e foram muitos os que ajudaram. Essa igreja é fruto da fé e do trabalho coletivo”, relembra.

Inaugurada em 1954, construída por Valdomiro Techy e Pedro Saviski, além de outros moradores da comunidade, a igreja contou com a presença do bispo Dom Efraim (in memoriam). Além disso, a igreja mantém até hoje o formato tradicional ucraniano. As missas, celebradas em português e em ucraniano, reúnem mais de 50 famílias e preservam costumes religiosos trazidos pelos imigrantes, como os cânticos típicos de Natal e Páscoa.

Manutenção da identidade cultural

A igreja também é um importante símbolo cultural para a comunidade. Dona Nádia, que aprendeu a falar e escrever em ucraniano durante a catequese com irmãs religiosas e também com a família, afirma que a língua sempre esteve presente no cotidiano dos moradores. “Em casa, meu avô não permitia que se falasse em português, só em ucraniano. Até hoje dirigimos as missas e cantamos em ucraniano, mantendo viva a tradição”, conta.

A preservação arquitetônica também é prioridade. O presidente da comissão da igreja, Renato Tchmola, destacou que nenhuma alteração será feita no formato original da igreja. “Nosso objetivo é restaurar e corrigir o que foi danificado pelo tempo, sem mexer na identidade da construção. Portas, janelas e o estilo arquitetônico permanecem como foram feitos no passado”, explicou.

Na foto, Dona Nádia e Renato Tchmola em frente ao altar da igreja Fotos: Esther Kremer

Estrutura comprometida e início das reformas

Com o passar das décadas, a madeira sofreu desgaste natural. Telhado, cúpula e paredes externas apresentaram infiltrações e danos causados por cupins. O assoalho também precisa de reparos. A primeira fase da obra já começou pela cúpula e substituição das telhas, ao custo de R$ 75 mil, pagos com recursos de festas anteriores e doações.

“É uma igreja de madeira, então o tempo exige manutenção. As infiltrações no telhado acabaram atingindo forros e pinturas. Estamos atuando por etapas, porque o custo é alto e a comunidade sozinha não tem condições de arcar com tudo de uma vez”, disse Renato.

Mobilização comunitária

Para viabilizar as próximas etapas, a comunidade organiza eventos e campanhas. No dia 31 de agosto, será realizada a festa em honra a São Pedro e São Paulo, com objetivo de arrecadar fundos para a continuidade da obra. Um leilão online solidário também foi lançado, permitindo que qualquer pessoa contribua com valores espontâneos.

“Não é um leilão de maior lance. Cada um pode doar o que puder. A ideia é somar esforços, porque a reforma é cara e precisa da ajuda de todos. Convidamos toda a comunidade iratiense, do interior e até de outros municípios a participarem”, reforçou Renato.

Com missas regulares, tradições religiosas e o envolvimento das famílias descendentes de imigrantes, a comunidade de Gonçalves Júnior busca garantir que o templo continue sendo um espaço de fé, memória e identidade coletiva. “Queremos que a igreja fique bonita, mas sem perder sua essência. É a única de madeira do rito ucraniano católico na região e precisa ser preservada para que nossos filhos e netos também possam vivenciar essa tradição”, concluiu dona Nádia.

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