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Urna eletrônica: entenda como o voto é registrado, conferido e auditado 

Equipamento usado no Brasil desde 1996 substituiu a apuração manual e passou por sucessivas atualizações de segurança, acessibilidade e fiscalização
Foto: Tribunal Superior Eleitoral

Ariane Luz

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As eleições se aproximam e, junto com a escolha dos candidatos, surgem dúvidas sobre o caminho do voto dentro da urna eletrônica. O equipamento, hoje familiar para milhões de brasileiros, começou a ser usado nas Eleições Municipais de 1996 e se tornou obrigatório em todo o país a partir das eleições municipais de 2000. Antes dele, a votação dependia de cédulas de papel, contagem manual e etapas mais lentas de apuração. A informatização reduziu esse tempo e mudou a rotina das seções eleitorais, mas também trouxe uma pergunta que aparece a cada eleição: como saber se a urna funciona corretamente? 

O que é a urna eletrônica? 

A urna eletrônica é o aparelho usado para registrar e contabilizar os votos dos eleitores brasileiros. Ela foi instituída pela Lei nº 9.100/1995, que autorizou o Tribunal Superior Eleitoral e os tribunais regionais eleitorais a utilizarem sistema eletrônico de votação e apuração. Na prática, a urna substituiu a cédula em papel por um terminal simples, com teclado numérico semelhante ao de telefone, tela de confirmação e mecanismos próprios de segurança. 

Nova Urna Eletrônica. Foto: Tribunal Superior Eleitoral

Como tudo começou? 

A modernização das eleições brasileiras não nasceu de uma vez. Em 1985, a Justiça Eleitoral criou um cadastro único com cerca de 70 milhões de eleitores, medida que ajudou a combater registros duplicados e inscrições de pessoas já falecidas. Em 1994, a totalização dos votos foi informatizada, embora a apuração ainda fosse manual. No ano seguinte, uma comissão formada por juristas e técnicos iniciou o desenvolvimento do protótipo da urna eletrônica. 

Esse primeiro projeto era chamado de Coletor Eletrônico de Votos, o CEV. A ideia era clara: criar uma máquina fácil de usar, capaz de registrar votos por números, com uma linguagem parecida com a que o eleitor já conhecia no telefone. Em 1996, a primeira votação eletrônica ocorreu em 57 municípios, incluindo todo o estado do Rio de Janeiro, as capitais e cidades com mais de 200 mil eleitores. A experiência alcançou cerca de um terço do eleitorado nacional. 

A urna fica ligada à internet? 

Não. Esse é um ponto central para entender o funcionamento do sistema. A urna eletrônica trabalha de forma isolada, sem conexão com internet, Wi-Fi ou Bluetooth. Os dados necessários para a votação são preparados antes e inseridos por mídias específicas, em cerimônias públicas acompanhadas por entidades fiscalizadoras. Ao final da votação, a urna gera arquivos próprios e o Boletim de Urna, documento que mostra o resultado daquela seção.  

O voto fica ligado ao nome do eleitor? 

Não. A urna registra o voto como ele foi digitado, separado por cargo, mas sem associá-lo ao eleitor. Esse registro compõe o chamado Registro Digital do Voto, o RDV. Ele permite recontagens e auditorias, preservando o sigilo, porque não há informação que permita ligar uma pessoa ao voto depositado. 

Antes do início da votação, a urna também emite a chamada Zerésima. O nome parece técnico, mas a função é simples: demonstrar que não existe nenhum voto registrado naquele equipamento antes da abertura da seção. Depois do encerramento, é emitido o Boletim de Urna, o BU, com a votação registrada naquela seção eleitoral. O BU é impresso, assinado e pode ser conferido por fiscais, partidos, imprensa, Ministério Público e cidadãos interessados. 

Como o eleitor pode conferir o resultado da própria seção? 

Uma das formas mais diretas é pelo Boletim de Urna. O documento contém um QR Code que pode ser lido pelo aplicativo Boletim na Mão, desenvolvido pela Justiça Eleitoral. Com ele, qualquer pessoa pode capturar o resultado da seção e comparar depois com os dados publicados oficialmente pelo TSE. Esse mecanismo aproxima a fiscalização do eleitor comum, sem exigir conhecimento técnico avançado. 

A urna mudou muito desde 1996? 

Mudou. Até as Eleições Municipais de 2024, 14 modelos de urnas eletrônicas já tinham sido utilizados. A primeira, a UE96, tinha teclado numérico e usava disquetes. A UE98 passou a exibir a foto dos candidatos. A UE2000 levou a urna para 100% do eleitorado brasileiro e incluiu saída de áudio para fones de ouvido, ampliando a acessibilidade. A UE2004 trouxe o Registro Digital do Voto. A UE2006 abriu caminho para os leitores biométricos. 

Nos modelos mais recentes, a evolução foi mais silenciosa para o eleitor, mas relevante por dentro: mais processamento, criptografia, assinatura digital, mecanismos de verificação, lacres físicos, tela sensível ao toque no terminal do mesário e melhorias de acessibilidade. 

Quem fiscaliza a urna? 

A fiscalização não acontece apenas no dia da votação. Ela começa meses antes. O código-fonte dos sistemas é aberto a entidades fiscalizadoras; depois vêm os Testes Públicos de Segurança, nos quais especialistas tentam encontrar falhas nos sistemas eleitorais. Quando alguma vulnerabilidade é identificada, a Justiça Eleitoral faz a correção e submete o ajuste a novo teste de confirmação. 

Também há a Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas, quando os programas que serão usados nas eleições são compilados, assinados digitalmente, lacrados e armazenados. Na sequência, ocorrem a geração das mídias e a preparação das urnas. São etapas públicas, acompanhadas por partidos, federações, coligações, Ministério Público, OAB e outras instituições aptas a fiscalizar o processo. 

O que é o Teste de Integridade? 

O Teste de Integridade é uma auditoria feita no mesmo dia e horário da votação oficial. Na véspera, urnas já preparadas para uso são sorteadas em cerimônia pública. Elas são retiradas das seções, levadas para local definido pelo Tribunal Regional Eleitoral e substituídas por outras urnas. No dia da eleição, votos previamente registrados em cédulas de papel são digitados na urna eletrônica e também em um sistema de apoio. No encerramento, os resultados são comparados. 

Esse teste existe desde 2002 e é realizado em todos os estados. A finalidade é simples de entender: mostrar, de forma pública, que o voto digitado é o mesmo que a urna contabiliza. Em 2022, o procedimento também passou a contar com projeto-piloto com biometria, no qual eleitores voluntários ajudaram a habilitar urnas auditadas, sem votar de novo e sem interferir no sigilo do voto. 

O eleitor participa do teste? 

Pode participar como voluntário, quando convidado pela Justiça Eleitoral, mas não vota duas vezes. No teste com biometria, o eleitor apenas empresta a digital para habilitar a urna auditada. A votação simulada é feita com cédulas preparadas previamente. Os votos registrados nesse teste não entram na totalização oficial e não elegem ninguém. 

E depois da eleição? Ainda dá para auditar? 

Sim. Após a votação, a Justiça Eleitoral publica arquivos que permitem novas conferências, como Boletins de Urna, Registros Digitais do Voto e logs das urnas. Esses dados ajudam a verificar o funcionamento dos equipamentos e a coerência dos resultados divulgados. A fiscalização, portanto, não se encerra quando a urna imprime o BU; ela continua na análise dos arquivos e relatórios gerados pelo sistema. 

A urna eletrônica não deve ser tratada como uma caixa misteriosa. Ela é uma máquina pública, cercada por procedimentos, documentos, testes, lacres, assinaturas digitais, fiscalização institucional e possibilidade de conferência pelo cidadão. Para o eleitor, entender esse caminho ajuda a votar com mais segurança: primeiro a Zerésima mostra que não havia votos; depois o voto é registrado sob sigilo; no fim, o Boletim de Urna revela o resultado da seção. Entre uma etapa e outra, há auditorias que transformam tecnologia em controle público. 

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