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Telas desafiam a vida em família e exigem presença real dos pais

Especialistas do Hospital Israelita Albert Einstein discutem como o excesso de telas, a falta de convivência e a dificuldade de impor limites afetam crianças e adolescentes. A principal recomendação passa por conexão, diálogo e rotina familiar sem terceirizar o vínculo para celulares, tablets e videogames
Foto: Folha de Irati

Ariane Luz, com informações de Einstein Hospital Israelita

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A vida familiar ganhou um novo integrante nos últimos anos: a tela. Celulares, tablets, videogames e televisões passaram a ocupar espaços que antes pertenciam à conversa, à brincadeira, ao tédio e à convivência. No podcast “O Que Te Trouxe Aqui”, do Hospital Israelita Albert Einstein, a jornalista Astrid Fontenelle conversou com as pediatras Elda Pires e Andrea Herccowitz sobre vida saudável em família, infância, adolescência e o impacto do uso excessivo de dispositivos digitais dentro de casa.

A discussão parte de uma ideia simples, mas difícil de sustentar na rotina: criança e adolescente precisam de presença. Para a pediatra Elda Pires, o cuidado infantil não se limita ao corpo da criança. O pediatra também observa a dinâmica familiar, os hábitos da casa, o comportamento dos adultos e a saúde emocional de quem cuida. Quando a mãe, o pai ou outros responsáveis não estão bem, a criança sente. O sono, as brigas, o rendimento escolar e o desenvolvimento também passam pelo ambiente em que ela vive.

Esse cuidado começa na infância com momentos de atenção verdadeira. Elda defende que pais e responsáveis reservem tempo de qualidade com os filhos, mesmo que curto, sem celular por perto e sem televisão ligada ao fundo. Ler um livro, montar um quebra-cabeça, brincar, conversar ou responder às perguntas da criança ajuda a construir vínculo e aprendizado. A especialista lembra que os filhos também ensinam os adultos: muitas vezes, uma pergunta sobre animais, pássaros, dinossauros ou natureza obriga a família a pesquisar junto e amplia o repertório de todos.

O problema surge quando a tela ocupa todos os espaços de silêncio. Segundo Elda, a recomendação é evitar telas até os dois anos. Entre dois e cinco anos, o limite seria de até uma hora por dia; entre seis e dez anos, até duas horas. Mesmo assim, ela considera esse tempo alto para crianças pequenas. A explicação é que, diante da tela, a criança tende a se desligar do ambiente externo. Ela deixa de perceber melhor o que acontece ao redor e passa a buscar o aparelho sempre que sente tédio, frustração ou falta do que fazer.

O tédio, nesse caso, não é inimigo. Ele faz parte do desenvolvimento. É no tempo livre, sem estímulo pronto, que a criança cria brincadeiras, inventa saídas, desenha, canta, monta histórias e aprende a lidar com a própria frustração. A tela resolve o incômodo no curto prazo, mas pode empobrecer o repertório emocional quando vira resposta automática para tudo. Por isso, a orientação das especialistas é organizar horários, criar rotina e sustentar limites, mesmo diante da resistência inicial.

Na adolescência, o desafio muda de forma, mas não desaparece. A pediatra e hebiatra Andrea Herccowitz explica que o adolescente passa naturalmente por um afastamento da família. Ele busca autonomia, identidade e pertencimento, aproximando-se mais dos amigos e testando ideias, roupas, gostos e comportamentos. Esse movimento faz parte do desenvolvimento, mas funciona melhor quando o jovem chega a essa fase com vínculos familiares já construídos.

Para Andrea, regras continuam necessárias, mas precisam ser claras e conversadas. A imposição pura tende a gerar resistência; a explicação ajuda o adolescente a entender riscos, consequências e escolhas. O adulto também precisa dar exemplo. Não adianta condenar determinados comportamentos enquanto normaliza os mesmos hábitos dentro de casa. A especialista defende diálogo, escuta e acolhimento, inclusive quando o adolescente erra. Castigo sem conversa raramente produz aprendizado.

Uma orientação prática é fazer ao menos uma refeição por dia em família, sem telas para todos. Não basta tirar o celular do adolescente se os adultos continuam olhando mensagens à mesa. Esses 20 ou 30 minutos podem revelar o que aconteceu na escola, com quem o filho convive, o que o preocupa e quais situações merecem atenção. Astrid relatou que, com o próprio filho, começou contando como havia sido seu dia; com o tempo, abriu espaço para que ele também perguntasse e compartilhasse a rotina.

As especialistas também defendem experiências fora da rotina. Não precisa ser viagem cara. Pode ser uma ida ao parque, a um museu, a uma praça, a um mercado popular ou a qualquer lugar da cidade que ofereça convivência e descoberta. O objetivo é criar memória afetiva e mostrar que o lazer não precisa caber sempre dentro de uma tela.

No encerramento, a receita das médicas foi menos técnica e mais direta: conexão. Para Elda, pais devem se interessar de verdade pelo que acontece com os filhos, acolher sem julgamento e entender a parentalidade como uma oportunidade de melhora também para os adultos. Para Andrea, na adolescência, a base é diálogo, escuta e respeito à autonomia, sem abandonar o papel de suporte. Filhos precisam de asas para voar, mas também de um lugar seguro para voltar.

Para assistir o Podcast inteiro, acesse https://www.youtube.com/watch?v=qHLlHzdRBd8&list=PLB_rcPiqiMPyB-iUsXwtu1xK-fYLQcKiy&index=54

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