Irati PR, 09:38, 5°C

Atividade reúne pesquisa, assistência técnica e agricultura familiar para transformar larvas em uma das matérias-primas mais valorizadas da indústria da moda
Grande parte da produção está concentrada no Paraná e tem como base a agricultura familiar - Foto: Reprodução

Karina Ludvichak 

Receba em primeira mão as notícias de Folha de Irati no seu WhatsApp!
Inscreva-se

Quem vê uma peça de seda nas vitrines das grandes marcas internacionais dificilmente imagina que a matéria-prima pode ter começado sua trajetória em uma pequena propriedade rural do interior do Paraná. Em Irati, produtores têm apostado na criação do bicho-da-seda como alternativa de renda e diversificação da produção agrícola, em uma atividade que combina tradição, pesquisa científica e assistência técnica especializada.

Pouca gente sabe, mas o Brasil ocupa uma posição de destaque na produção mundial de seda. O país é o único do Ocidente a produzir fio de seda em escala comercial e se consolidou como referência internacional pela qualidade do produto. Embora não dispute liderança em volume com os países asiáticos, o fio brasileiro é reconhecido como um dos mais brancos e de melhor qualidade do mundo, tornando-se matéria-prima valorizada pela indústria da moda de luxo. Grande parte dessa produção está concentrada no Paraná e tem como base a agricultura familiar.

Na fase final as larvas procuram um local adequado para formar seus casulos – Foto: Reprodução

A atividade, conhecida como sericicultura, teve origem na China e chegou ao Brasil entre as décadas de 1930 e 1940 com imigrantes japoneses. Atualmente, a cadeia produtiva na região é coordenada pela Fiação de Seda Bratac, que atua desde a produção das larvas até o processamento industrial do fio, oferecendo assistência técnica e acompanhamento aos produtores.

Segundo o técnico sericícola Weliton Plep Luczinski, o processo começa muito antes da chegada das larvas às propriedades rurais. “A empresa realiza a incubação dos ovos e os dois primeiros estágios de desenvolvimento em ambientes com temperatura e umidade controladas. Somente depois desse período as larvas são encaminhadas aos produtores, já em uma fase mais resistente e adequada para o manejo nas propriedades”, explica.

A alimentação do bicho-da-seda é um dos aspectos mais peculiares da atividade. As larvas se alimentam exclusivamente de folhas de amoreira, planta cultivada especialmente para essa finalidade. A empresa desenvolve e seleciona variedades mais produtivas, adaptadas às condições climáticas da região. “Hoje utilizamos variedades que foram aprimoradas para oferecer maior produção de folhas e melhor rendimento para o produtor”, destaca o técnico da Bratac, Ilson da Costa.

Foto: Reprodução

DESENVOLVIMENTO

Nas propriedades, as larvas são alojadas em estruturas chamadas sergarias, onde permanecem por cerca de 30 dias. Durante esse período passam por diferentes estágios de crescimento, alternando momentos de intensa alimentação com períodos de muda de pele. Conforme cresce, aumenta também o consumo de folhas. Na fase final, chegam a receber até sete alimentações diárias e podem consumir de cinco a seis fileiras inteiras de amoreira por dia em uma única propriedade.

Para manter a produção, as propriedades contam com áreas exclusivas de amoreiras divididas em talhões. Esse sistema garante a renovação constante das plantas e o fornecimento contínuo de alimento durante o período produtivo, que vai de setembro a junho. “No inverno, a amoreira entra em dormência e a criação é interrompida até o retorno das condições ideais de temperatura. Cada talhão é utilizado de forma alternada, permitindo que a planta se recupere e produza novas folhas para os ciclos seguintes”, conta Ilson.

Inseto produz um fio contínuo que pode alcançar entre 800 e 1.200 metros – Foto: Reprodução

Quando atingem o estágio final de desenvolvimento, as larvas procuram um local adequado para formar seus casulos. Para isso, “os produtores instalam estruturas conhecidas como bosques, compostas por cartelas com centenas de compartimentos. Cada larva ocupa um espaço e produz um único casulo. Durante cerca de uma semana, o inseto trabalha continuamente para formar uma estrutura resistente e compacta, responsável pela proteção da fase seguinte de seu desenvolvimento”, detalha Weliton.

É justamente nesse momento que nasce a matéria-prima da seda. Dentro do casulo, o inseto produz um fio contínuo que pode alcançar entre 800 e 1.200 metros de comprimento. Após cerca de uma semana, os casulos são colhidos e enviados para a unidade da empresa, onde passam por classificação de qualidade e pesagem.

Após isso, seguem para Londrina, onde ocorre o processo industrial de fiação. Os técnicos explicam que a larva permanece dentro do casulo durante todo o transporte. Na fábrica, um processo controlado interrompe seu desenvolvimento para permitir a retirada do fio sem danos. A partir daí, os casulos são desenrolados e transformados em fios de seda de alta qualidade. A qualidade do casulo é determinante para o valor pago ao produtor, já que fatores como peso, resistência do fio e teor de seda influenciam diretamente na classificação do produto.

Foto: Reprodução

O produtor Jair Rodrigues Santos, da comunidade de Valeiros, no distrito de Itapará, iniciou a atividade há dois anos e afirma que a criação trouxe uma nova perspectiva para a propriedade. “Foi uma alternativa boa porque permite um ganho mensal. Comparando com outras atividades, exige menos investimento e dá um retorno mais rápido”, relata.

Além da criação do bicho-da-seda, Jair trabalha com mandioca, peixes, ovelhas e tabaco. A decisão de investir na sericicultura surgiu após uma visita técnica organizada pela Secretaria Municipal de Agricultura a uma propriedade em Santa Maria do Oeste. Embora já conhecesse a atividade há cerca de 20 anos, foi naquele momento que decidiu apostar no segmento. Hoje, ele considera que o principal desafio foi a formação dos talhões de amoreira. “Depois que a amoreira está formada, a manutenção fica mais fácil. O mais difícil foi chegar a esse ponto”, afirma.

Foto: Reprodução

Além da rentabilidade, a sericicultura chama a atenção pela organização da cadeia produtiva. Diferentemente de outras culturas agrícolas, o produtor conta com acompanhamento técnico constante durante todas as etapas do ciclo. Desde o preparo do solo para o plantio da amoreira até a colheita dos casulos, equipes da Bratac realizam visitas periódicas para orientar sobre alimentação das larvas, manejo dos barracões, controle sanitário e qualidade da produção. “A gente faz todo esse acompanhamento, avalia a propriedade, orienta o produtor e procura evitar perdas para garantir um casulo de qualidade”, explica Weliton.

Outro diferencial está no aproveitamento dos recursos dentro da propriedade. Os resíduos gerados durante a criação não são descartados. Após a formação dos casulos, folhas e materiais orgânicos acumulados nas camas são retirados e utilizados como adubo nos próprios cultivos de amoreira, reduzindo custos e contribuindo para um sistema mais sustentável. A atividade também exige relativamente pouca mão de obra quando comparada a outras cadeias produtivas. De acordo com os técnicos, uma área de até dois hectares pode ser conduzida por duas ou três pessoas. “É uma atividade voltada para a agricultura familiar. A região de Irati possui muitas pequenas propriedades e encontramos aqui condições ideais para o desenvolvimento da sericicultura”, afirma Weliton.

A expansão para municípios da Amcespar também está relacionada às condições ambientais. As larvas são extremamente sensíveis aos defensivos agrícolas e podem ser afetadas pela deriva de pulverizações realizadas em áreas vizinhas. Por isso, regiões com predominância de pequenas propriedades e menor uso de agroquímicos oferecem melhores condições para o desenvolvimento da atividade.

Atualmente, praticamente toda a produção brasileira de seda é destinada à exportação. França, Japão e outros países europeus figuram entre os principais compradores. O fio produzido no Paraná abastece mercados altamente exigentes e é utilizado na confecção de produtos de alto valor agregado, especialmente na indústria da moda de luxo.

Embora o consumidor brasileiro raramente tenha contato com produtos confeccionados com essa matéria-prima, o fio produzido no Paraná está presente em algumas das mais sofisticadas cadeias da moda internacional. A França, referência mundial em alta-costura, está entre os principais destinos da seda brasileira. O reconhecimento da qualidade do produto é tão grande que produtoras paranaenses já foram premiadas em concursos promovidos pelo Governo do Estado, com viagens para conhecer o destino final da seda produzida no Paraná.

Segundo os técnicos, a demanda internacional continua superior à oferta. “Se tivéssemos três vezes mais produção, ainda haveria mercado para comprar”, afirma Ilson da Costa. Esse cenário tem impulsionado a busca por novos produtores e fortalecido iniciativas de fomento em diversas regiões do Paraná.

Para saber mais detalhes sobre a rentabilidade, investimentos e oportunidades no segmento, assista a reportagem completa no Facebook ou YouTube do Jornal Folha de Irati.

Leia outras notícias