Ariane Luz, com informações de Einstein Hospital Israelita
A saúde do homem ainda esbarra em uma barreira antiga: a ideia de que procurar ajuda é sinal de fraqueza. No episódio do podcast e videocast “O Que Te Trouxe Aqui”, produzido pela Comunicação Institucional do Hospital Israelita Albert Einstein, a jornalista Astrid Fontenelle recebeu o médico de família e comunidade Ricardo Tuma Guariento para discutir prevenção, saúde mental, câncer, cuidado familiar e o peso do machismo na forma como muitos homens lidam com o próprio corpo. Ricardo atua na área de apoio a programas governamentais do Einstein, em uma equipe multidisciplinar ligada a unidades de saúde pública coordenadas pelo hospital.
Logo no início da conversa, Ricardo desmontou uma associação comum: cuidar da saúde masculina não significa falar apenas de próstata. Segundo ele, os homens costumam iniciar exames a partir dos 40 anos, mas essa rotina deve incluir colesterol, diabetes, pressão arterial e outras avaliações de risco. “Geralmente, a gente vai recomendar que o homem comece a fazer exames a partir dos 40 anos. E eu não estou falando de próstata. Estou falando de colesterol, diabetes, medir a pressão”, explicou Ricardo. O médico reforçou, porém, que o cuidado não deve esperar essa idade. “Não é legal esperar chegar nos 40 anos para começar a se cuidar. O ideal é que esse homem vá antes, mesmo que seja numa consulta para conversar”, afirmou.
A resistência masculina ao consultório, para Ricardo, tem raízes culturais profundas. Ele afirmou que muitos homens ainda enxergam cuidado como fragilidade, em um ambiente social marcado pelo machismo. “O homem tem muita dificuldade, na sociedade em que a gente vive, de se cuidar de uma maneira geral, porque entende que cuidado pode ser entendido como fraqueza”, disse. Essa lógica, segundo ele, faz com que muitos sofram em silêncio, com medo do julgamento da família, dos colegas de trabalho ou de outros homens.
Astrid observou que há também o peso do papel de provedor. Ricardo concordou e explicou que, quando o homem se vê como responsável pelo sustento da família, adoecer pode ser interpretado como perda de função. “Se ele está doente, ele não consegue garantir o provimento da família. E, se ele não consegue fazer isso, ele deixa de ser homem. Ele não se enxerga mais como um homem produtivo”, afirmou. O problema é que adiar cuidado pode transformar doenças tratáveis em quadros graves. “Tem algumas doenças que são perfeitamente rastreáveis e curáveis e acabam sendo identificadas muito tarde por essa resistência de procurar ajuda”, alertou.
A conversa ganhou outra camada ao entrar na saúde mental. Ricardo destacou que, entre homens jovens, as principais causas de morte envolvem fatores externos, como suicídio, agressões e acidentes de trânsito, todos relacionados a comportamento, sofrimento emocional e exposição ao risco. “Quando a gente olha a estatística, vê que as mulheres, em geral, aparecem como tendo mais questões de saúde mental, mas os homens se suicidam mais”, afirmou. Para ele, isso não significa que os homens sofram menos, mas que procuram menos ajuda. “Não é que o homem não tem tanta questão de saúde mental quanto a mulher. Ele simplesmente não busca”, completou.
O caminho defendido pelo médico passa pela construção de vínculo com uma equipe de saúde. Ele criticou a ideia de “check-up” como uma lista padronizada de exames e defendeu uma avaliação individualizada, capaz de considerar histórico familiar, trabalho, hábitos, contexto social e sinais clínicos. “Eu não gosto da expressão check-up, porque ela tem uma associação com uma coisa meio padronizada. Um homem de 38 anos vai fazer esta lista de exames. E não é isso. Você tem que entender a pessoa, entender o contexto dela, entender a quais riscos ela está exposta”, explicou Ricardo.
Nesse ponto, a figura do médico de família aparece como porta de entrada para um cuidado mais amplo. Ricardo explicou que a especialidade olha a pessoa dentro do contexto familiar e social, e não apenas a partir de um órgão ou sintoma. “O médico de família e comunidade tem esse objetivo de ver a pessoa como um todo, e não só a pessoa, mas a pessoa inserida dentro do contexto familiar, do contexto social que ela vive”, disse. Ele também lembrou que exame não é apenas sangue ou imagem. “Medir a pressão, fazer uma ausculta cardíaca, palpar o abdômen, é tão importante quanto, se não for mais importante”, afirmou.
O primeiro caso apresentado no programa foi o de Pedro, de 27 anos, que contou a história do pai, Armando. Aos 58 anos, Armando passou a apresentar sangue no papel higiênico, mas tinha forte resistência a procurar atendimento. Com insistência do filho, foi à UBS, realizou colonoscopia e recebeu diagnóstico de câncer de intestino em fase inicial. Operou, ficou bem e, no mesmo processo, descobriu hipertensão. Depois disso, criou vínculo com a equipe da Unidade Básica de Saúde e passou a manter acompanhamento regular.
Ricardo classificou o caso como emblemático. “Deu tempo de agir. Por sorte da interferência do filho e do resto da família, deu tempo de interferir”, avaliou. Segundo ele, muitos pacientes chegam depois de meses ou anos com sintomas, quando o diagnóstico já não permite tratamento curativo. O médico também preferiu usar a expressão “diagnóstico oportuno”, em vez de apenas “precoce”. “Diagnóstico oportuno é assim que aparece alguma coisa que a pessoa enxerga como uma preocupação e eu consigo agir”, explicou.
A história de Armando levou Ricardo a uma frase que sintetizou o episódio: “Quem não se cuida, não cuida”. Para ele, o argumento conversa diretamente com homens que se veem como responsáveis pela família. “Se essa pessoa que é justamente o provedor e o cuidador fica doente e não está bem, como ela cuida das pessoas que quer cuidar?”, questionou. Em seguida, completou: “Ir ao médico, procurar ajuda de saúde, não é fraqueza de maneira alguma. Pelo contrário, é se mostrar forte para estar bem, para cuidar das pessoas que você precisa cuidar”.
O segundo caso mostrou uma face mais silenciosa do problema. Beatriz, de 24 anos, relatou a situação do pai, um homem com pouco mais de 50 anos, criado em ambiente conservador e rígido, com dificuldade de falar sobre sentimentos. Com o avô de 90 anos adoecido, ele passou a carregar medo, tristeza, pressão familiar e responsabilidade prática pelo cuidado. Beatriz contou que o pai quase não tem amigos, evita terapia e busca na comida uma forma de prazer e conforto, o que já afeta sua saúde física.
Ricardo avaliou que a situação envolve toda a família, não apenas o pai de Beatriz. “Esse contexto familiar todo está adoecido, na verdade. E não é culpa de um ou outro. É um contexto inteiro que está adoecido por vários fatores”, disse. Ele associou o caso à forma como muitos homens foram educados para não expressar dor, medo ou fragilidade. “Eu tenho medo do meu pai surtar”, relatou Beatriz. Para Ricardo, o risco é real quando sentimentos, luto e sobrecarga se acumulam sem cuidado. “É uma panela de pressão. Não é figura de linguagem”, afirmou.
A relação entre mente e corpo também foi reforçada. Ricardo explicou que pessoas sob estresse intenso ou em processo de luto podem agravar doenças físicas ou revelar problemas antes silenciosos. “A mente, os órgãos e o corpo estão todos funcionando em consonância. Se a mente não está legal, é claro que o corpo não vai funcionar bem”, disse. O médico citou riscos como infarto e AVC em contextos de grande sofrimento não elaborado.
Para esse tipo de situação, Ricardo defendeu cuidado multiprofissional. O médico pode ser a porta de entrada, mas não deve atuar sozinho. “A terapia, como você falou, um psicólogo está envolvido nesse cuidado, outras pessoas dessa equipe de saúde, um enfermeiro, estarem junto com essas pessoas seria importantíssimo”, explicou. Ele citou a Estratégia de Saúde da Família como exemplo de potência do SUS, por reunir médico, enfermeiro, psicólogo, nutricionista, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta e outros profissionais de acordo com a necessidade da família.
No trecho final, Astrid relatou sua própria experiência como paciente diagnosticada com lúpus aos 16 anos. Ela contou que foi encaminhada por uma ginecologista ao então chamado clínico geral, hoje próximo da figura do médico de família, que depois acionou uma reumatologista. Ricardo aproveitou para explicar que não deve haver disputa entre médico de família e especialista focal. O primeiro acompanha a pessoa ao longo do tempo, com visão ampla; o segundo entra quando há necessidade de avaliação específica e ajustes mais finos. “É um cuidado em equipe. O especialista focal está dentro dessa equipe. Não é uma questão de quem cuida melhor. É uma questão de cada um fazer o seu papel”, afirmou.
Na recomendação final, Ricardo abordou o câncer de próstata. Ele reconheceu que se trata de uma doença importante e que acomete muitos homens, mas explicou que o Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e outras organizações internacionais não recomendam hoje um rastreio organizado universal com PSA e toque retal todos os anos a partir de uma idade fixa, como se fazia antes. A orientação, segundo ele, é conversar com o médico, relatar sintomas, riscos e mudanças percebidas. “O homem é muito mais do que próstata. O homem precisa se cuidar como um todo, e não só da parte da próstata”, concluiu.
Astrid encerrou retomando a frase que atravessou o episódio. “Quem não se cuida, não cuida. Então, homens, cuidem-se”, afirmou. Ricardo agradeceu o convite e reforçou que a saúde do homem ainda é um tema pouco explorado em alguns aspectos. Pouco explorado, mas necessário — especialmente quando o silêncio, a vergonha e o medo continuam atrasando diagnósticos que poderiam mudar vidas.
Você pode acompanhar o podcast inteiro no site: https://www.youtube.com/watch?v=C6OBvDr3LPI&list=PLB_rcPiqiMPyB-iUsXwtu1xK-fYLQcKiy&index=53