Esther Kremer
Com o Dia de Finados se aproximando, no dia 2 de novembro, há quem acredite que a data inspira um momento de reflexão e memória. A reportagem da Folha de Irati resgata a história de uma figura que há mais de um século desperta fé e curiosidade entre os moradores. Uma jovem, cuja vida e morte trágica deram origem a uma devoção popular que atravessa gerações, a história de Santa Albertina.
De acordo com o livro “Santa Albertina: páginas de dor, (in)justiça e devoções populares”, escrito pelos professores e historiadores Hélio Sochodolak, Lucas Kosinski, Leonardo Soczek e Felipe Arnaldo Cezarinho, Albertina nasceu em 1892 e faleceu em 1918, aos 26 anos. Casou-se aos 13 anos, em Curitiba, com Arcílio, interrompendo seus estudos para se dedicar à vida doméstica. Pouco tempo depois, perdeu sua única filha, Judith. “Ela também costumava ensinar versinhos para as crianças da vila, visto que quase se tornara professora, caso não tivesse se tornado mãe; daí o constante desejo de ensinar”, comentam os autores da obra.

Sua história, no entanto, ganhou contornos trágicos em 26 de agosto de 1918, quando um incêndio destruiu a casa em que vivia com o marido, na rua 15 de Julho, na antiga “Villa de Iraty”. Ao final do fogo, os vizinhos encontraram o corpo da jovem sobre a cama, conseguindo apenas evitar que fosse completamente tomado pelas chamas. Ao avisarem Arcílio sobre o ocorrido, o mesmo reagiu de forma suspeita. “Quando percebeu que as pessoas conseguiram poupar o cadáver de Albertina das chamas, revoltou-se e começou a agredir os mais próximos por não terem deixado o corpo queimar. A atitude levantou rápidas suspeitas”, comentam os historiadores.
Foto da lápide de Albertina
O laudo cadavérico apontou hemorragia cerebral causada por traumatismo craniano, o que indicava que houve uma pancada na cabeça. Arcílio foi apontado pela comunidade como o principal suspeito. Porém, a justiça nunca conseguiu comprovar sua culpa, e o mesmo foi absolvido de todas as acusações. “A ausência de provas foi um critério decisivo para a sua absolvição, e, depois disso, ele deixou de vez a pequena Villa de Iraty”.
Do sofrimento à fé popular
Com o passar dos anos, o sofrimento de Albertina transformou-se em devoção. Moradores, em maioria mulheres, começaram a rezar e acender velas em seu túmulo, acreditando que a “mulher queimada” intercedia por pessoas em situações difíceis. Segundo os autores do livro, “ao transmitirem a triste história de Albertina, essas pessoas inverteram o desfecho da trama jurídica, condenando Arcílio como o verdadeiro culpado pela morte de sua mulher. Enquanto no poder judiciário, espaço masculino, por excelência, assiste-se à absolvição do professor, no jazigo, espaço feminino, assiste-se à sua constante condenação”.
Com o tempo, a jovem também passou a ser vista como protetora de mulheres grávidas e de animais de estimação, crença relacionada à relatos populares de que estivesse grávida no momento da morte e ao fato de ter morrido junto com o cachorro de estimação.
Hoje, mais de cem anos após sua morte, o túmulo de Albertina continua sendo frequentemente visitado no Cemitério Municipal, principalmente no Dia de Finados. Embora não canonizada pela Igreja Católica, para muitos iratienses Albertina é uma santa popular, símbolo da fé simples dos populares. “Nesse ínterim, mais do que um ato de fé, as devoções populares se mostram como um ato de resistência a toda violência cometida contra uma mulher, cuja história o passado não queimou. Elas também nos possibilitam encarar melhor o presente, compreender a violência nele praticada e buscar novas alternativas para os tempos que ainda virão”, dizem os autores da obra.
Aqueles que desejam conhecer mais sobre sua história podem acessar o livro que conta mais sobre sua vida, disponível para leitura na Biblioteca Pública Municipal de Irati. A obra resgata não apenas o caso que marcou o início do século passado na cidade, mas também o modo como o povo transformou dor em devoção, mantendo viva a lembrança de uma jovem que, para muitos, continua a realizar milagres.