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Roda de Chimarrão transforma tradição em aprendizado na Escola Nossa Senhora Aparecida

Projeto desenvolvido em escola do campo aproxima os alunos da cultura local, fortalece a oralidade e valoriza a vida no campo por meio de experiências ligadas à erva-mate e às histórias das famílias

Sthefany Brandalise

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A Escola Municipal do Campo Nossa Senhora Aparecida, em Inácio Martins, desenvolve uma atividade que une cultura, tradição e aprendizagem. A Roda de Chimarrão, realizada com alunos do período integral, transforma um hábito presente no cotidiano de muitas famílias da comunidade em uma ferramenta pedagógica para trabalhar oralidade, memória, identidade, convivência e conteúdos de diferentes áreas do conhecimento.

A atividade foi apresentada durante uma visita que fez parte do encontro de representantes Articuladores Regionais e Municipais do Núcleo Regional de Irati. Além de conhecerem a proposta, os participantes acompanharam momentos de interação entre os estudantes, com chimarrão, histórias, músicas e apresentações.

A diretora da escola, Evanize de Fatima da Silva Chagas Kovalski, conta que a ideia surgiu de forma espontânea, a partir do próprio convívio com as crianças. “Eu sempre gostei de tomar chimarrão, e as crianças estavam sempre perto e pedindo, e a gente começou a deixar a água morninha, fazer foto e mandar para os pais, e os pais começaram a gostar da ideia, porque é algo cultural, então a gente pensou, ‘por que não fazer a Roda de Chimarrão?’ E um belo dia a gente convidou as crianças para trazerem a cuia e a gente levou uma surpresa, faltou até erva de tanta cuia que tinha”, disse.

A partir daí, a atividade passou a incorporar também histórias e memórias trazidas pelos próprios estudantes. “A gente começou a contar alguns causos, e eles começaram a trazer alguns também, algo que já era cultural, já era da família, e eles começaram a conversar com as pessoas mais velhas para conhecer histórias mais antigas”, conta Evanize.

Segundo Evanize, os resultados também aparecem dentro da sala de aula e ajuda a fortalecer o sentimento de pertencimento dos alunos. “Na Roda de Chimarrão eles estão com os colegas e conseguem desenvolver ainda mais a criatividade. E trabalhando a oralidade é mais fácil escrever, produzir. Ainda, a interação entre eles ajuda s se sentirem pertencentes à escola, e isso tem ajudado muito eles, tem melhorado bastante os índices de aprendizagem”, afirma.

A escola também conta com parceria para manter o projeto. “Temos a parceria aqui com a erva martinense, a nossa erva que é aqui da nossa região, da localidade do Rio Claro, então eles sempre nos ajudam, fazem doação da erva mate”, explica a diretora.

Durante os encontros, os próprios alunos também aprendem a preparar o chimarrão. “Eles mesmo fazem o chimarrão deles. Tem alguns que ainda estão aprendendo, aí o coleguinha faz para ele, sempre com orientação, mas a intenção é que eles aprendam a fazer o próprio chimarrão”, diz Evanize.

Foto: Talita Ludvchak

A Roda de Chimarrão faz parte das atividades desenvolvidas no período integral. Para a diretora, um dos pontos centrais do projeto é mostrar aos alunos que a realidade do campo também tem valor e merece ser reconhecida. “É uma visão muito importante aqui na nossa escola de que a criança se sinta valorizada como ser humano. Não só como educação do campo, mas como ser humano. O pai que trabalha na roça, que trabalha fazendo erva, ele tem um grande valor. E uma visão que a gente sempre traz para eles é que você não precisa estudar para ser alguém na vida. Você já é alguém estando na escola, sendo criança, e mesmo o pai que não aprendeu a ler, a escrever, ele também é alguém. E alguém muito importante”, finaliza.

A secretária de Educação de Inácio Martins, Marinalda Fernandes, destacou que a Roda de Chimarrão nasceu da própria realidade dos alunos e das famílias da comunidade. Segundo ela, o costume já fazia parte do cotidiano das crianças e foi levado para dentro da escola como forma de aproximar o ambiente escolar de suas vivências, além de valorizar histórias familiares e a presença da erva-mate na identidade do município. “E nós trouxemos essa roda de chimarrão de casa para a escola, fazendo com que as crianças contassem, tivessem aquele amor, aquele aconchego, que eles tinham em casa aqui na escola também”, afirma.

Marinalda também ressaltou sua ligação pessoal com a Escola Nossa Senhora Aparecida. “A escola integral traz para eles uma oportunidade maior, para que eles tenham um futuro ainda melhor”, disse. Ela explica ainda que a Roda de Chimarrão é uma das oficinas realizadas no período integral, junto com outras atividades, como a música.

Os próprios alunos também demonstraram entusiasmo com a atividade e contaram como o chimarrão faz parte tanto da rotina escolar quanto da convivência com a família. Natali destacou: “eu gosto muito da Roda de Chimarrão, que conta causos, histórias e piadas”, disse.

Já Sofia contou que a tradição está presente dentro de casa. “A minha avó ama de chegar de chimarrão. Cedo, tarde, quando a minha mãe vai lá, a primeira coisa que a minha avó faz é oferecer o chimarrão pra ela”.

Julia também relatou que aprendeu com a própria família. “Eu aprendi a tomar chimarrão com minha avó e com meu pai, porque eles sempre são chegados de chimarrão de tarde, de noite e cedo”.

Ao transformar uma tradição comum das famílias em atividade pedagógica, a Escola Municipal do Campo Nossa Senhora Aparecida aproxima a aprendizagem da realidade dos alunos e fortalece vínculos com a comunidade.

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