Karina Ludvichak
A assinatura do convênio para a implantação de uma unidade de processamento e beneficiamento de plantas medicinais em Rebouças foi um dos principais anúncios realizados durante o II Seminário Regional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos: bioeconomia e saúde, realizado na Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), em Guarapuava, na última sexta-feira (29). O empreendimento, fruto de uma parceria entre Itaipu Binacional, Sustentec e Prefeitura de Rebouças, deve receber investimentos superiores a R$ 10 milhões e promete fortalecer a cadeia produtiva das plantas medicinais em toda a região da Amcespar.

Projeto atua em 11 regionais de saúde e alcança mais de 200 municípios paranaenses – Foto: Folha de Irati
O projeto vai além da construção de uma estrutura física. A proposta integra uma política estadual que busca ampliar o uso de plantas medicinais e fitoterápicos no Sistema Único de Saúde (SUS), fortalecer a agricultura familiar e gerar novas oportunidades de renda para pequenos produtores rurais.
Para o prefeito de Rebouças, Laércio Cipriano, o novo investimento representa um passo importante para consolidar um trabalho que já possui raízes profundas no município. Rebouças foi pioneira no reconhecimento das benzedeiras por meio de legislação municipal e desenvolve ações voltadas à valorização dos conhecimentos tradicionais relacionados às plantas medicinais. “Esse projeto complementa um trabalho que já existe no município. As benzedeiras sempre utilizaram plantas medicinais e agora estamos vendo também um potencial econômico ligado à agricultura familiar. Com essa unidade de beneficiamento, não será apenas Rebouças que será beneficiada, mas toda a região”, destacou o Cipriano.
Segundo ele, a iniciativa deve impulsionar a produção regional de matéria-prima para medicamentos fitoterápicos e abrir novas possibilidades de comercialização para agricultores familiares. A expectativa é que a futura unidade receba e processe plantas produzidas em diversos municípios, agregando valor aos produtos antes da chegada ao mercado.
A implantação da agroindústria faz parte de um projeto mais amplo financiado pela Itaipu Binacional e executado pela Sustentec, associação de agricultores familiares sediada em Pato Bragado, no Oeste do Paraná. A iniciativa atua em 11 regionais de saúde e alcança mais de 200 municípios paranaenses, promovendo desde o cultivo das plantas até a capacitação dos profissionais responsáveis pela prescrição dos fitoterápicos.
Coordenadora do projeto e responsável pela capacitação de prescritores, a enfermeira Cleide Santos explica que a ação surgiu da necessidade de fortalecer a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. “O projeto trabalha cinco eixos da política nacional. Entre eles estão a capacitação dos profissionais de saúde, o fortalecimento da cadeia produtiva e a industrialização das plantas medicinais. O objetivo é fazer com que o conhecimento popular dialogue com a ciência e chegue à população de forma segura e qualificada”, afirma.
De acordo com Cleide, a Sustentec desenvolveu ao longo de décadas um conhecimento técnico especializado envolvendo manejo do solo, cultivo, colheita, secagem e processamento das plantas. Esse conhecimento passou a ser compartilhado com agricultores e gestores públicos de diversas regiões do Paraná.
O trabalho também envolve médicos, enfermeiros, farmacêuticos e dentistas da atenção básica, que recebem capacitação para a utilização adequada da fitoterapia dentro do SUS. A intenção é garantir que o uso dos medicamentos naturais ocorra de forma segura, respeitando possíveis interações com outros tratamentos já utilizados pelos pacientes.
Além da atuação da Sustentec e da Itaipu, as universidades desempenham papel estratégico na construção do projeto. Na região da Amcespar, a Unicentro tornou-se uma importante parceira por meio de ações ligadas à agricultura comunitária, agroecologia e extensão universitária.
O professor Paulo Nobukuni, do Departamento de Geografia da Unicentro de Guarapuava, explica que a aproximação ocorreu a partir dos projetos de hortas urbanas comunitárias desenvolvidos em parceria com a Itaipu. Atualmente, a iniciativa reúne profissionais de diferentes áreas do conhecimento, incluindo agronomia, farmácia, biologia, engenharia de alimentos e saúde. “Nós trabalhamos com uma metodologia comunitária baseada na troca de conhecimentos, sementes e mudas. É uma construção coletiva que fortalece a segurança alimentar, gera renda e valoriza os saberes populares”, explica.
O modelo tem apresentado resultados práticos em Guarapuava. Um dos exemplos é a agricultora Jane da Cruz, participante de uma horta comunitária que reúne 23 famílias. Além da produção para consumo próprio, ela comercializa ervas medicinais na feira agroecológica do município e utiliza os produtos em uma cozinha comunitária que produz pães e outros alimentos para geração de renda. “A participação no projeto aumentou nossa produção e ajudou na renda das famílias. Hoje temos um espaço dedicado às plantas medicinais e muitas pessoas procuram essas ervas para chás e outros usos”, relata.
O potencial econômico da cadeia produtiva também desperta interesse internacional. O assessor acadêmico da Universidade de Varsóvia, Pawel Wiechetek, acompanhou o seminário e destacou a relevância do projeto para agregar valor à produção local.
Segundo ele, o Paraná possui condições favoráveis para se tornar referência na industrialização de plantas medicinais. Um dos desafios apontados é evitar que matérias-primas produzidas no estado sejam enviadas para outros países ou regiões para processamento, fazendo com que o valor agregado deixe o território paranaense. “A proposta é fortalecer toda a cadeia produtiva, desde o agricultor até a industrialização. Isso gera emprego, renda e cria oportunidades para que os pequenos produtores permaneçam no campo”, observa.
A experiência desenvolvida no Paraná também tem despertado interesse de instituições internacionais ligadas à pesquisa em agricultura, sustentabilidade e plantas medicinais. A cooperação entre universidades brasileiras e polonesas tem contribuído para a troca de conhecimentos científicos e tecnológicos voltados ao desenvolvimento regional.
Com a futura instalação da unidade de beneficiamento em Rebouças, a expectativa é que a região da Amcespar amplie sua participação nesse processo, consolidando-se como um polo de produção, processamento e distribuição de plantas medicinais. Mais do que um investimento em infraestrutura, o projeto representa a união entre conhecimento popular, pesquisa científica, agricultura familiar e políticas públicas de saúde, criando novas perspectivas para o desenvolvimento sustentável dos municípios paranaenses.