Nilton Pabis. diretor do Jornal Folha de Irati
Em uma eleição proporcional, toda candidatura é legítima. Mas seus efeitos ultrapassam as ambições de quem coloca o nome na urna e podem repercutir sobre a representação política de uma comunidade inteira.
A democracia pressupõe liberdade de escolha, inclusive a liberdade de ser candidato. Todo cidadão que cumpra as exigências legais tem o direito de apresentar seu nome à população, defender suas ideias e buscar um mandato eletivo. Esse princípio não está em discussão.
O que merece reflexão é algo diferente: a responsabilidade que acompanha a decisão de disputar uma eleição para deputado estadual ou federal.
Há candidaturas construídas ao longo dos anos, sustentadas por presença regional, articulação política, estrutura partidária e uma estratégia destinada efetivamente à conquista de uma cadeira no Legislativo. Há também candidaturas cujo objetivo pode estar mais relacionado à ampliação da visibilidade pessoal, à consolidação de um grupo político ou à preparação de terreno para uma futura disputa municipal. Ambas são legítimas perante a lei.
Mas não necessariamente produzem as mesmas consequências para a comunidade. É justamente aí que o debate precisa abandonar as paixões eleitorais e ingressar no terreno da responsabilidade política.
Uma votação local expressiva demonstra confiança, consolida relações políticas e pode fortalecer a presença de determinada região na agenda de seus representantes. Da mesma maneira, uma votação excessivamente pulverizada pode fazer com que um município encerre a eleição sem demonstrar apoio eleitoral significativo aos parlamentares que efetivamente exercerão mandato nos quatro anos seguintes.
É nesse contexto que uma pergunta se torna inevitável: uma candidatura está sendo construída para conquistar um mandato ou principalmente para construir o candidato para a próxima eleição? A diferença é substancial.
Não há nada de condenável em alguém desejar construir uma carreira política. Ambição, quando acompanhada de compromisso público, faz parte da democracia e permitiu o surgimento de inúmeras lideranças importantes.
A questão surge quando uma eleição para deputado passa a ser utilizada predominantemente como plataforma de lançamento para uma disputa futura a prefeito.
Nesse cenário, os benefícios políticos podem ser essencialmente individuais: maior exposição, crescimento do conhecimento eleitoral, formação de grupo, fortalecimento de imagem e preparação para a eleição municipal seguinte. Enquanto isso, os efeitos da candidatura são compartilhados pela comunidade.
Por essa razão, responsabilidade política não deveria ser exigida apenas de quem exerce mandato. Ela deveria começar antes, no próprio momento em que alguém decide colocar seu nome à disposição dos eleitores.
Uma candidatura ao Legislativo estadual ou federal deveria apresentar à sociedade não apenas boas intenções, mas um projeto consistente: capacidade de articulação, presença regional, estrutura política e uma estratégia minimamente plausível para buscar o mandato pretendido. Isso não significa defender candidatura única. Tampouco significa negar espaço a novas lideranças. Renovação política é saudável. Pulverização eleitoral e renovação política, porém, não são necessariamente a mesma coisa.
Antes de escolher um deputado, o cidadão pode ir além da propaganda eleitoral, das relações pessoais, das fotografias, dos discursos e das promessas de campanha.
Pode perguntar: esse candidato está efetivamente disputando para exercer o mandato que pede ao eleitor? Qual a real possibilidade de vitória? E qual projeto político existe por trás dessa candidatura?
Nenhuma dessas perguntas pretende retirar de alguém o direito de concorrer. Elas fazem justamente o contrário: valorizam o direito do eleitor de conhecer, comparar e decidir. A democracia não se fortalece quando o cidadão simplesmente escolhe um nome. Ela se fortalece quando ele compreende as consequências de sua escolha.
Por isso, talvez a pergunta mais importante diante de uma eleição para deputado não seja apenas “em quem vou votar?”, mas também: “que tipo de representação quero ajudar a construir para o meu município e para a minha região?”
O voto não pertence ao candidato, ao partido ou às lideranças políticas. Pertence exclusivamente ao cidadão. Cabe a cada eleitor, portanto, avaliar propostas, trajetórias, compromissos e objetivos e formar livremente sua própria convicção. Porque o direito de lançar uma candidatura é individual. Mas os efeitos da representação política são coletivos. A campanha termina quando as urnas são fechadas. Os projetos eleitorais pessoais seguem seus caminhos. O município, porém, conviverá durante os quatro anos seguintes com as consequências das escolhas feitas naquele domingo.