Karina Ludvichak
A crise financeira da Belagrícola, uma das maiores distribuidoras de insumos do Paraná, desencadeou um movimento de mobilização entre produtores rurais da região dos Campos Gerais e cidades próximas. Credores da empresa e, ao mesmo tempo, clientes com contratos ativos, agricultores afirmam que as condições propostas no plano de recuperação extrajudicial são inviáveis e podem agravar ainda mais a situação no campo.
A companhia protocolou, em dezembro de 2025, pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 3,2 bilhões em dívidas, sendo que R$ 2,2 bilhões são dívidas quirografárias.
Fundada em 1985, em Bela Vista do Paraíso (PR), e controlada pelo grupo chinês Pengdu desde 2017, a empresa atua na distribuição de insumos, produção de sementes e armazenagem de grãos, atendendo milhares de produtores no Paraná, São Paulo e Santa Catarina.
TROCA DE COMANDO EM MEIO À CRISE
Em meio ao processo de recuperação, a Belagrícola anunciou no início desta semana a substituição do comando executivo. O novo CEO passou a ser Eron Martins, ex-presidente da AgroGalaxy, que já havia conduzido processo de recuperação judicial na empresa anterior. Ele assume no lugar de Alberto Araujo, que esteve à frente da companhia por 13 anos e agora integra o Conselho de Administração.
A mudança foi apresentada como parte de uma transição estratégica para ampliar a eficiência operacional e enfrentar os desafios do agronegócio brasileiro. Para os produtores, porém, a expectativa é que a nova gestão reavalie as condições propostas aos credores.
ACORDO PARA RECEBIMENTO DE GRÃOS COM COOPERATIVAS
Na terça-feira (24), após a troca de comando, a empresa anunciou acordo operacional com a Coamo Agroindustrial Cooperativa e com a Lar Cooperativa Agroindustrial para prestação de serviços de recebimento de grãos em 19 unidades no Paraná durante a safra 2025/26.

Pelo acordo, a Belagrícola seguirá recebendo seus próprios grãos e também prestará serviço de armazenagem para as cooperativas.
Entre os produtores, a notícia foi recebida com cautela. Se por um lado amplia as alternativas logísticas em municípios como Tibagi, por outro gera insegurança quanto à operacionalização prática e à segurança das entregas.
GRÃOS RETIDOS E PROPOSTAS CONSIDERADAS INVIÁVEIS
Em Tibagi, o produtor Luciano Galvão relata que tem 3.400 sacas de soja depositadas na empresa. Segundo ele, a proposta mais recente prevê pagamento de 10% à vista e o restante em cinco parcelas anuais de 18%. No entanto, para receber cada parcela, o produtor precisaria comprar insumos equivalentes a 2,5 vezes o valor a ser pago. “Você tem que pagar primeiro para eles, comprando produto, para depois receber algo que já é seu”, resume.
Luciano afirma que também possui contratos ativos de entrega de grãos referentes a insumos financiados. Ele tentou negociar o abatimento de valores, mas não houve acordo. Para ele, aceitar as condições significaria comprometer o planejamento financeiro da propriedade. “A gente tem financiamento de trator, de barracão, custeio. Não dá para simplesmente abrir mão disso”.
Já o agricultor e engenheiro agrônomo José Lucas Matos de Mello relata que foi surpreendido com o bloqueio das operações logo após entregar sua safra de trigo. Ele afirma que precisou honrar compromissos com outras empresas sem ter recebido pela produção. “Fomos pegos de calça curta. As contas vencem, e o produto ficou retido. Muitos vivem exclusivamente disso”.
Segundo ele, a proposta apresentada aos produtores tem sido acompanhada de pressão para assinatura rápida, sob argumento de prazos judiciais. Ainda assim, a maioria tem buscado orientação jurídica antes de qualquer decisão.
A advogada especialista em agronegócio, Mirian Kolicheski, chama atenção para outro ponto sensível do acordo, que é o risco ambiental. Segundo ela, produtores que arrendam terras ou que receberem insumos acima da necessidade podem acabar incorrendo em irregularidades caso tentem revender ou armazenar produtos de forma inadequada. “Venda irregular ou armazenamento indevido de insumos pode gerar responsabilidade ambiental e até criminal”, alerta.
Ela também orienta que produtores não cedam à pressão e busquem análise individualizada dos contratos. “Ainda há etapas jurídicas a serem cumpridas. Não é porque foi pedido que será automaticamente homologado”.
MOVIMENTO GANHA FORÇA
Diante do cenário, produtores da região organizaram um grupo que já reúne mais de 220 participantes na região dos Campos Gerais e cidades ao em torno. A mobilização busca fortalecer a negociação coletiva e garantir assessoria jurídica especializada.
Segundo José Lucas, muitos agricultores inicialmente acreditavam que o problema era isolado. “Quando criamos o grupo, vimos que eram centenas na mesma situação”.
Luciano reforça a importância da união. “O produtor também movimenta o Brasil. Se a gente não se unir, fica difícil ser ouvido”.
Com a colheita da soja em andamento, a principal preocupação agora é onde destinar a produção atual e como manter o fluxo de caixa para a próxima safra. Alguns produtores já buscam alternativas em cooperativas e outras cerealistas da região.
Apesar da apreensão, há expectativa de que o cenário ainda possa ser reavaliado judicialmente e que as condições sejam revistas. “A gente acredita que pode haver um caminho mais equilibrado. Mas precisa diálogo”, afirma José Lucas.
Enquanto isso, no campo, a produção segue, acompanhada de incerteza, cautela e mobilização.