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Modelo produtivo combina manejo sustentável da erva-mate com a aposta em um mercado promissor para a carne ovina
Sistema de manejo integrado garantiu selo de erva-mate orgânica à propriedade - Foto: Karina Ludvichak

Karina Ludvichak e Nilton Pabis

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No Faxinal dos Elias, zona rural de São Mateus do Sul, em uma propriedade localizada a 22 km da PR-364, um modelo de produção integrado tem chamado atenção pela forma como une diferentes atividades no mesmo espaço. Na propriedade do casal Jonas Staniszewski de Lima e Isabella Cristine Kozlinskei a criação de ovinos convive diretamente com o cultivo de erva-mate, formando um sistema produtivo que busca reduzir custos, melhorar o manejo do solo e gerar renda complementar.

Manejo integrado promove redução de gastos na produção da erva-mate – Foto: Karina Ludvichak

A iniciativa começou em 2009, quando o casal decidiu introduzir os animais no erval como forma de manter o terreno limpo e, ao mesmo tempo, aproveitar melhor a área da propriedade. O cultivo de erva-mate continua sendo a principal atividade, mas a ovinocultura passou a ter papel importante dentro do sistema produtivo. “O nosso foco a princípio foi a erva-mate. A criação de ovinos entrou para manter o erval limpo com um custo mais baixo e também para gerar uma renda extra”, explica Jonas.

Hoje, cerca de 116 ovinos permanecem soltos no erval, realizando o pastoreio durante o dia, enquanto outros 21 animais ficam em um sistema de semi-confinamento, voltados para o abate e comercialização da carne. A integração entre lavoura e criação animal gera benefícios diretos para o manejo da plantação. “O custo de manutenção do erval reduz bastante. Além disso, tem a adubação natural. O ovino puxa o nutriente do solo quando se alimenta e devolve ele de volta no esterco, então acontece uma reciclagem de nutrientes”, afirma Jonas.

O sistema, no entanto, exige cuidados específicos. Os animais permanecem no erval principalmente durante o verão, quando o pasto natural é mais abundante. No inverno, quando o pasto enfraquece, eles são transferidos para áreas com cultivo de aveia e azevém.

A rotina diária também segue horários definidos. Os ovinos são soltos por volta das 9h ou 10h da manhã e permanecem pastando até o fim da tarde. Segundo o produtor, o horário ajuda a evitar problemas sanitários. “De manhã cedo tem maior risco de verminose porque o parasita fica mais exposto no capim. Quando o sol aparece, ele desce para o solo. Por isso soltamos os animais mais tarde”, explica.

A raça predominante na propriedade é a Santa Inês, escolhida por sua adaptação ao sistema e por não possuir lã. A decisão também foi influenciada pela indústria ervateira, que prefere animais sem lã para evitar que fios fiquem presos nos galhos da erva-mate.

Na foto: Jonas, Isabella e a filha do casal, Alice – Foto: Reprodução

Mesmo com os cuidados, o manejo precisa ser constante. “Quem pensa que vai colocar o ovino no erval e deixar o ano inteiro está enganado. Tem que ter manejo. Se não controlar, ele pode quebrar ou comer a erva”, ressalta Jonas.

Além de auxiliar no manejo do erval, parte do rebanho é destinada à produção de carne. Após o desmame, os cordeiros são levados para uma área de semi-confinamento onde recebem suplementação alimentar com sal mineral e trigo produzido na própria propriedade. “O objetivo é terminar bem a carcaça. Se vender um animal muito magro, o cliente não volta a comprar”, explica o agricultor.

Uma parcela dos ovinos são criados em sistema de semi-confinamento na propriedade – Foto: Reprodução

Os cordeiros permanecem no confinamento por cerca de 90 dias, até atingirem em média 18 a 20 quilos de carcaça, peso considerado ideal para comercialização.

Apesar da produção consolidada, o casal enfrenta dificuldades para acessar mercados formais. “O grande desafio para o pequeno produtor é chegar até o frigorífico”, afirma Jonas. “Se eu tiver dez animais por mês, por exemplo, não consigo levar para uma rede frigorífica”.

Isabella ressalta que a falta de logística e de políticas que aproximem pequenos produtores do mercado formal limita a expansão da atividade. “Existe procura pela carne ovina, mas falta esse elo entre o produtor e o frigorífico. Isso faz a gente ficar com receio de aumentar o rebanho”, disse.

Mesmo assim, o casal acredita no potencial do setor. “É rentável, sim. Se tiver um mercado mais organizado para vender, a gente tem vontade de aumentar a produção”, completa a produtora.

OUTRAS ATIVIDADES

A diversificação é uma característica da propriedade. Além da erva-mate e da criação de ovinos, que juntos representam cerca de 60% da renda, o casal também cultiva soja, atividade responsável pelos outros 40% do faturamento anual.

40% da renda da propriedade vem do cultivo da soja – Foto: Karina Ludvichak

A lavoura ocupa cerca de 33 alqueires, área cultivada em parceria com familiares. No entanto, segundo Jonas, a produção agrícola apresenta maior dependência do clima e exige investimentos mais elevados. “Na soja o investimento é bem maior, com máquinas, fertilizantes e correção de solo. Já na erva-mate e nos ovinos o custo é menor e o retorno é mais estável”, explica.

SELO ORGÂNICO VALORIZA ERVA-MATE

A propriedade também recebeu reconhecimento pela forma como conduz o cultivo da erva-mate. Como não utiliza defensivos químicos desde 2009, o erval conquistou um selo de produção orgânica, certificado com apoio da indústria ervateira. “Eles vieram até nós e propuseram buscar o selo de erva-mate orgânica. Já estamos há cerca de quatro anos com essa certificação”, conta Jonas.

O reconhecimento agregou valor ao produto final. “A erva-mate ficou mais lucrativa porque foi agregado um valor em cima dela”, afirma Isabella.

Parceria com o Sistema Faep garante assistência na organização de diversos setores – Foto: Nilton Pabis

PARCERIA COM O SISTEMA FAEP

Outro fator que tem contribuído para o desenvolvimento da atividade é a parceria com o Sistema FAEP, que oferece assistência técnica e apoio à gestão da propriedade por meio de programas voltados à ovinocultura.

A participação começou há pouco mais de um ano, quando técnicos da instituição organizaram um grupo de produtores da região para receber acompanhamento especializado. “Eles vieram até nós por meio de um conhecido que também cria carneiros. Primeiro fazem uma visita para entender a produção e ver se o produtor se encaixa no programa”, explica Isabella.

A parceria inclui orientação técnica sobre manejo, sanidade, alimentação e controle produtivo, além de apoio na organização financeira da atividade. “Desde a parte técnica até as anotações do que entra e do que sai. Vacinação, alimentação, tudo isso eles ajudam a organizar”, observa.

Segundo o casal, a maior mudança ocorreu justamente na gestão financeira. “A parte técnica a gente aprende lidando no dia a dia, mas a parte financeira era muito bagunçada. Agora a gente consegue ter controle melhor”, conta Jonas.

Isabella concorda que o acompanhamento ampliou a visão sobre a atividade. “Mudou muito. O leque abre para a gente e a gente percebe quantas coisas erradas fazia antes”.

EXPECTATIVA DE CRESCIMENTO

Apesar dos desafios, o casal pretende continuar apostando no sistema integrado entre erva-mate e ovinocultura. Atualmente, o rebanho poderia até ser ampliado, já que a área disponível permitiria comportar mais animais.

No passado, a propriedade chegou a ter cerca de 340 ovinos, número que diminuiu após a pandemia e a queda no consumo.

Ainda assim, o casal acredita que a atividade tem potencial de crescimento, desde que o mercado se torne mais acessível aos pequenos produtores. “A gente quer continuar. O ovino ajuda muito no manejo do erval. Se tiver um mercado mais estruturado para vender a carne, dá para aumentar a produção e investir ainda mais”, finaliza Jonas.

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