Karina Ludvichak, com informações AEN
A possibilidade da formação de um “super El Niño” entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027 tem gerado preocupação entre agricultores, pesquisadores e especialistas em clima em todo o Brasil. No Paraná, a previsão é de aumento significativo das chuvas, situação que pode provocar prejuízos para diversas culturas agrícolas, além de impactos urbanos, ambientais e econômicos.
Na busca por amenizar os impactos causados pelo fenômeno, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) acompanha semanalmente a evolução do El Niño. Com previsão de grandes mudanças nas condições atmosféricas ainda este ano, a Defesa Civil do Paraná também atua na orientação das prefeituras, com ações preventivas, treinamentos e simulações, além da disponibilidade de recursos.
De acordo com a chefe do Departamento de Geografia da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) – Campus Irati – e doutora em Geografia, Andreza Rocha, o fenômeno ainda está em fase de monitoramento, mas os relatórios mais recentes apontam para um aquecimento contínuo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, condição que caracteriza a formação do El Niño. “Ainda estamos em um período de transição entre estações, saindo do outono e entrando no inverno, o que gera algumas incertezas. Mas os dados mais recentes mostram um aumento da temperatura do Oceano Pacífico, e isso faz com que os cientistas trabalhem com uma probabilidade cada vez maior da ocorrência de um super El Niño”, explica.

Segundo Andreza, o monitoramento é realizado por meio de bóias oceânicas, robôs aquáticos, navios de pesquisa e equipamentos espalhados pelos oceanos do planeta. Esses sistemas acompanham constantemente a variação da temperatura das águas.
Ela explica que o El Niño é um fenômeno natural causado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Embora ocorra longe do Brasil, seus efeitos são sentidos em diversas partes do planeta. “É como jogar uma pedra em uma lagoa. As ondas se espalham. O que acontece no Pacífico influencia a circulação atmosférica e acaba afetando também a América do Sul”, compara.
ORIGEM E OBSERVAÇÃO
Andreza conta que o nome “El Niño” surgiu entre pescadores peruanos, que perceberam alterações na temperatura das águas e na quantidade de peixes próximos ao período do Natal. “O fenômeno recebeu esse nome em referência ao Menino Jesus, porque seu pico normalmente acontece próximo de dezembro”, comenta a pesquisadora.
No Sul do Brasil, especialmente no Paraná, o principal efeito esperado é o aumento das precipitações. Conforme Andreza, o excesso de chuvas pode provocar enchentes, enxurradas, alagamentos, deslizamentos de terra e até queda de barreiras em rodovias. “Nós já estamos percebendo um aumento da intensidade das chuvas, mas esse processo deve atingir seu ápice entre o verão de 2026 e 2027”, afirma.
Enquanto o Sul deve registrar excesso de precipitação, outras regiões brasileiras podem enfrentar o efeito contrário. No Norte e Nordeste, por exemplo, a tendência é de estiagem e aumento do risco de incêndios florestais. Já na região Central do país, a primavera tende a ser mais quente do que o normal.

IMPACTOS NA AGRICULTURA
Além dos impactos urbanos e ambientais, a agricultura aparece entre os setores mais sensíveis às alterações climáticas provocadas pelo fenômeno. O coordenador do curso de Agronomia da universidade Campo Real, Cícero Adonis Tafarel, explica que os reflexos variam conforme a cultura agrícola e o período de plantio. “Quando falamos de agricultura, precisamos analisar cultura por cultura. Aqui na nossa região, as principais culturas de inverno são o trigo e a cevada, justamente em uma época em que o El Niño tende a intensificar as chuvas”, ressalta.
Segundo ele, historicamente os anos de El Niño apresentam menor potencial produtivo para essas culturas no Paraná e no Sul do Brasil. Isso ocorre porque o excesso de chuva coincide com períodos críticos das plantas, como floração, enchimento de grãos e colheita. “O produtor pode enfrentar redução na produtividade e perda de qualidade dos grãos, além do aumento da aparição de doenças fúngicas que se favorecem de ambientes úmidos”, explica.

Outro ponto de preocupação é o aumento dos custos de produção. Conforme Cícero, os fertilizantes e produtos utilizados no manejo fitossanitário já vêm apresentando alta nos últimos anos, tornando as culturas de inverno cada vez mais desafiadoras financeiramente. “Com mais chuva, o produtor precisa investir ainda mais em manejo preventivo, cobertura do solo e controle de doenças. Isso acaba elevando os custos”, comenta.
Na região Centro-Sul do Paraná, a janela de plantio das culturas de inverno vai do final de abril até o início de julho. Diante da previsão climática, especialistas recomendam cautela e atenção ao manejo das lavouras. “O produtor precisa acompanhar constantemente a condição da lavoura e agir de forma preventiva, principalmente no controle de doenças e na proteção do solo contra erosão”, orienta o agrônomo.
Segundo ele, a cobertura vegetal ganha ainda mais importância durante períodos de excesso de precipitação. Culturas como aveia e centeio podem ser utilizadas para proteger o solo e reduzir os impactos causados pelas chuvas intensas.
Além das culturas de inverno, o fenômeno também deve impactar a safra de verão, incluindo soja, milho, feijão e tabaco. A expectativa é de atraso na semeadura devido à dificuldade de entrada de máquinas nas lavouras em períodos muito chuvosos. “Historicamente, em anos de El Niño, o plantio da soja acaba se alongando além do período ideal, justamente porque o solo permanece úmido por mais tempo”, explica Cícero.
Mesmo diante dos desafios, os especialistas reforçam que ainda é necessário acompanhar os próximos relatórios climáticos antes de qualquer conclusão definitiva. Atualmente, a probabilidade da ocorrência de um super El Niño já ultrapassa 80%, podendo chegar perto de 96% até o segundo semestre de 2026.
Enquanto isso, pesquisadores, agricultores e órgãos de monitoramento seguem atentos às mudanças no Oceano Pacífico Equatorial e aos possíveis impactos que o fenômeno pode trazer para a agricultura, a economia e o cotidiano da população brasileira.