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Por iniciativa da Braspol, Educação de Irati terá língua polonesa nas escolas

Programa começa em escolas municipais de tempo integral, prevê cursos para a comunidade e busca unir preservação das raízes e formação educacional
Aulas já tiveram início nas escolas em tempo integral e alunos demonstraram grande interesse. Foto: Esther Kremer

Esther Kremer

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A Prefeitura de Irati iniciou a implantação do Programa Municipal de Valorização da Língua e Cultura Polonesa, que levará o ensino do idioma polonês para estudantes da rede municipal. A primeira etapa deverá alcançar três escolas que funcionam em período integral, enquanto o projeto formal prevê uma implantação piloto em unidades selecionadas e, posteriormente, a ampliação gradual para toda a rede municipal de tempo integral.

A iniciativa, proposta pela Braspol/Irati, nasce da forte presença da imigração polonesa na formação histórica, cultural e social do município. Com esse modelo, Irati se torna pioneiro na região, o ?? do Paraná e o ?? do Brasil a ter um projeto que, além da preservação das tradições, busca aproximar as novas gerações de uma Polônia contemporânea ligada à educação, pesquisa, ciência, tecnologia e inovação.

O programa busca transformar herança cultural e instrumento de educação. Foto: Ariane Luz

A língua será trabalhada dentro da programação da educação integral, como uma atividade complementar, ao lado de outras oficinas oferecidas aos estudantes. O projeto prevê aulas semanais com comunicação básica, vocabulário cotidiano, história da imigração polonesa, literatura infantil, música, dança, folclore, gastronomia e tradições culturais. As aulas já começaram nas Escolas Plínio Anciutti Pessoa, João Paulo II e Professora Antonina Fillus Panka, tendo como professoras Zuleika Onesko e Luziana Spegiorin Surek.

Além das crianças das escolas municipais, a proposta é mais abrangente e prevê também cursos para a comunidade, destinados a descendentes de imigrantes, jovens, adultos, idosos, professores, servidores públicos, integrantes de grupos culturais e qualquer pessoa interessada em aprender o idioma.

Uma história que começou antes da emancipação de Irati

O projeto elaborado pela Secretaria Municipal de Educação, em parceria com a BRASPOL – Representação de Irati, registra que os primeiros núcleos de imigrantes poloneses chegaram à região entre 1904 e 1911. Desde então, religião, gastronomia, dança, música, costumes e elementos da própria língua foram transmitidos de geração em geração.

Ao longo do tempo, entretanto, parte do idioma acabou se perdendo entre os descendentes. A criação de um programa estruturado dentro da rede pública busca recuperar justamente esse elo.

A presidente da BRASPOL de Irati, Nelsi Pabis, explica que a proposta surgiu com dois olhares: preservar a memória daqueles que chegaram ao Paraná há mais de um século e apresentar às crianças aquilo que a Polônia representa atualmente. “Este projeto nasce da necessidade de honrar nossos antepassados, mas também de olhar para uma nova Polônia, próspera e voltada para a educação”, afirmou.

O projeto considera que o domínio da língua poderá ampliar o repertório linguístico dos estudantes, contribuir para o desenvolvimento cognitivo, fortalecer relações institucionais entre Brasil e Polônia e, futuramente, favorecer intercâmbios culturais e educacionais.

Os alunos terão contato com a história da imigração e toda a cultura polonesa. Foto: Esther Kremer

A proposta também parte do entendimento de que a Polônia contemporânea oferece possibilidades em áreas que dialogam com o futuro profissional das novas gerações. O país vem ganhando projeção em segmentos como tecnologia da informação, inteligência artificial, cibersegurança, fintechs, startups, jogos digitais, automação e pesquisa científica.

Para o prefeito Emiliano Gomes, o ensino da língua pode se transformar no primeiro passo de uma relação mais ampla entre Irati e instituições polonesas. “Formar nossos alunos em uma língua diferente do inglês é prepará-los para um mundo mais integrado, com mais parcerias, respeito e cooperação. A ponte com a Polônia começa nas salas de aula, mas poderá avançar para novas iniciativas de desenvolvimento regional”, destacou.

Emiliano considera que os vínculos históricos construídos pelos imigrantes podem agora servir de base para novas parcerias. “A Polônia já contribuiu muito para Irati por meio de seus imigrantes. Agora, buscamos novamente estabelecer parcerias para a troca de experiências na agricultura, na tecnologia, na inovação e em outros campos”, afirmou.

Projeto foi lançado com presença de cientistas da Universidade de Varsóvia

O lançamento oficial ocorreu na Câmara Municipal de Irati e reuniu alunos, professores, vereadores, representantes da comunidade e autoridades. A solenidade ganhou uma dimensão internacional com a presença dos pesquisadores poloneses Konrad Zawadski, Łukasz Drewniak e Namrata Joshi, da Universidade de Varsóvia.

Os cientistas estiveram na região dentro das atividades da Estação Científica Paraná–Polônia, iniciativa que aproxima universidades paranaenses e a Universidade de Varsóvia. A articulação envolve Unicentro, UEPG, UFPR, Unioeste e a instituição polonesa.

Durante a passagem pela região, os pesquisadores também estiveram reunidos com o prefeito Emiliano para discutir possibilidades de estreitamento das relações acadêmicas e institucionais.

Konrad Zawadski, vice-diretor do Centro de Pesquisas Biológicas e Químicas da Universidade de Varsóvia, falou em português durante a cerimônia e dirigiu uma mensagem especialmente aos estudantes. “A língua polonesa vai aproximar vocês ainda mais da Polônia, dos seus descendentes e das suas raízes. Aprender uma nova língua é uma aventura, e esperamos que vocês aprendam muitas palavras e façam muitos amigos”, afirmou.

O pesquisador também colocou a Universidade de Varsóvia à disposição para colaborar com materiais e metodologias de ensino. “Podemos buscar materiais educacionais para que as crianças aprendam polonês com métodos semelhantes aos utilizados na Polônia”, disse.

Ensino vai além das palavras

A metodologia prevista mostra que o programa não pretende limitar as aulas à gramática e à tradução. Os alunos deverão ter contato com a história da imigração, literatura, música, dança, folclore, gastronomia e demais tradições. A proposta é que a língua seja apresentada dentro de um contexto cultural, facilitando a aprendizagem e fortalecendo o sentimento de pertencimento.

O documento também prevê atividades complementares como Semana da Cultura Polonesa, mostras culturais, concursos de redação e desenho, festivais de música e dança, palestras, oficinas e intercâmbios virtuais com instituições da Polônia.

A professora Zuleika Onesko, que já trabalha com o ensino de polonês para adultos e deverá atuar inicialmente no programa ao lado de Luziana Spegiorin Surek, destaca que conhecer outro idioma significa também ampliar horizontes. “Ensinar polonês é fazer com que os alunos conheçam uma nova cultura e percebam a grande quantidade de oportunidades que o domínio de uma nova língua pode proporcionar”, afirmou.

Neste primeiro momento, segundo a secretária de Educação de Irati, Elicéia Halatik Szereda, as professoras serão contratadas por credenciamento. A intenção, entretanto, é desenvolver uma estrutura permanente de capacitação.

O projeto prevê expressamente a formação de professores e monitores, além da produção e adaptação de materiais didáticos específicos para a realidade de Irati. “Nossa intenção é que, no futuro, professores habilitados possam realizar uma imersão na Polônia, ampliando seus conhecimentos sobre a cultura e as metodologias de ensino”, explicou Elicéia.

Para a secretária, o aprendizado precisa ser entendido também como uma forma de conhecer o mundo. “A ideia é que os alunos possam viajar pelo mundo, primeiramente, por meio da cultura. O domínio de uma segunda língua abre as portas para um novo universo”, afirmou.

Uma diferença importante entre a primeira etapa anunciada e o projeto completo é que o programa não termina nos portões das escolas. O documento prevê cursos comunitários em níveis básico, intermediário e de conversação, além de turmas específicas sobre cultura e tradições polonesas. As aulas poderão acontecer em escolas municipais, centros culturais, bibliotecas e outros espaços públicos.

A proposta é alcançar pessoas de diferentes idades, incluindo aqueles que cresceram ouvindo palavras ou expressões em polonês dentro de casa, mas nunca tiveram a oportunidade de estudar formalmente o idioma.

A implantação será gradual

O cronograma do projeto estabelece uma primeira fase destinada ao planejamento, formalização de parcerias, seleção de professores e preparação dos materiais. Depois, prevê implantação piloto em escolas selecionadas, fase esta que já está acontecendo, início dos cursos comunitários e avaliação dos resultados.

No ano seguinte, a proposta é avançar para a ampliação gradual em toda a rede de tempo integral, consolidar os cursos oferecidos à população e realizar anualmente uma Semana da Cultura Polonesa.

Lançamento oficial do projeto aconteceu na Câmara de Vereadores e contou com a presença de pesquisadores poloneses. Foto: Nilton Pabis

A vereadora e professora Silvana Rezepka, que participou das discussões, lembra que a proposta começou a ser construída ainda no ano passado. “Ao longo do primeiro semestre fomos trabalhando o tema até formatar o projeto. É muito empolgante participar de uma iniciativa que envolve educação e abre as portas para um novo mundo”, afirmou.

O programa deverá ser acompanhado por indicadores como número de escolas, quantidade de estudantes e membros da comunidade atendidos, permanência nos cursos, eventos realizados e avaliação de satisfação dos participantes.

O programa busca transformar uma herança de mais de um século em instrumento de educação, pertencimento e novas possibilidades. A memória permanece como ponto de partida. Mas, desta vez, a língua polonesa também passa a ser apresentada como uma ponte para o que ainda pode ser construído.

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