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Por muito tempo, a fome foi o retrato mais visível da desigualdade. Lutar contra ela é o propósito central do Pacto Contra a Fome. Mas, agora, uma nova forma de má nutrição vem crescendo diante dos nossos olhos: a obesidade infantil.

CNN – Brasil

Segundo a UNICEF, pela primeira vez na história, o número de crianças e adolescentes com obesidade supera o de jovens desnutridos no mundo — um marco triste e revelador de que o problema da nutrição mudou de rosto, mas não de essência. Hoje, mais de 390 milhões de jovens entre 5 e 19 anos convivem com o excesso de peso, enquanto cerca de 148 milhões sofrem com desnutrição crônica. A fome, portanto, não desapareceu: transformou-se. A obesidade, longe de ser o oposto da desnutrição, é também uma de suas faces, marcada pela carência de nutrientes essenciais, apesar do excesso de calorias.

De um lado, há corpos que definham pela falta de comida; de outro, corpos que adoecem com alimentos detratores de saúde pobres em nutrientes e ricos em gordura, açúcar e aditivos. Ambos são sintomas de um mesmo sistema alimentar desigual, que falha em garantir acesso à qualidade, à saúde e à dignidade à mesa.

Nos últimos 20 anos, o mundo conseguiu reduzir a desnutrição infantil, mas viu triplicar o número de crianças com sobrepeso. E o crescimento da obesidade é mais rápido justamente nos países de renda média e baixa, onde alimentos de baixo teor nutricional são mais baratos e acessíveis do que frutas, verduras e legumes. O Brasil, infelizmente, está nesse triste índice. Hoje, uma em cada três crianças brasileiras entre 5 e 9 anos tem excesso de peso, segundo o Ministério da Saúde.

Estamos, portanto, diante de um paradoxo doloroso: um país que ainda convive com a fome e o desperdício, mas também com uma epidemia silenciosa de obesidade infantil. É o retrato de um sistema alimentar distorcido, em que o barato sai caro e o que preenche o estômago não necessariamente alimenta o corpo. A desnutrição, seja pela falta ou pela má qualidade da comida, compromete o desenvolvimento físico e cognitivo de milhões de crianças e, com isso, o futuro do país.

A resposta precisa ser coletiva. O poder público deve garantir políticas que promovam alimentação saudável e acessível, especialmente nas escolas. É por isso que, no Pacto Contra a Fome, defendemos o fortalecimento de iniciativas como o Projeto de Combate à Obesidade e Alimentação Saudável nas Escolas, que integra a Agenda Legislativa da Política ao Prato. Nenhum ambiente é mais estratégico do que a escola para formar bons hábitos.

As empresas, com sua capacidade de mobilização, poderiam e deveriam voltar o olhar para dentro, avaliando se entre seus colaboradores há pessoas em situação de insegurança alimentar ou convivendo com doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e obesidade. Essa atenção interna é um passo essencial para promover ambientes de trabalho mais saudáveis e inclusivos.

A imprensa, por sua vez, tem um papel fundamental na disseminação de informações e na formação de consciência coletiva. Ao divulgar dados claros e acessíveis contribui para que famílias façam escolhas mais assertivas e compreendam os impactos que uma alimentação inadequada pode ter sobre o bem-estar individual e social.

Precisamos de uma mobilização ampla. De campanhas que valorizem o alimento de verdade, de incentivos à agricultura familiar, de feiras próximas, e de políticas que coloquem o direito à alimentação saudável no centro da agenda pública. Não se trata apenas de mudar dietas, mas de reconstruir o ambiente alimentar das próximas gerações.

A obesidade infantil é o espelho de uma desigualdade mais profunda: a do acesso à comida de qualidade. É lutar para que nenhuma criança tenha que escolher entre comer o que há ou comer o que é bom. O custo de acabar com a fome é, na verdade, muito menor do que o custo de acabar com ela: na saúde pública, na educação, na produtividade, na segurança e na dignidade de um país. Precisamos agir agora. Cada política pública, cada escolha de consumo e cada iniciativa privada podem somar forças nessa transformação. Porque o verdadeiro pacto contra a fome é também um pacto pela nutrição, pela justiça e por um futuro mais digno.

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