Esther Kremer com reportagem de Nilton Pabis
O encerramento da atual concessão da Malha Sul, previsto para fevereiro de 2027, abriu uma discussão decisiva sobre o futuro das ferrovias que atravessam o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Durante audiência pública, realizada na tarde de segunda-feira (27), representantes da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), parlamentares, gestores municipais e especialistas defenderam a inclusão de novos investimentos no próximo contrato, a implantação de contornos ferroviários e o aproveitamento turístico de trechos que deixarem de receber trens de carga.
Para Irati e municípios da região, o processo representa uma oportunidade de apresentar reivindicações históricas, principalmente em relação à passagem dos trens pelas áreas urbanas. Também foram discutidas propostas de ampliação da rede ferroviária e de preservação de trechos entre Irati e Inácio Martins para a implantação de trens turísticos e de passageiros.
O diretor da ANTT e coordenador da audiência, Felipe Queiroz, explicou que o atual contrato da Malha Sul deverá ser substituído por um novo modelo de concessão. Segundo ele, as audiências públicas são fundamentais para aperfeiçoar o projeto elaborado pelo Governo Federal e pela agência. “As instituições de Governo e a ANTT estruturam e modelam o projeto por meio das informações técnicas e dos estudos disponíveis, mas precisamos que isso seja aperfeiçoado pela sociedade, que conhece os detalhes”, afirmou.
Comunidade pode apresentar reivindicações.
Entre as demandas que podem ser encaminhadas durante o processo está a retirada dos trens de carga das áreas centrais das cidades. “É o momento de trazer reivindicações, contribuições, propostas e sugestões. Por força de lei, a agência tem que responder a todas, informando se vai acolher, se não vai acolher ou se vai acolher parcialmente, sempre justificando”, explicou.
Após o encerramento das audiências públicas, o projeto ainda passará pela avaliação do Tribunal de Contas da União (TCU). O órgão poderá solicitar ajustes antes da realização do leilão. Caso não seja possível concluir a nova concessão antes de fevereiro de 2027, a legislação permite uma prorrogação excepcional de até dois anos do contrato atual.
O deputado federal Beto Preto, um dos articuladores dos debates e integrante da Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados do Paraná, informou que apresentou um requerimento para criar uma subcomissão destinada a acompanhar o encerramento da concessão da Malha Sul.
Segundo o parlamentar, o objetivo é fiscalizar o processo e ampliar a discussão sobre o novo contrato. Beto Preto criticou a ausência de investimentos estruturais ao longo das últimas três décadas. “Nós estamos há 30 anos convivendo com a atual concessão sem nenhuma obra nova e nenhuma expansão. É hora de discutir tudo isso”, declarou.
Beto Preto também defendeu a realização de mais audiências públicas. Segundo ele, as sessões previstas não seriam suficientes para ouvir todas as cidades afetadas. “Não dá para fechar essa discussão com apenas mais duas audiências públicas. Temos que ampliar e levar o debate para mais pessoas darem a sua opinião”, ressaltou.
Uma das principais propostas defendidas durante a audiência foi a inclusão de contornos ferroviários no novo contrato. A medida permitiria retirar os trens de carga das áreas centrais e mais movimentadas das cidades.
O senador Sérgio Moro esteve presente no evento e também defendeu a construção de contornos para evitar que as ferrovias continuem interferindo no trânsito e na segurança das áreas urbanas. “É importante que as linhas ferroviárias contornem as cidades, para que não comprometam o trânsito dentro dos municípios e nem a segurança dos moradores. Agora é o momento de cobrar um plano de investimentos para ampliação da rede ferroviária e tornar o Paraná ainda mais competitivo”, disse.
O prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, participou da audiência e defendeu que o novo contrato estabeleça a retirada dos trens de carga de dentro da capital paranaense. Segundo ele, Curitiba é o último grande centro urbano brasileiro que ainda convive com a interferência direta dos trens de carga nas vias da cidade e no sistema de transporte coletivo.
“É importante que sejamos ouvidos nessa janela de oportunidades. No caso de Curitiba, somos o último grande centro urbano do país com essa interferência do trem de carga nas vias da cidade e no transporte coletivo”, declarou.
Para Curitiba, a proposta envolve a construção dos contornos leste e norte. “Eu sei que não é uma obra de um ano para o outro, mas o contrato é de 30 anos. Então, precisa constar, mesmo que seja para o vigésimo ano, que os trens de carga serão retirados de dentro da cidade”, argumentou.
Turismo ferroviário como alternativa para a região
Além do transporte de cargas, a audiência também abriu espaço para discutir o uso turístico de trechos antigos. O especialista Paulo Sidney Ferraz, que atuou durante seis anos na gestão da malha ferroviária após a privatização, destacou o potencial do trecho entre Irati e Inácio Martins. “A região de Irati tem um potencial turístico imenso e pode atrair muitas atividades econômicas. O trem é um dos maiores atrativos do mundo e, quando se retira o transporte de cargas, surge a oportunidade de utilizar a linha para passageiros e turismo”, declarou.
Ferraz explicou que os trens turísticos são mais leves e, por isso, exigem menor custo de manutenção. O projeto poderia ser viabilizado por meio de parcerias com entidades especializadas, como a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF). “Numa parceria, entidades que já operam vários trens podem fazer um estudo e assumir a manutenção do trecho, inclusive levando locomotivas, vagões e outros equipamentos. Isso facilita a implantação de qualquer projeto”, explicou.
O especialista citou experiências realizadas em Rio Negrinho, Caçador, União da Vitória e Vacaria. Segundo ele, as operações turísticas tiveram impacto positivo nas regiões atendidas.
O diretor de Assuntos da Indústria da Associação Comercial e Empresarial de Irati (ACIAI), Fernando Brevinski, também esteve presente durante o encontro e disse que “a ferrovia formou muitas cidades no Paraná, porém, continua dentro das cidades, gerando risco, também é uma situação muito delicada, e estar na audiência pública é uma possibilidade de você reivindicar mudanças.
Preservação dos trilhos e historiografia
Ferraz recomendou que as lideranças e os municípios da região participem ativamente das discussões sobre a nova concessão. Para ele, é fundamental impedir que os trilhos sejam retirados de trechos que possam ser aproveitados para o turismo. “É muito importante que a região entre nesse processo de renovação ou de novo leilão e deixe claro que não quer a retirada dos trilhos”, afirmou.
Com duração prevista de aproximadamente três décadas, o novo contrato deverá definir o futuro da infraestrutura ferroviária do Sul do país. Para Irati e os demais municípios da região, a audiência é a oportunidade de transformar antigas reivindicações em compromissos formais, abrangendo segurança, mobilidade, desenvolvimento econômico e turismo.