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Manchester City é considerado culpado por violações financeiras e aguarda definição de punição

Comissão independente conclui que o City violou regras da Premier League durante quase uma década; clube nega irregularidades, anuncia recurso e pode enfrentar sanções que vão de multas e perda de pontos até rebaixamento.
Etihad Stadium, casa do Manchester City — Foto: Shaun Botterill/Getty Images

Thomaz Pabis, com informações da CNN Brasil

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O Manchester City foi considerado culpado por graves violações das regras financeiras da Premier League em um dos processos mais longos e complexos da história recente do futebol inglês. As irregularidades investigadas abrangem principalmente o período entre as temporadas 2009/10 e 2017/18, e agora o clube aguarda a definição das punições, que será tratada separadamente.

Os materiais divulgados sobre o caso divergem quanto ao número exato de acusações confirmadas pela comissão: enquanto algumas informações apontam condenação em todas as acusações centrais, outras citam 114 das 115. Em comum, porém, está a conclusão de que o Manchester City foi responsabilizado pela grande maioria das infrações investigadas.

O clube anunciou que irá recorrer e mantém a posição de que não cometeu irregularidades. A defesa sustenta que a decisão contém erros de direito, princípio e análise dos fatos.

Premier League aponta contratos fictícios e receitas infladas

Segundo a Premier League, a comissão independente concluiu que o City utilizou contratos considerados “fictícios”, que não refletiam integralmente os acordos reais estabelecidos entre o clube e parceiros comerciais.

A liga afirma ainda que estruturas financeiras teriam sido utilizadas para inflar artificialmente receitas e reduzir custos declarados, produzindo uma diferença superior a 900 milhões de libras nas contas ao longo do período investigado.

De acordo com a acusação, parte das receitas registradas como patrocínio teria, na realidade, origem em recursos ligados ao Abu Dhabi United Group, controlador do clube. As suspeitas ganharam força depois da publicação de documentos e e-mails vazados pela revista alemã Der Spiegel.

As regras de fair play financeiro da Uefa e de lucro e sustentabilidade da Premier League existem justamente para limitar os prejuízos dos clubes e impedir que investimentos dos proprietários sejam registrados artificialmente como receitas comerciais.

Richard Masters, diretor executivo da Premier League, afirmou que a decisão descreve violações sistemáticas ao longo de quase uma década, mas ressaltou que a sanção ainda precisa ser determinada.

Entenda as acusações

O processo contra o Manchester City foi formalizado em fevereiro de 2023, após uma investigação que se estendeu por quatro anos.

Entre as acusações estavam casos de fornecimento incorreto de informações financeiras, falhas na declaração de pagamentos realizados a jogadores e treinadores, descumprimento de regras do fair play financeiro da Uefa, violações das normas de lucro e sustentabilidade da Premier League e falta de cooperação com a investigação.

Uma das suspeitas envolvia pagamentos relacionados ao então técnico Roberto Mancini. Documentos divulgados anteriormente indicariam a existência de valores pagos fora dos registros tradicionais, apresentados como serviços de consultoria realizados para uma equipe de Abu Dhabi.

Também houve alegações de que jogadores teriam recebido pagamentos superiores aos registrados oficialmente nas contas do clube.

O Manchester City sempre negou as acusações e contestou a utilização dos documentos vazados, alegando que foram obtidos ilegalmente e utilizados com a intenção de prejudicar sua reputação.

Quais punições o Manchester City pode sofrer?

A condenação não significa que uma punição já tenha sido definida. Uma nova etapa do processo determinará quais sanções serão aplicadas.

Entre as possibilidades previstas estão multas, dedução de pontos e até rebaixamento da Premier League. Também há discussão sobre eventuais efeitos em conquistas obtidas durante o período investigado, embora não exista, até o momento, decisão determinando a retirada de qualquer troféu.

Uma eventual dedução elevada de pontos poderia causar o rebaixamento do City mesmo sem uma determinação direta para que o clube deixe a primeira divisão.

A aplicação das sanções caberá a uma comissão independente, e o processo ainda pode se prolongar devido ao recurso anunciado pelo clube.

Títulos conquistados no período entram no debate

Durante o período abrangido pelas principais acusações, o Manchester City conquistou três títulos da Premier League: 2011/12, 2013/14 e 2017/18.

O City também venceu a Copa da Inglaterra em 2010/11 e levantou três vezes a Copa da Liga Inglesa no intervalo analisado.

Caso algum troféu fosse retirado e posteriormente atribuído ao vice-campeão “hipótese que ainda não foi determinada” o Manchester United poderia ser beneficiado nas temporadas 2011/12 e 2017/18 da Premier League, enquanto o Liverpool ficou em segundo em 2013/14.

Na Copa da Inglaterra, o Stoke City foi vice em 2010/11. Já na Copa da Liga, os segundos colocados foram Sunderland, Liverpool e Arsenal nas temporadas correspondentes.

Por enquanto, porém, qualquer redistribuição de títulos permanece apenas como possibilidade discutida em torno das sanções. A comissão ainda não anunciou que pretende adotar essa medida.

Rooney rejeita possibilidade de receber título de 2012

Um dos nomes diretamente ligados a essa discussão é Wayne Rooney. O ex-atacante fazia parte do Manchester United que perdeu o título de 2011/12 para o Manchester City no saldo de gols.

Apesar de defender uma punição severa ao rival, Rooney afirmou que não se sentiria confortável em receber uma medalha da Premier League de forma retroativa.

“Eu não me sentiria confortável em aceitar outra medalha da Premier League, sendo honesto, porque não acho que mereçamos. Não fizemos o suficiente naquela temporada para ganhar a liga” declarou.

Rooney também destacou que os jogadores do City podem não ter tido conhecimento de qualquer irregularidade administrativa ocorrida nos bastidores e disse que retirar conquistas esportivas seria especialmente duro para os atletas.

Por outro lado, o ex-jogador defendeu sanções pesadas ao clube, mencionando até a possibilidade de rebaixamento para divisões inferiores e restrições financeiras durante algumas temporadas.

Outros ex-jogadores do United, como Rio Ferdinand e David de Gea, manifestaram posição diferente e defenderam publicamente que o título de 2011/12 fosse entregue ao clube de Manchester.

City anuncia recurso

O Manchester City afirmou estar “desapontado e surpreso” com a conclusão da comissão e reiterou que considera possuir provas capazes de sustentar sua defesa.

O clube anunciou que utilizará os recursos jurídicos disponíveis para contestar o resultado. Segundo as informações divulgadas, o prazo para apresentação inicial do recurso é 2 de outubro.

A defesa do City é liderada por Lord Pannick KC, advogado que também atuou no processo que resultou na reversão da punição de dois anos sem disputar competições europeias aplicada pela Uefa em 2020.

Diferentemente daquele episódio, porém, o atual processo pertence à estrutura regulatória da Premier League, e o clube não poderá simplesmente recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) da mesma forma.

Rivais podem buscar indenizações

Outro possível efeito da decisão envolve clubes que entendam ter sido prejudicados financeiramente ou esportivamente pelas irregularidades.

Equipes que perderam títulos, classificações para competições europeias ou sofreram consequências na tabela podem buscar orientação jurídica para tentar obter indenizações. Qualquer pedido desse tipo, entretanto, precisaria ser analisado individualmente.

Existe precedente recente no futebol inglês. O Everton foi condenado a indenizar o Burnley em 35 milhões de libras devido ao impacto de uma violação das regras financeiras na luta contra o rebaixamento da temporada 2021/22.

O caso do Manchester City, entretanto, é muito mais amplo. Enquanto processos envolvendo Everton e Nottingham Forest estavam relacionados a violações específicas das regras de lucro e sustentabilidade, a investigação sobre o City abrange diversas categorias de acusações e quase uma década de operações financeiras.

Processo ainda pode se arrastar

Apesar do impacto da decisão, o caso está longe de terminar. A investigação começou formalmente anos atrás, a audiência teve início em setembro de 2024 e ainda existe uma longa etapa jurídica pela frente.

Além da definição da punição, o recurso do Manchester City poderá prolongar novamente a disputa.

O que já está estabelecido é que o clube sofreu uma derrota importante na esfera disciplinar. O próximo capítulo será decisivo para determinar o impacto esportivo e financeiro do julgamento, e se uma das eras mais vitoriosas da história do Manchester City sofrerá consequências também dentro de campo.

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