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Pedido singelo de uma criança gera corrente de afeto, solidariedade e reflexão sobre o verdadeiro sentido do Natal
Foto: Nilton Pabis

Esther Kremer

Uma história de Natal marcada pela simplicidade, pelo afeto e pelo compromisso com o outro mobilizou uma escola no Guamirim, em Irati, religiosas da comunidade e a equipe do projeto Folha na Escola, do Jornal Folha de Irati, ao transformar o pedido de uma criança em um gesto coletivo de amor. A ação envolveu diversas pessoas que se uniram para garantir que um presente simbólico e uma mensagem de carinho chegassem até Victor, menino que conquistou a todos pela sua simplicidade e evolução no decorrer do ano letivo, reforçando valores como empatia, amizade e solidariedade às vésperas do Natal.

A história começou de forma inesperada, longe de qualquer planejamento. Durante uma entrega do projeto Folha na Escola na Escola Esperança Carignano Chuilki, a equipe do jornal se deparou com um gesto que carregava muito mais do que um simples presente ao encontrarem as irmãs religiosas que levavam um presente a Victor. A partir daí, a história contada emocionou os educadores, colegas de classe e mobilizou a todos.

A irmã Ana e a irmã Maria Eugênia, explicaram que o presente que seguravam nas mãos tinha um destino certo. Questionadas sobre o motivo da entrega, contaram que o pedido surgiu de maneira espontânea, durante um encontro casual com o menino no caminho da escola.

Segundo o relato da irmã Maria Eugênia, ela e Ana caminhavam pela comunidade para colher bambu quando encontraram Victor andando de bicicleta. Ao vê-las com um facão, o menino se ofereceu para ajudar, mesmo as irmãs negando a ajuda por se tratar de um instrumento cortante. Enquanto observava o trabalho, Victor fez um pedido que marcou profundamente as religiosas. Ele teria pedido uma bola de futebol de Natal, e ainda fez questão de dizer que não precisava ser nova. Poderia ser velha, rasgada ou usada, desde que fosse uma bola.

“A irmã Ana explicou que naquele momento não tinha nenhuma bola, mas que a gente poderia conseguir, poderíamos ir até Irati para comprar uma. Ele ficou bem contente e ainda disse ‘então a senhora fala para o vendedor que precisa ser uma bola resistente”, explica Maria. Sensibilizadas, as irmãs cumpriram a promessa, compraram a bola.

O combinado era simples, o presente seria entregue na escola. No entanto, quando chegou o momento da entrega, veio a surpresa. O menino não estava mais na comunidade e teria sido transferido de escola. Conforme explicado pelas irmãs e pela equipe escolar, Victor foi transferido da localidade e passou a morar no distrito de Guaragi, sentido Ponta Grossa. A mudança repentina impediu qualquer despedida, o que aumentou o sentimento de vazio entre colegas, professores e funcionários.

O impacto da saída de Victor também foi relatado pela instituição de ensino. A diretora Veronica Barbosa lembra que a mudança aconteceu de forma repentina, sem tempo sequer para um tchau. “A gente não esperava essa mudança. Não tivemos a oportunidade de nos despedir”, relatou.

Foto: Nilton Pabis

]O NATAL COMO VERDADEIRA MAGIA

Diante da situação, a equipe do jornal e as irmãs decidiram que o gesto não poderia terminar ali. O presente precisava chegar ao seu destino. Ao ser questionada se aquele gesto representava o espírito do Natal, a Irmã Ana respondeu de forma direta. “É muito simples. Simplesinho. É o que ele pediu”.

Victor foi descrito como um menino que, no início, era mais agitado, mas que com o tempo se transformou em um amigo leal, companheiro e querido por todos. “Ele se destacou, virou um amigo de verdade, um bom jogador. A gente tem um carinho enorme por ele”, disse Veronica.

Mesmo sem a despedida presencial, a instituição decidiu que o carinho precisava chegar até Victor e por meio da parceria com a Folha de Irati, foi organizada a entrega do presente e da mensagem de Natal dos colegas. “Victor, querido, não deu tempo da gente se despedir. A gente deseja do fundo do coração que você esteja muito feliz, que sua família esteja abençoada, que você tenha um Natal e um Ano Novo abençoados. Sentiremos saudades”, foi a mensagem da professora e dos colegas.

ENTREGA DO PRESENTE

Além da Folha de Irati, o empresário Oscar Muchau, da Cristina Calçados, também se sensibilizou com a história e enviou uma chuteira ao pequeno jogador. Além disso, para completar o presente, a equipe da Folha entregou um kit completo de uniforme do time do coração de Victor, o Corinthians, um meião e mais uma bola.

Mas, ao entrar em contato com a família do menino para poder realizar a entrega, souberam que ele tinha irmãos e, sensibilizados, também levaram presentes para os demais, inclusive para Eloá, irmã de Victor que também frequentava a escola no Guamirim.

Victor, ao receber os presentes e assistir o vídeo da mensagem enviada pela professora e amigos, disse emocionado. “Obrigado por tudo. Eu adorei todos os presentes. E espero que meus colegas que ficaram lá passem o Natal bem”.

A mãe de Victor, Miriam, comentou sobre a mudança do pequeno ao frequentar a escola. “Eu me lembro muito de como era, porque o Victor era meio ‘cabulado’ e eles transformaram ele, tiraram aquela raiva que ele tinha. Eu só tenho a agradecer a professora e a diretora por tudo que fizeram por ele e pela Eloá também”, disse.

A história de Victor transformou um simples pedido em uma lição sobre empatia e o verdadeiro sentido do Natal. “O principal do Natal é amar, respeitar as pessoas, querer bem uns aos outros. Natal é abraçar alguém. Estar unido com Deus. O maior presente é ter um pai, uma mãe, um amigo para abraçar e conversar. Presente não é o mais importante. O importante é a amizade e o amor”, finalizou a irmã Maria Eugênia.

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