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Longevidade começa nas escolhas repetidas todos os dias 

Em episódio do podcast “Que Te Trouxe Aqui”, do Einstein Hospital Israelita, especialistas discutem como alimentação, movimento, sono, relações sociais e propósito podem pesar mais do que a genética na forma como cada pessoa envelhece
Foto: Einstein Hospital Israelita

Ariane Luz, com informações de Hospital Israelita Albert Einstein

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A busca por viver mais não cabe apenas na contagem dos anos. O desafio, cada vez mais presente nas conversas sobre saúde, é chegar à velhice com autonomia, vigor e sentido. No episódio de estreia do podcast e videocast “O Que Te Trouxe Aqui”, criado pela Comunicação Institucional do Hospital Israelita Albert Einstein, a jornalista Astrid Fontenelle conversou com a médica Sley Tanigawa Guimarães, coordenadora da pós-graduação em estilo de vida no Ensino Einstein, e com a geriatra Dra. Maysa Seabra Cendoroglo, professora da Unifesp e médica do corpo clínico do Hospital Albert Einstein, sobre medicina do estilo de vida, longevidade e os hábitos que ajudam a construir uma vida mais saudável. 

Logo no início, Sley definiu a medicina do estilo de vida como uma prática médica baseada em evidências científicas, voltada a ajudar pacientes e famílias a adotar hábitos capazes de prevenir e tratar doenças. Segundo ela, o ponto central não está em fórmulas distantes, mas nas pequenas escolhas repetidas ao longo do dia. “A medicina do estilo de vida olha para como a pessoa se alimenta, como se movimenta, como dorme e como se relaciona com o estresse, com os tóxicos, com as outras pessoas e com o ambiente que a cerca”, afirmou a médica. 

Na geriatria, essa discussão ganha peso concreto. Maysa explicou que todos nascem com uma espécie de reserva funcional, usada ao longo da vida. Escolhas ruins consomem essa reserva com mais rapidez; escolhas favoráveis ajudam a preservar capacidade física, independência e autonomia. “Todo mundo quer viver muito, mas estar bem para poder exercer a sua autonomia e a sua independência de forma satisfatória”, disse Maysa. Para ela, envelhecer com qualidade depende menos de uma idade específica e mais da capacidade de manter funcionalidade diante das adversidades. 

A conversa também passou pelas chamadas “Blue Zones”, regiões do mundo associadas à longevidade, Sardenha (Itália), Loma Linda (EUA), Península de Nicoya (Costa Rica), Icária (Grécia) e Okinawa (Japão).. Astrid introduziu o tema lembrando que esses locais concentram populações que vivem mais e melhor. Sley explicou que o jornalista Dan Buettner’s, da National Geographic, observou comunidades com muitos idosos ativos e participativos, em vez de pessoas afastadas da vida social. A partir dessas observações, pesquisadores identificaram elementos comuns: movimento no cotidiano, alimentação rica em vegetais, vínculos fortes, senso de pertencimento, propósito e respeito aos ritmos da vida. 

A médica fez questão de afastar a ideia de que longevidade depende de morar em um cenário paradisíaco. “Se você olhar as fotos das Blue Zones, realmente são lugares paradisíacos. Mas a gente pode pegar esses elementos que funcionam e ver de que maneira consegue introduzir no nosso dia a dia e fazer a nossa própria Blue Zone”, afirmou Sley. A frase resume uma das teses centrais do episódio: não se trata de copiar a rotina de Okinawa ou da Sardenha, mas de adaptar princípios possíveis à realidade de uma cidade grande, de uma cidade pequena ou de uma rotina profissional apertada. 

Entre esses princípios, a alimentação aparece como uma escolha estruturante. Sley falou em alimentação inclusiva e consciente, com mais frutas, verduras, legumes, grãos integrais e sementes. Também apontou que muitos excessos não nascem da fome, mas da tentativa de compensar ansiedade, tristeza, cansaço ou frustração. “É preciso trazer presença para observar como a gente come e olhar para aquilo que está desconfortável”, explicou. O mesmo raciocínio vale para o movimento: um corpo ativo ajuda no presente, mas também protege a reserva funcional para o futuro. 

A genética, embora relevante, não ocupa sozinha o centro da equação. Ao comentar o caso de Carol, uma chefe de cozinha de 41 anos com rotina desregulada, burnout, tabagismo intenso, sono ruim, pouca água e exames alterados, Maysa destacou que a genética contribui em torno de 30% para o envelhecimento até os 80 anos. “Setenta por cento é o que a gente faz com a nossa vida”, completou Astrid, ao resumir a explicação da médica. Mesmo depois dos 80 anos, segundo Maysa, ainda há margem significativa para mudanças favoráveis. 

O caso de Carol serviu para discutir um ponto delicado: mudança de hábito não nasce de bronca. Sley defendeu que o profissional de saúde acolha antes de julgar. “É muito fácil apontar o dedo e falar: que estilo de vida horroroso. Mas muitas vezes é o piloto automático das exigências da vida”, disse. Para ela, o primeiro passo é entender por que a pessoa procurou ajuda, o que teme perder e por onde se sente capaz de começar. 

Maysa também trouxe a ideia de que o ambiente social influencia comportamentos. Conviver com pessoas sedentárias tende a reforçar sedentarismo; estar perto de gente que caminha e se alimenta melhor aumenta a chance de adesão a hábitos saudáveis. A médica citou sua própria experiência: “Eu fumava quando era jovem. Quando comecei a orientar idosos a parar de fumar, falei: eu não posso fumar. Comecei a praticar exercício e parei”. 

No caso de Fernando, professor aposentado de 71 anos que planeja viver em Portugal, caminhar, pintar e buscar uma rotina mais calma, a dúvida era outra: a solidão poderia comprometer uma vida aparentemente saudável? Maysa respondeu que sim, se houver isolamento completo. “Ficar isolado socialmente acaba aumentando a chance de desenvolver doenças, como depressão”, afirmou. Para ela, o desafio de Fernando será se abrir a novas amizades e experiências, sem acreditar que a idade impede recomeços. 

No encerramento, as recomendações foram diretas. Maysa resumiu sua receita em uma atitude: “A gente tem que arriscar, estar mais aberto para novas possibilidades e se manifestar mais”. Sley foi ainda mais sintética: “Não se conforme”. Para as duas, envelhecer bem exige movimento físico, mas também movimento interno: curiosidade, vínculo, propósito e disposição para mudar, seja aos 50, aos 70 ou depois dos 80.

Assista ao podcast completo em: https://www.youtube.com/watch?v=quRGwAYkVKM&list=PLB_rcPiqiMPyB-iUsXwtu1xK-fYLQcKiy&index=64

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