Luciane Ferreira
O município de Irati, assim como muitas outras cidades paranaenses e brasileiras, tem origem indígena em seus nomes, pois suas terras já eram habitadas por indígenas, muito antes da chegada do colonizador europeu. Nesta edição, em alusão ao dia 19 de abril, trazemos um breve relato histórico sobre o assunto.
Segundo a historiadora Edislaine Terezinha Fernandes Vitoriano, em sua tese de mestrado intitulada como ““O índio que mora na cabeça dos iratienses”: uma proposição didática para o trabalho com a história indígena em Irati-PR”, Irati tem no nome a presença da língua tupi, embora nossa região fosse habitada por Kaingangs. Esse termo, de origem tupi-guarani, significa “rio de mel”: ira (mel) e ty (rio ou água). Acredita-se que o nome foi dado devido à grande quantidade de abelhas nativas na região onde hoje se localiza o município paranaense e também se relaciona à presença dos índios Iratins, que significa Ira-Cera, Tim-Branco Acinzentado.
Os mesmos foram chamados de Iratins por terem usado um casquete de cera branca acinzentada. Inicialmente, como coloca o professor José Maria Orreda, em uma de suas obras, “chamava-se Covalzinho porque os poucos habitantes dessa região plantavam couves para complementar a sua alimentação, e como essas paragens faziam parte da rota dos tropeiros, eles acabaram nomeando de Covalzinho, devido à abundância desta hortaliça nas casas dos moradores locais”.
Segundo relatos de Orreda, “após a chegada dos colonizadores, os indígenas fugiram em direção ao morro da Santa” e depois de algum tempo foram acolhidos na Casa de Passagem Ivaí, em Manoel Ribas.
OS INDÍGENAS EM IRATI ATUALMENTE
Como a população é muito grande e tem um sentimento de pertencimento a essa terra, eles sempre retornam; se tratando de tempo histórico, a pouco tempo, inclusive, “morando” durante um tempo na obra inacabada do Centro Cultural Denise Stoklos. O local, que ficou paralisado por mais de 10 anos, serviu como moradia para famílias indígenas e pessoas em situação de rua durante o período.
Em 2019, essa população, em sua maioria da etnia Kaingang, foi acolhida na Casa de Passagem Indígena de Irati (CAPIN). Essa casa oferece acolhimento provisório para indígenas em trânsito no município. Com capacidade para 20 a 30 pessoas, o local garante dignidade, com quartos, sala, cozinha e banheiros. O espaço foca na valorização da cultura indígena dentro do município. A criação da Casa de Passagem ocorreu após pressão da comunidade local, antropólogos, assistentes sociais e apoio do cacique da terra indígena de Ivaí, para que houvesse um espaço com maior dignidade.
Pouco se fala sobre a história dos indígenas do Brasil, Paraná, ou mesmo de Irati, do ponto de vista dos indígenas. A historiografia oficial conta a história do colonizador, branco, europeu, que veio desbravar e trazer a civilização e progresso para os nativos, considerados atrasados e selvagens (sendo chamados, inicialmente, de bugres, termo este que os povos nativos não gostam, pois traz um caráter pejorativo, de preconceito e de julgamento).
Não se fala das lutas e das perdas de identidades que os povos originários sofreram ao longo dos tempos. Estas terras pertenciam a eles, mas, atualmente, é comum ouvirmos pessoas assustadas com a presença atual dos indígenas, com seus balaios e artefatos, em nossa cidade, como se fossem visitantes. Mas, esta terra originalmente pertencia a eles e a seus ancestrais.
Desde a vinda dos colonizadores, que a cultura, língua e religião foram impostas a esses povos, como se estes não tivessem suas próprias culturas ou crenças, conforme já relatado em 1500 na carta de Pero Vaz de Caminha: “eles não têm nem entendem crença alguma, segundo parece; por isso, se os homens que para cá vierem aprender bem a sua linguagem e os entenderem, não haverá dúvida que eles se tornarão cristãos e hão de crer na nossa santa fé…”. Para os colonizadores, os nativos foram vistos como “páginas em branco” e que de acordo com a visão eurocêntrica, deveriam sem convertidos à fé cristã e aos modos europeus.
Porém, a carta de Pero Vaz traz uma certa “inocência” comparada aos ataques violentos sofridos pelos indígenas ao longo da história, seja por suas perdas de territórios, de culturas, ou até mesmo às mortes, causadas pelas doenças ou pelas armas trazidas pelos europeus.
Atualmente, alguns pesquisadores buscam desmistificar os estereótipos criados pela sociedade sobre a população indígena. Buscam mostrar que apesar da miscigenação, estes povos ainda mantêm viva suas tradições, línguas, rituais, artesanatos, levando adiante a memória e os ensinamentos de seus antepassados.
O Paraná abriga cerca de 45 aldeias indígenas distribuídas em 23 Terras Indígenas (TIs) regularizadas ou em estudo, concentradas principalmente nas regiões oeste, sudoeste e litoral. As principais etnias são Kaingang (70%) e Guarani (30%), com remanescentes Xetá. A população indígena autodeclarada supera 30.000 pessoas, segundo o Censo 2022.