Esther Kremer e Nilton Pabis
Irati se despediu, na manhã de segunda (27), de uma de suas figuras mais conhecidas e queridas: Juarez Engraxate. Mais do que um trabalhador de rua, Juarez era daqueles personagens que ultrapassam o ofício e se tornam parte viva da identidade de uma cidade.
Presença constante nas ruas, nas praças e nos arredores do comércio, ele era facilmente reconhecido. Mais do que um trabalhador conhecido pelas engraxadas e pela caixa sempre ao lado, Juarez construiu, ao longo dos anos, uma relação próxima com os moradores de Irati. Humilde, de convívio simples, cativava todos ao seu redor. O jeito meio atrapalhado, aliado à gagueira marcante, completava o personagem. A barba por fazer e a aparência descuidada também eram características conhecidas, assim como as tiradas espontâneas, típicas de Juarez.

Quase um andarilho, conhecia praticamente toda a cidade, e era conhecido por ela. Era lembrado pelo sorriso, pelo jeito pausado de falar e pela forma própria de se expressar, com um vocabulário coloquial que frequentemente arrancava risadas. Entre suas expressões mais marcantes estavam trocas de palavras como “Bujão da furinária”, em vez de funerária, ou “água meronal”, no lugar de mineral. Mas o que realmente marcava era outra coisa: o carisma espontâneo. Mas não era deboche, era autenticidade. E isso aproximava.
Juarez era daqueles personagens típicos do interior, na linha de nomes que vivem na memória oral de Irati — figuras como “Tadeu Risada”, “Candinho Coruja”, “Nego Tem”, Rui Pacheco entre tantos outros. Gente que não precisa de cargo, título ou patrimônio para ser lembrada. Basta estar presente, todos os dias.
E Juarez estava.
O sorriso fácil, o jeito pausado de falar e a simplicidade no trato faziam com que ele fosse sempre bem recebido. Em muitos lugares, inclusive, já tinha “parada certa”.
Para o gerente de seguros da MM Corretora, Marcelo de Souza, o Bananinha, as visitas de Juarez seguiam quase um ritual: aparecia no escritório, pegava seu “deixão” — geralmente bolacha, café e água — e se despedia com a frase que virou marca registrada:
“Deus que ajude, Ba-naninha, e bom final de semana”.
ALGUMAS HISTÓRIAS VIRARAM PATRIMÔNIO DA CIDADE
Se existe um lugar onde Juarez se eterniza, é nas histórias…e são muitas.
Uma delas, lembrada pelo ex-prefeito Sergio Stoklos, resume bem o espírito do personagem. Ao engraxar um sapato marrom, Juarez usou graxa preta. Questionado sobre o erro, respondeu com naturalidade e educação desconcertante: “eu não tinha a graxa marrom, você estava conversando e não quis atrapalhar, daí usei a preta mesmo”.
Simples assim.
Outra história, que circula entre amigos é contada por Paulinho Serafin e beira ao folclore. Caminhando do interior rumo à cidade, vindo de uma festa na comunidade de Colônia Gonçalves Junior, Juarez ao chegar na parte mais alta da estrada tentou acender um paieiro, mas o vento não deixava. Girou o corpo para se proteger e, sem perceber, mudou de direção. Resultado: acendeu o cigarro, mas voltou para o mesmo lugar de onde tinha saído, a Colônia.
Já em outra situação, contada por Bananinha, ele foi encontrado caminhando por uma estrada paralela a BR-277, próximo a Barra Mansa. Perguntado para onde iria, respondeu: “Pra Pru, Pru, Pudentópis”! E ao ser questionado sobre o caminho, e a pé, veio a explicação lógica, à sua maneira: “Pa desvia o pdágio”.
MAIS QUE UM ENGRAXATE, UM SÍMBOLO DE PERTENCIMENTO
Juarez vivia de pequenos serviços, uma engraxada aqui, um pedido de ajuda ali. Dinheiro nunca foi abundante. Ainda assim, era alguém querido por todos.
Quase um andarilho, conhecia praticamente toda a cidade. E, de certa forma, a cidade também o conhecia.
Sua presença mostrava algo que, muitas vezes, passa despercebido: não é preciso ter muito para ser importante. Juarez não construiu patrimônio, não ocupou cargos, não buscou reconhecimento. Ainda assim, alcançou algo raro: ser lembrado com afeto coletivo.
UMA AUSÊNCIA QUE DEIXA MARCA
Em cidades do interior, personagens como Juarez ajudam a dar rosto à rotina. São eles que transformam o cotidiano em algo mais humano, mais próximo, mais leve. Por isso, sua ausência não é apenas a falta de uma pessoa. É o desaparecimento de uma figura que já fazia parte da paisagem, das conversas e das memórias.
Juarez Engraxate parte, mas deixa algo difícil de medir: histórias que continuam sendo contadas, repetidas e sempre acompanhadas de um sorriso.
Irati perde um personagem. Mas ganha, definitivamente, uma memória.
Acompanhe no site www.folhadeirati.com.br alguns vídeos e histórias deste personagem.