Karina Ludvichak
O movimento de veículos identificados e pessoas com o colete azul do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pelas estradas rurais de Irati chamou a atenção na última semana. A presença das equipes faz parte de uma etapa estratégica de preparação para o próximo Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola, previsto para ser realizado em 2027. Entre apenas cinco municípios escolhidos em todo o país para receber os testes piloto da operação, Irati ganhou destaque nacional pela diversidade da produção agropecuária e pela presença de comunidades tradicionais, especialmente os faxinais.

Mais do que uma simples coleta de dados, o trabalho desenvolvido pelo IBGE busca desenhar um retrato atualizado do campo brasileiro. A pesquisa reúne informações sobre produção agrícola, pecuária, piscicultura, atividades florestais, tecnologias utilizadas nas propriedades e a forma como o produtor rural organiza sua produção.
Segundo o superintendente do IBGE no Paraná, Tobias Faria, a escolha de Irati ocorreu justamente pela riqueza e pluralidade do território rural do município. “O nosso objetivo aqui é avaliar questionário, equipamentos, fluxos de trabalho e todos os processos envolvidos nessa coleta. Irati está nos ajudando muito para que a gente consiga realizar, no ano que vem, um Censo Agropecuário completo em todo o país com o melhor resultado possível”, explica.
O levantamento faz parte de uma das principais pesquisas estruturais do IBGE, realizada tradicionalmente a cada dez anos. Além do Censo Agropecuário, o instituto também é responsável pelo Censo Demográfico e por diversos estudos econômicos e sociais que servem de base para políticas públicas, investimentos privados e planejamento governamental.

“Nós levantamos dados sobre emprego, desemprego, produção econômica, mapeamento territorial e diversas informações que ajudam o país a entender a própria realidade. O Censo Agropecuário é essencial porque mostra como está a produção agrícola brasileira e quais transformações aconteceram ao longo dos anos”, destaca Tobias.
ATUALIZAÇÃO E TECNOLOGIA
Coordenador técnico do Censo Agropecuário no Paraná e servidor com décadas de experiência no instituto, Jorge Mryczka acompanha atualmente o sexto censo de sua carreira. Ele lembra que a tecnologia mudou completamente a dinâmica do trabalho de campo. “Antigamente era tudo no papel. O recenseador carregava uma prancheta enorme, com questionários compridos, enfrentando chuva, barro e vento. Hoje temos tablets, transmissão instantânea de dados e acompanhamento em tempo real das informações coletadas”, relata.

Segundo ele, o sistema atual permite que os dados sejam enviados diretamente para os computadores centrais do IBGE, onde passam por análises de consistência praticamente imediatas. “Se aparecer alguma informação fora do padrão técnico esperado, já conseguimos identificar rapidamente. Isso trouxe muito mais agilidade e qualidade para o processo”, afirma.
A etapa piloto realizada em Irati serve justamente para identificar possíveis falhas antes da operação nacional. Atualmente, três recenseadores e um supervisor atuam diretamente na coleta, acompanhados por observadores técnicos responsáveis por registrar dificuldades e aperfeiçoamentos necessários.
Após essa fase, o instituto ainda realizará um censo experimental, previsto para novembro deste ano. Somente depois dessa última avaliação será iniciada a grande operação nacional, que ocorrerá entre junho e outubro de 2027.
No último levantamento, realizado em 2017, o Paraná registrou cerca de 305 mil estabelecimentos agropecuários. “Ninguém sabe exatamente o que mudou nesse período. Algumas propriedades cresceram e incorporaram áreas menores, outras foram divididas. Só o censo vai permitir entender esse novo cenário”, explica Jorge.
PARANÁ LIDERA PRODUÇÃO NACIONAL
Embora ocupe apenas 2,3% do território brasileiro, o Paraná segue entre os maiores protagonistas do agronegócio nacional. O estado é atualmente o segundo maior produtor de grãos do Brasil, ficando atrás apenas do Mato Grosso, e isso reflete a importância da pesquisa do IBGE nesta etapa do novo censo. “O Paraná é o segundo maior produtor de soja e milho do país, o maior produtor de feijão e líder nacional na produção e exportação de carne de frango”, destaca Jorge.
O estado também ocupa posição de liderança na piscicultura, especialmente na criação de tilápia, espécie mais cultivada no Brasil. “Tudo isso será novamente avaliado no próximo censo. São dados fundamentais para entender como o agronegócio brasileiro está evoluindo”, ressalta o coordenador.
CENSO IBGE: UMA VIA DE MÃO DUPLA
Durante as visitas, um dos principais desafios enfrentados pelas equipes ainda é conscientizar produtores sobre a importância de fornecer informações corretas. Tobias Faria reforça que todos os dados coletados são protegidos por sigilo estatístico e não possuem relação com fiscalização tributária. “As informações são usadas apenas para fins estatísticos. Isso está garantido por lei e é um compromisso do IBGE há quase 90 anos”, enfatiza.
Para evitar golpes, os agentes trabalham identificados com coletes, crachás e QR Codes que permitem ao produtor confirmar a identidade do servidor por meio do celular ou de um telefone oficial do instituto. “Nós sempre pedimos para a população colaborar porque essas informações ajudam no planejamento público e privado. Elas são fundamentais para melhorar as condições de produção no país”, disse.

COLABORAÇÃO DOS PRODUTORES
Morador do Monjolo, comunidade rural de Irati, o agricultor José Jair Pereira recebeu, pela segunda vez, a equipe do IBGE e aproveitou para recordar as transformações vividas no campo ao longo das últimas décadas. “Naquele tempo o agricultor era autossustentável. Produzia tudo em casa. Não comprava carne, banha, macarrão, nada. O arroz levava para descascar, o milho virava farinha e fubá. As famílias se ajudavam muito”, relembra.
Segundo ele, a mecanização, a modernização e as políticas de incentivo mudaram completamente a realidade das propriedades rurais. “Antigamente a terra estava cansada, sem correção de solo. Depois vieram programas de incentivo, plantio direto, máquinas e assistência técnica. A produção aumentou muito”.

José Jair também destaca a importância de os produtores responderem corretamente ao Censo Agropecuário. “Tem gente que acha que o IBGE é fiscalização, mas não é. Se o agricultor não passa os dados certos, depois faltam informações para o próprio governo planejar o setor”, alerta.
RETRATO RURAL DO BRASIL
A jornalista do IBGE de Santa Catarina, Fernanda Greppe, acompanhou o trabalho do instituto durante a operação piloto e define o Censo Agropecuário como um verdadeiro retrato do Brasil rural. “O trabalho do IBGE é entender como as famílias vivem, produzem e organizam suas propriedades. Depois, nosso papel é transformar esses dados em informação para toda a população”, explica.
Acostumada a trabalhar diretamente com estatísticas e divulgação de dados, Fernanda afirma que acompanhar a coleta em campo proporciona uma visão diferente sobre a realidade brasileira. “Estar aqui, sendo recebida pelas famílias e entendendo a dinâmica das propriedades, é uma experiência muito especial. É nesse contato direto que percebemos como o país funciona de verdade”, conclui.