Karina Ludvichak, com reportagem de Nilton Pabis
Em meio ao som das ovelhas e ao olhar atento de um cão que parece antecipar cada movimento do rebanho, o Centro de Treinamento São José, na comunidade do Pontilhão, em São Mateus do Sul, tem se consolidado como um espaço onde técnica e tradição se encontram. Mais do que um canil, o local revela um universo pouco conhecido, com o treinamento de cães Border Collie para o pastoreio, prática que exige disciplina, conhecimento e conexão entre humano e animal.
Foi nesse cenário que os proprietários José André Barbosa e Jamile Pinheiro abriram as portas para demonstrar, na prática, o trabalho com os cães. O evento, realizado em alusão à semana de São José, reuniu visitantes interessados em entender o papel desses animais no manejo de rebanhos.

A história do centro começa de forma simples e, ao mesmo tempo, marcada por desafios. A propriedade pertence à família de Jamile e passou a ser ocupada por ela em 2018, quando o pai enfrentava um tratamento de saúde. Com a responsabilidade de cuidar dos animais, surgiu também a necessidade de melhorar a condução do rebanho. “A gente precisava entender como é feito o treinamento de cães para a condução de rebanho”, relembra Jamile, destacando o momento em que decidiram buscar conhecimento técnico sobre o assunto.
O primeiro passo foi um curso realizado no início de 2020, na região de Curitiba. Logo depois, a pandemia interrompeu atividades presenciais, mas abriu espaço para intensificar a prática. “Para cada hora que a gente estudava, tinha oito para praticar”, conta José.
Desde então, o aprendizado não parou. O casal participou de inúmeros cursos, competições e atividades em propriedades rurais. Atualmente, o centro não apenas treina cães, como também realiza seleção genética e presta serviços para produtores.
INTELIGÊNCIA QUE VAI ALÉM DA CORRIDA
Conhecido mundialmente como um dos cães mais inteligentes, o Border Collie se destaca não apenas pela agilidade física, mas principalmente pela capacidade mental. Diferente do que muitos imaginam, o cansaço do animal não está ligado apenas ao exercício físico.

No campo, o comportamento é outro. Durante as demonstrações, o cão Ben, um dos principais destaques do centro, conduziu o rebanho com precisão, sem latir ou agir de forma agressiva. Tudo é feito com base na chamada “pressão de olho”, técnica em que o cão utiliza o olhar e a postura para influenciar o movimento das ovelhas. “Ele cansa de tanto pensar para resolver o problema ali dentro com a ovelha”, explica Jamile.
Esse tipo de trabalho exige concentração extrema. O animal precisa interpretar comandos, prever reações do rebanho e manter o controle da situação ao mesmo tempo.
TREINAMENTO E PACIÊNCIA
O processo de formação de um cão de pastoreio é longo e cuidadoso. Segundo José, o treinamento pode começar por volta dos cinco meses, mas o desenvolvimento completo leva mais tempo. Antes disso, há uma fase chamada de “recria”, em que o filhote passa por estímulos leves e progressivos. São exercícios curtos, realizados com intervalos maiores, respeitando o tempo de maturidade do animal. “Na época de recria é que o pessoal perde muito cachorro bom”, alerta. Isso acontece quando o animal é exposto cedo demais a situações de pressão, como o contato direto com o rebanho, o que pode gerar medo e comprometer o desenvolvimento.
A seleção genética também é um fator determinante. No centro, os cruzamentos são planejados com base em linhagens específicas voltadas ao trabalho, e não apenas à estética. O nosso produto não é o filhote. Nosso produto é ter treinamento e fazer seleção”, afirma Jamile.

COMPORTAMENTO
Nem todos os Border Collie são iguais, e isso vai muito além da aparência. O comportamento varia conforme genética, estímulo e ambiente. Um exemplo citado no treinamento é o cão Max, que apresenta características mais agitadas e ansiosas. Mesmo com acompanhamento, alguns traços fazem parte da própria natureza do animal. “Tem coisas que são específicas do comportamento desse cachorro”, explica Jamile.
Além disso, há cuidados importantes na reprodução, especialmente em relação a pelagens específicas, como o padrão merle, que pode trazer riscos genéticos se não houver controle adequado.
COMANDOS
Durante o treinamento, chama atenção o uso de comandos em inglês. Mas, ao contrário do que se imagina, não se trata de uma preferência cultural. “O cachorro não entende inglês, não entende português. É a sonorização mais rápida que dá o comando”, esclarece José.
Palavras curtas e com sons distintos facilitam a comunicação, especialmente em situações de campo, onde rapidez e clareza são essenciais. Mais importante do que o idioma, porém, é o vínculo entre cão e treinador. Esse relacionamento é construído ao longo do tempo e determina o sucesso do trabalho. “Cachorro é vínculo. Você criou o vínculo, ele vai estar sempre do teu lado”, resume.
TURISMO RURAL
Além do trabalho técnico, o Centro de Treinamento São José também passou a integrar a rota de turismo rural de São Mateus do Sul. A iniciativa surgiu a partir de um projeto desenvolvido em parceria com a Prefeitura e o Sebrae, que identificou propriedades com potencial turístico na região.
A turismóloga Eva Boaschi acompanhou o processo e destaca a importância de experiências como essa. “É algo bem exclusivo, bem único, que vale a pena conhecer”, afirma.
Segundo ela, o turismo rural tem ganhado força, especialmente após a pandemia, quando muitas pessoas passaram a buscar experiências mais próximas da natureza.
MANEJO
No dia a dia das propriedades rurais, o uso de cães treinados pode fazer toda a diferença. Além de facilitar o manejo, o trabalho contribui para o bem-estar dos animais e melhora a produtividade. “Os rebanhos que são manejados com cães têm uma alta porcentagem de produtividade”, destaca José.