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Há quase 100 anos, 2ºTabelionato de Notas preserva memória e a história de Irati

Acervo do 2º Tabelionato de Notas reúne escrituras, procurações e registros manuscritos que ajudam a contar a formação patrimonial e familiar da cidade
Tabelionato permanece como uma instituição vinculada à rotina civil - Foto: Esther Kremer

Esther Kremer

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Instalado em 8 de abril de 1927, o 2º Tabelionato de Notas de Irati integra a história documental do município e conserva, até hoje, um acervo que ajuda a reconstruir parte da formação patrimonial, familiar e institucional da cidade. Entre livros antigos, escrituras manuscritas e registros que atravessaram diferentes períodos da vida local, o cartório reúne documentos que vão além da segurança jurídica, são arquivos que possuem valor histórico.


Atualmente sob titularidade da tabeliã Cristina Tonet Colodel, o tabelionato funciona em prédio localizado na Rua Doutor Corrêa, onde está instalado desde 1957. Segundo ela, o serviço foi criado originalmente em conjunto com o Primeiro Registro de Imóveis, em uma estrutura que reunia dois cartórios no mesmo espaço. Essa configuração permaneceu por décadas, até que, em 2017, houve a separação dos serviços, ficando no local apenas o 2º Tabelionato de Notas.

Foto: Arquivo Pessoal


Ao recordar a trajetória da instituição, Cristina cita como primeiro titular o tabelião Miguel Agulhan. Depois dele, o cartório passou às mãos de Edmundo Atanásio de Moraes, nome ainda muito associado ao serviço na memória da população de Irati. Ele permaneceu à frente da unidade por muitos anos, até falecer, em 2012. “O cartório tem uma longa história. Eu já ouvi relatos de que tinham muitos clientes que vinham a cavalo, vinham do interior e o seu Edmundo, na época, colocou algumas argolas em frente, na calçada, para o pessoal amarrar os cavalos. Tem muita história é muito bom vivenciar isso”, observou a tabeliã ao comentar o peso simbólico de assumir um espaço tão identificado com uma trajetória anterior.


LIVROS QUE GUARDAM MEMÓRIAS
Parte mais concreta dessa herança histórica está nos próprios livros guardados pelo cartório. Os primeiros volumes do acervo, datados de 1927, são compostos por escrituras e procurações manuscritas, com grafia e ortografia próprias de outra época. Cristina destaca que esses documentos despertam curiosidade até hoje, tanto pelo conteúdo quanto pela forma como foram produzidos. “Muitas pessoas procuram e querem até a escritura na sua versão original, manuscrito, para ver toda a grafia, guardar”, disse, ao explicar que há procura frequente de pessoas interessadas em localizar registros antigos ligados à história de suas famílias.


Esse movimento de consulta tem, muitas vezes, motivação genealógica e patrimonial. Segundo a tabeliã, há pessoas que procuram o cartório para saber se seus antepassados compraram imóveis, onde ficavam essas propriedades e quais nomes aparecem nos documentos originais. “O tabelionato, assim, acaba desempenhando também um papel de fonte para pesquisas familiares e reconstruções de memórias”, afirma ela.

“Há uma importância muito grande quando falamos de cartório. A nossa vida, do início até o final, passa por um cartório e nós
precisamos manter a qualidade, e preservar toda essa história”

Cristina Tonet Colodel


Do ponto de vista jurídico, porém, o acervo não pertence ao titular do cartório. Cristina explica que, embora a responsabilidade pela guarda e conservação seja dela, os livros e documentos são bens do Estado, já que o cartório presta um serviço público exercido em caráter privado. “Esses livros, eles são permanentes, pertencem ao Estado, mas um particular, que agora sou eu, o titular, tenho a responsabilidade por eles”, afirmou.


Essa responsabilidade envolve estrutura e organização rigorosas. Cristina informa que o cartório possui atualmente quase 500 livros de escrituras, além de cerca de 200 livros de procurações, volumes de testamentos e quase 100 livros de reconhecimento de firma por autenticidade e tantos outros que guardam informações valiosas da cidade. O armazenamento desse material segue regras definidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), incluindo ambiente restrito, controle de acesso e climatização.


Além da dimensão histórica, a tabeliã também comenta sobre o papel cotidiano do cartório na vida civil. Para Cristina, a instituição continua sendo vista pela população como espaço de confiança e segurança jurídica. “O cartório, ele dá segurança jurídica. Então, as pessoas confiam muito no cartório”, afirmou. Segundo ela, essa confiança faz com que muitas pessoas procurem o local até mesmo para buscar orientações preliminares sobre situações familiares, inventários e outros procedimentos, antes mesmo da formalização de atos.

Primeiros volumes, são compostos por escrituras e procurações – Foto: Esther Kremer


TRAJETÓRIA E DEDICAÇÃO
A própria trajetória profissional da atual tabeliã ajuda a explicar sua relação com o espaço. Formada em Pedagogia e Direito, Cristina conta que inicialmente pretendia seguir a carreira da magistratura, mas acabou desenvolvendo interesse pela atividade cartorária ao começar a trabalhar na área. Depois de anos de estudo, foi aprovada em concurso público e escolheu Irati para assumir a titularidade, chegando ao município em fevereiro de 2023.


Como conta a tabeliã, no passado, o cartório era uma herança, ou seja, passava de pai para filho. Porém, em 1988, com a Constituição Federal, foi estabelecido que para ser titular de cartório, precisa de concurso público. “E o concurso é muito semelhante ao concurso da magistratura, do Ministério Público. Contém várias etapas. E precisa estudar bastante para vencer todas elas”.


Ela relata que o início do trabalho foi marcado por desafios práticos e simbólicos. Ao assumir um cartório com quase um século de história, precisou realizar reformas, modernizar a estrutura e conferir todo o acervo, sem interromper o atendimento ao público. “Todo dia é um desafio”, resumiu. Segundo Cristina, o compromisso é manter a qualidade do serviço, preservar os documentos e respeitar a história que o tabelionato representa para a cidade.


Com quase cem anos de existência, o 2º Tabelionato de Notas permanece como uma instituição vinculada à rotina civil de Irati, mas também como guardião de parte da memória documental do município. Em seus livros, estão registros de propriedades, famílias, decisões e trajetórias que ajudam a entender não apenas a vida jurídica da cidade, mas também sua formação histórica ao longo do tempo.

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