Karina Ludvichak
A produção de tabaco, principal atividade econômica de Rio Azul e de diversos municípios da região da Amcespar, tem enfrentado momentos difíceis nos últimos anos. Quedas frequentes e prolongadas no fornecimento de energia elétrica, especialmente durante o período de secagem do fumo, vêm causando prejuízos significativos aos produtores rurais, comprometendo a qualidade da safra, a renda das famílias e a economia local como um todo.
O problema, que se intensifica entre os meses de novembro e fevereiro, período de maior atividade da cura do tabaco nas estufas, está mobilizando lideranças políticas, entidades do setor agropecuário e produtores, que cobram providências urgentes da Copel. Em Rio Azul, a situação levou o prefeito e presidente da Amcespar, Leandro Jasinski, a intensificar articulações junto ao Governo do Estado, parlamentares, Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP) e à própria concessionária de energia, a Copel.
Segundo o prefeito, as interrupções no fornecimento até podem ocorrer em função de temporais ou problemas pontuais, mas o que tem causado maior indignação é o tempo excessivo para o restabelecimento da energia. De acordo com ele, duas cobranças principais têm sido feitas à Copel: a intensificação da limpeza da vegetação próxima às linhas de transmissão e o reforço no número de equipes para atendimento emergencial durante o verão. “Mais da metade dos problemas que acontecem pela falta de energia é porque está crescendo muito mato, muitas árvores, onde se deixou de fazer essa limpeza embaixo das linhas de transmissão”.
Outro ponto crítico é a falta de equipes suficientes para restabelecer rapidamente o fornecimento. “No verão tem vento, tem chuva, cai energia, falta gente, falta equipe para fazer a religação da luz em um tempo mais curto”, disse Jasinski.

Em São João do Triunfo, município que ocupa o 1º lugar na produção do fumo no Paraná e o 2º no Brasil, a instabilidade no fornecimento de energia elétrica também tem gerado grande preocupação durante o período de safra. O prefeito Mário Cezar Silva destacou que a falta ou oscilação de energia já provocou prejuízos recorrentes aos agricultores ao longo dos anos. Segundo ele, o problema também compromete o abastecimento de água nas comunidades rurais, já que os sistemas dependem de energia estável para o funcionamento das bombas. “Em conversa com a Copel, nós reunimos todas as associações do município para estar levando esta demanda e cobrando uma participação mais efetiva na estabilização do sistema de fornecimento de energia no interior, para que traga esta base de sustentação para o abastecimento de água”.
O secretário de Agricultura de Rio Azul, Airton Rigo Moretto, reforçou a gravidade da situação e destacou a urgência do tema. “É muito importante que a gente faça um movimento para mostrar que o produtor rural não está satisfeito com o fornecimento de energia, e que nós também não estamos satisfeitos”, afirmou.
Relatos de produtores que ficaram entre 11 e 24 horas sem energia têm sido frequentes, segundo o prefeito. Dados do município apontam que, aproximadamente, 500 produtores foram afetados em Rio Azul, de um total de cerca de 2.500 fumicultores, o que representa cerca de 20% do setor. Um dos casos mais graves relatados envolveu um produtor que perdeu seis estufadas de fumo, com prejuízo superior a R$ 100 mil.
Airton alerta que as quedas de energia afetam diversas cadeias produtivas, não apenas o tabaco. “Isso acontece em vários municípios, com cadeias do peixe, aves, suínos. Há uma insatisfação generalizada no Estado do Paraná com o fornecimento de energia”.
“A vocação do Rio Azul é produzir tabaco. A gente tem que fazer esse grande esforço para apoiar o produtor em cada momento necessário”
– Leandro Jasinski
Como presidente da Amcespar, Leandro destacou que a mobilização não é isolada. “Todos os prefeitos onde tem produção de tabaco estão entrando com cobranças, pedindo ajuda para os deputados, cobrando diretamente a Copel”, afirmou.
A administração municipal de Rio Azul tem dado apoio direto aos produtores, com serviços como terraplanagem para construção de novas estufas, apoio por meio de associações e fornecimento de implementos. “A vocação do Rio Azul é produzir tabaco. A gente tem que fazer esse grande esforço para apoiar o produtor em cada momento necessário”, reforçou o prefeito.
A Secretaria de Agricultura tem atuado como intermediária junto à Copel. “Nós temos um acesso, por ser poder público, e utilizamos isso para auxiliar os produtores. Quando o pedido demora a ser atendido, a gente intercede”, esclarece o secretário Airton.
Quedas frequentes de energia podem causar manchas, perda de qualidade e até incêndios. Nesta questão, Marcelo Leite, prefeito de Guamiranga e produtor de fumo, relata que as quedas de energia ou o estado de “meia fase” fazendo com “que equipamentos como motores e ventiladores usados nas estufas acabem queimando, colocando em risco toda uma estufa inteira de tabaco, além do alto risco de incêndio”.
REALIDADE DO PRODUTOR
Produtor de fumo da comunidade de Lajeado dos Melos, Rodrigo Satoski detalhou como funciona o processo de secagem e por que a energia elétrica é indispensável. “Nós colhemos o fumo, fazemos o fogo, ele vai amarelando e depois começamos a erguer a temperatura. No ponto crítico, entre 115 e 120 graus, não pode faltar energia mais que uma hora”, explicou.
O produtor relatou prejuízos acumulados e dificuldades para obter ressarcimento. “Faz dois anos que estou na Justiça contra a Copel. Perdi duas estufadas, tentei acordo e não aceitaram. Até hoje nenhuma resposta”, afirmou. Segundo ele, para comprovar o prejuízo, o produtor precisa contratar advogado, laudo técnico e reunir uma série de documentos. “Hoje estou de mãos atadas. Perdi o fumo, vendi ruim e estou no prejuízo até hoje”, desabafou.

DEBATE LEGAL
A situação também reacendeu o debate sobre a Lei Estadual nº 20.081/2019, que transfere aos produtores a responsabilidade pelo manejo da vegetação próxima às linhas de energia. Para Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP, a legislação é inadequada e gera insegurança.
Segundo ele, a lei impõe riscos à segurança dos produtores, custos adicionais e conflitos com a legislação ambiental e federal. “O produtor não é eletricista, não tem capacitação para trabalhar próximo à linha energizada”, explicou.
A FAEP orienta os produtores a buscarem autorização do Instituto Água e Terra (IAT) antes de qualquer supressão de vegetação nativa, evitando penalizações ambientais.
MANIFESTAÇÃO DA COPEL
A Folha de Irati entrou em contato com a concessionária de energia, que se manifestou através de nota oficial.
“A Copel informa que tem realizado diversas ações para atender aos pedidos dos fumicultores. A companhia também está participando de reuniões com autoridades municipais e legislativas e com os agricultores para ouvir as demandas e definir ações. Bases de campo vão realizar, nos próximos dias, inspeções para averiguar e identificar intervenções necessárias com o objetivo de evitar interrupções. A companhia destaca a importância da atualização cadastral por parte dos agricultores que trabalham com estufas de tabaco, sinalizando a atividade que exercem no local. Para isso, é preciso acessar www.copel.com, clicar na busca e digitar “cadastro e recadastro rural”. A informação sobre a produção de tabaco e de outras atividades rurais também pode ser levada aos postos de atendimento presencial em cada cidade. A Copel informa, ainda, que mantém um telefone exclusivo para atendimento aos fumicultores: 0800 643 4222”, finaliza a nota.