Karina Ludvichak
A conservação do solo, o uso de plantas de cobertura, a redução da compactação e técnicas para controlar o escoamento da água estiveram no centro das discussões do II Dia de Campo de Solos realizado em Irati pelo Sistema FAEP, em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR). O encontro aconteceu na quinta-feira (24), na Estação de Pesquisa do IDR-PR de Irati, e reuniu 117 participantes entre produtores rurais, técnicos, estudantes e profissionais ligados ao setor agropecuário. A programação foi dividida em quatro estações, permitindo que os participantes observassem diretamente técnicas que podem ser adaptadas às propriedades da região.
Segundo a analista do Departamento Técnico, Econômico e Legal do Sistema FAEP, Catherine Penter Gaudeda Machulek, a proposta é justamente retirar as orientações técnicas do campo teórico e mostrar ao produtor como elas podem ser incorporadas à rotina das propriedades. “A intenção desse Dia de Campo de Solos é que a gente possa mostrar na prática para o produtor rural práticas de conservação de solo e água que ele possa adequar à sua realidade, à sua propriedade rural”, explica. Para Catherine, esse cuidado ganha ainda mais importância diante da ocorrência de eventos climáticos intensos. “As estruturas de conservação de solo e água, as boas práticas, são fundamentais para que o produtor tenha condições de manter a sua produtividade, manter a sua lavoura e cuidar bem da sua base, que é o solo da propriedade”, destaca.

Irati faz parte de um circuito estadual planejado para contemplar diferentes características de produção, clima, relevo e solo. Em 2026, o Sistema FAEP programou cinco Dias de Campo distribuídos pelo Paraná. Antes do município, as atividades passaram por Toledo, Umuarama e Cruzeiro do Sul.
Segundo Catherine, a definição dos locais considera justamente as particularidades de cada região. Em Irati e municípios próximos, culturas como feijão, tabaco, erva-mate, grãos e cereais de inverno convivem com terrenos de diferentes declividades, exigindo estratégias específicas de manejo. “A intenção é que esses produtores, dentro de cada uma das estações, vejam essas práticas e possam adequá-las ao seu cultivo”, afirma.
CONHECIMENTO GUIADO
A dinâmica foi organizada em quatro estações complementares. A engenheira agrônoma e analista técnica do Sistema FAEP, Cibelle Tamiris de Oliveira, explica que uma delas abordou o uso de plantas melhoradoras da saúde do solo, com cereais de inverno cultivados pelo IDR-PR para demonstrar a importância das plantas de cobertura. Outra apresentou métodos de diagnóstico e redução da compactação, utilizando equipamentos para comparar as condições encontradas na linha e na entrelinha de plantio. Também houve uma estação dedicada à avaliação visual da qualidade do solo, com abertura de trincheira para que produtores e técnicos pudessem identificar características da estrutura do terreno, além de uma demonstração sobre terraceamento e sua relação com a retenção de água e nutrientes.
“Na região de Irati a gente vê que o relevo é o mais diverso possível. Tem partes declivosas, então é importante a utilização do terraceamento para conter o escoamento superficial da água e melhorar a infiltração”, explica Cibelle.

Segundo ela, as plantas de cobertura também cumprem papel importante ao favorecer essa infiltração e melhorar as condições do solo. A escolha dos conteúdos apresentados não é padronizada para todo o Estado: antes da realização de cada encontro, as equipes identificam as principais demandas agrícolas locais e definem quais práticas têm maior aplicação naquela realidade.
PESQUISA PERMANENTE
Além de receber o evento, a Estação de Pesquisa do IDR-PR em Irati funciona como espaço permanente para desenvolvimento e avaliação de tecnologias agrícolas. O assessor do Polo de Pesquisa e Inovação de Ponta Grossa do IDR-PR e responsável pela estação de Irati, Roger Daniel de Sousa Milleo, explica que as unidades experimentais têm papel importante tanto para o agronegócio quanto para a agricultura familiar. “Uma estação de pesquisa tem um papel fundamental no desenvolvimento de tecnologias para a agricultura, seja produzindo novas cultivares, discutindo manejo e conservação do solo, agroecologia ou agricultura regenerativa”, afirma.
A unidade de Irati integra uma rede de 20 estações experimentais do IDR-PR e se destaca no desenvolvimento de cultivares de feijão preto e em pesquisas com cereais de inverno, como trigo, triticale e aveia. O trabalho faz parte de uma rede estadual de melhoramento genético, que permite testar os materiais em diferentes condições de clima e solo. Segundo Roger, o desenvolvimento de uma nova cultivar é demorado. “Para você chegar ao lançamento de uma cultivar, muitas vezes leva 10 anos. Eles são testados em várias condições, em várias estações e em várias repetições, até que a gente chegue em um material promissor”, explica.

O sistema de terraceamento da estação também se tornou objeto de pesquisa. Terraços antigos, mais próximos entre si, dificultavam o uso de máquinas maiores e, após sua retirada, foram observadas perdas de água e solo. Por isso, um novo modelo, com espaçamentos maiores, foi implantado.
Mesmo após chuvas de 80 a 100 milímetros em cerca de uma hora, as áreas protegidas não apresentaram deslocamento perceptível de solo. “Nós não observamos nem um centímetro de solo escorrendo nessas áreas com esses terraços”, relata Roger. A estação, porém, não pretende oferecer uma solução pronta. “A ideia é estabelecer a estação como um laboratório de discussão para a gente chegar na melhor proposta”, afirma. Diferentes modelos seguem sendo avaliados para identificar o melhor equilíbrio entre conservação do solo, infiltração e armazenamento da água e operação das máquinas.
O Dia de Campo procura aproximar soluções técnicas de quem trabalha diretamente nas propriedades. Para o Sistema FAEP, essa aproximação também depende da atuação dos sindicatos rurais, responsáveis pelo contato mais próximo com os produtores e pela identificação das demandas de cada região.
O evento é aberto a produtores, técnicos e demais interessados no tema, e novas demandas podem ser encaminhadas pelos sindicatos para auxiliar no planejamento das próximas edições.


Fotos: Karina Ludvichak