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Promovido pela Moageira Irati, encontro discutiu tecnologias, nutrição, sólidos do leite e desafios da atividade leiteira, com palestra do professor doutor Rodrigo de Almeida, referência nacional na área
Foto: Moageira Irati/Reprodução

Karina Ludvichak, com reportagem de Nilton Pabis

A Moageira Irati promoveu, na última quinta-feira (27), a primeira edição do evento técnico “Caminhos do Leite”, realizado no Parque Industrial Integrado Moageira Irati/BR-277. Voltado a produtores, técnicos e profissionais do setor, o encontro marcou um novo movimento da empresa em direção ao fortalecimento da cadeia leiteira regional. A programação contou com visitas guiadas, momentos de troca entre produtores e uma palestra de destaque ministrada pelo professor Dr. Rodrigo de Almeida, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), um dos principais nomes da nutrição de ruminantes no país.

Foto: Moageira Irati/Reprodução

O objetivo central do evento foi aproximar os produtores da realidade tecnológica que movimenta o mercado de lácteos, além de apresentar estratégias que impactam diretamente a rentabilidade, como a melhoria dos sólidos do leite e o uso racional da ração. Entre os participantes estiveram produtores de diversas regiões, consultores, estudantes e colaboradores da Moageira, todos interessados em compreender como a nutrição animal, o manejo e as inovações tecnológicas podem elevar a produtividade em um período especialmente delicado para o setor leiteiro.

Marcelo Vosnika, diretor-presidente do Grupo Moageira Irati, explica que o Parque Industrial da empresa oportunizava a construção de uma fábrica de ração voltada à região, já que matérias-primas como milho, farelo e trigo, principais ingredientes do produto, estavam acessíveis dentro de uma logística simples. A partir disso, há quase três anos, a fábrica para nutrição animal passou a integrar a Moageira Irati. “O intuito da Moageira com isso é trazer mais renda para o produtor, para dar mais subsistência para ele, para que ele não saia do setor, para que ele ganhe dinheiro com isso”, completou.

Enxergando uma oportunidade de mercado, Marcelo conta que o evento Caminhos do Leite é uma forma de auxiliar os produtores no segmento, fazendo com que eles alcancem novos horizontes. “A gente optou por lançar esse produto de nutrição animal e ele vem crescendo nos últimos anos. Já estamos chegando agora em praticamente 2 mil toneladas ao mês e esperamos chegar aí pelo menos em 6 mil toneladas dentro dos próximos anos”, disse. A partir da ração animal, o diretor ressalta que a Moageira busca atender um raio de 150 km em torno de Irati.

Foto: Moageira Irati/Reprodução

Adriana Baumel, chefe da Seab-Irati, parabenizou o evento e ressaltou a importância do encontro para fortalecer o setor no município. “O principal objetivo, hoje, aqui, foi mostrar aos produtores a qualidade e a forma como são feitos os produtos para nutrição animal. Todo o processo, o controle de qualidade, o recebimento, a seleção da matéria-prima até o produto final e de que forma que eles entregam ao produtor. Garantindo qualidade, uma nutrição melhor aos animais e adequada ao sistema de produção”, disse.

Foto: Moageira Irati/Reprodução

Para André Machado, diretor de marketing da Moageira Irati, o evento é uma forma de valorizar e dar destaque aos produtores da região. “A gente acredita muito na força local, na força do produtor local, na força das pessoas, do ambiente e de que a gente consiga saber o rosto das pessoas, a gente tem que saber o nome das pessoas. Temos esse princípio básico na Moageira porque é o que a gente acredita. Se a gente puder conectar cada vez mais as pessoas com seus conhecimentos, com as suas expertises, a gente acredita que consegue avançar muito junto, avançar rápido e avançar com muita qualidade”.

Osnei Abel Lopes, técnico agrícola da Secretaria de Agropecuária de Irati, atua diretamente com os produtores de leite no município e também marcou presença no evento. Ele conta que, atualmente, o município tem cerca de 75 produtores no setor leiteiro. “Esses produtores atingem uma média aproximada de 35 mil litros por dia. Muitos já investiram em tecnologia, já estão bem avançados nessa parte, principalmente na estrutura, na parte genética dos animais, na parte de nutrição. Inclusive, a Moageira é uma das empresas que fornecem a ração para esses produtores”, comentou o técnico, que destaca a importância da empresa para a movimentação do setor no município e região.

“A Moageira é nossa parceira dentro desse processo, na bacia leiteira. Hoje em dia entregam para cerca de 30 produtores no município. Então é um número bastante relevante de comercialização de ração dentro de Irati e isso agrega valor também ao município, à atividade leiteira, tanto para os produtores como para a empresa e para a cidade”, observa Osnei.

SÓLIDOS DO LEITE E MERCADO

Durante entrevista à Folha de Irati, o professor Rodrigo comentou brevemente sobre a trajetória de quase três décadas como pesquisador e docente da UFPR. Natural de Curitiba-PR, atualmente ele é docente titular na Universidade Federal do Paraná e, há 27 anos, está inserido no ramo universitário, lecionando sobre bovinocultura de leite e formulação de rações. O conhecimento acumulado ao longo desses anos serviu de base para uma exposição profunda sobre o papel da nutrição no aumento dos sólidos do leite.

Rodrigo explica que a qualidade do leite vai muito além do volume produzido. “O leite de bebida tem aproximadamente 13 a 14% de sólidos. Esses sólidos são a gordura, a proteína e a lactose”. E esse aspecto se conecta a temas como as demandas crescentes do mercado consumidor, que tem ampliado o segmento de derivados do leite, especialmente queijos e manteiga. Segundo o professor, a indústria exige cada vez mais leite com bom teor de gordura e proteína para conseguir maior rendimento na fabricação dos produtos.

Foto: Moageira Irati/Reprodução

Ele destacou ainda que, com o crescimento expressivo da procura por queijos especiais, manteiga e bebidas lácteas proteicas, é quase inevitável que as indústrias valorizem os produtores que conseguem fornecer leite com maior concentração desses componentes. “Cada vez mais, os produtores serão bonificados por um leite com maior teor de sólidos, porque é isso que a indústria procura”, explicou. Para os produtores presentes, a informação reforça a importância de investimento em nutrição e manejo para garantir retorno financeiro.

Durante sua fala, Rodrigo também abordou a dúvida recorrente entre produtores sobre o que realmente aumenta o teor de sólidos do leite, sendo eles a genética, a nutrição ou o manejo.

Fotos: Moageira Irati/Reprodução

“Para o animal produzir leite com mais gordura e proteína, são dois caminhos: a genética e a nutrição. Uma coisa não exclui a outra”, sintetizou. Ele reforçou que dietas equilibradas, compostas por ingredientes como grãos, cereais, alimentos proteicos, minerais e vitaminas, permitem não apenas maior produção de leite, mas também melhorias significativas em sua composição.

Outro ponto importante tratado foi a necessidade de assistência técnica na escolha da ração adequada. Para Rodrigo, dificilmente o produtor consegue tomar essa decisão sozinho, já que envolve cálculos e composição nutricional específicos. “A gente recomenda que essa escolha seja apoiada por um técnico. A Moageira tem uma equipe capacitada para isso”, lembrou. Ele alertou ainda que é fundamental conciliar o tipo de ração com o potencial genético de cada animal para evitar desperdícios e garantir que o investimento realmente gere resultado.

Em sua análise sobre tendências, o professor reforçou que a produção leiteira no Paraná está cada vez mais integrada a sistemas de confinamento, devido à valorização da terra e à necessidade de maior produtividade por hectare. “O confinamento é um caminho sem volta”, afirmou.

Fotos: Moageira Irati/Reprodução

A relação entre oferta de volumoso e ração concentrada também foi detalhada, com explicações sobre conservação de forragens e escolha das espécies cultivadas. Rodrigo destacou que silagem de milho continua sendo essencial na pecuária leiteira paranaense, enquanto outras opções, como aveia, azevém e chifton, ajudam a complementar a dieta. Ele reforçou que, mesmo em sistemas confinados, as vacas continuam recebendo volumosos, muitas vezes compondo mais da metade da dieta.

Foto: Moageira Irati/Reprodução

O cenário econômico atual, com queda do preço do leite nos últimos meses, também foi tema da conversa. Rodrigo reconheceu que este é um período particularmente difícil, exigindo planejamento e decisões estratégicas para evitar prejuízos. Para ele, reduzir ração de forma abrupta é um erro sério. “Cortar ração é um tiro no pé, porque a produção cai e, com ela, a receita”, alertou. Em vez disso, sugere ajustes racionais, avaliação de produtividade individual das vacas e até descarte de animais pouco eficientes.

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