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A seleção brasileira chega à Copa do Mundo de 2026 com algumas incertezas no time titular. Se no setor ofensivo, jogadores do banco de reservas vêm pedindo passagem, nas laterais o panorama é o contrário: nenhuma grande unanimidade. Principalmente após o corte de Wesley. Logo no setor que, tanto pelo lado esquerdo quanto na direita, o futebol brasileiro se acostumou por décadas a ter nomes de destaque mundial, como Jorginho, Branco, Cafu, Roberto Carlos, Maicon, Marcelo, entre tantos outros.
O que houve com as nossas laterais? Temos algum problema na formação? Seria uma questão do Brasil ou é uma crise da posição internacionalmente? Escalar zagueiros nas laterais é uma opção? O ge buscou esclarecer estas e outras dúvidas em torno da posição da Seleção.
A crise da lateral no mundo
Não é exagero dizer que as laterais vivem uma crise internacional. O Paris Saint-Germain, atual bicampeão da Champions League (por acaso, ou não), dentre os principais clubes do mundo, é o único que se atua com laterais de origem como grandes destaques. No PSG, Nuno Mendes pela esquerda e Hakimi na direita são dois dos melhores jogadores do mundo, integrantes do top-10 da Bola de Ouro em 2025 e, provavelmente também estarão na lista neste ano.
Porém, equipes como Manchester City, Arsenal e Bayern de Munique têm utilizado zagueiros e/ou meio-campistas improvisados, na maior parte do tempo. Barcelona e Real Madrid têm tido problemas nas posições, tendo que apelar para improvisações e grande rotatividade em 2025/26. Uma das razões da escassez dos “clássicos laterais” em destaque é a evolução tática do futebol.
“Veio uma mudança no futebol mundial, que é o surgimento cada vez maior dos pontas. E os laterais passam a ver esse corredor ocupado. O futebol criou uma diversidade nas funções dos laterais. Hoje você ainda tem laterais que atacam muito o corredor, mas em geral fazendo essa divisão de tarefas com o ponta que corta para dentro. Você tem os laterais que se tornam meias, para construir, tem os laterais defensivos e tem os zagueiros convertidos em laterais” analisa Carlos Eduardo Mansur, comentarista do Grupo Globo.
O futebol sempre trouxe evoluções táticas com o decorrer dos anos e, nas últimas décadas, a ocupação de espaços se tornou uma das grandes prioridades, independente se a equipe atua num 4-3-3, 4-4-2 ou 3-5-2, por exemplo. Assim, se as alas ofensivas são ocupadas majoritariamente pelos pontas, diminui a relevância de os laterais irem ao fundo com frequência para fazerem cruzamentos, como em outros tempos. O treinador e ex-lateral-direito Jorginho vê pouco espaço em campo.
“Futebol mudou, está sendo jogado num espaço pequeno hoje. O time que está dominando o adversário, no espaço de ataque, está à frente do círculo central e o zagueiro adversário fica na linha da grande área. O jogo fica num espaço de 30 metros. Os pontas estão acompanhando os laterais. Os laterais quase nunca ficam sozinhos” destaca o tetracampeão com a Seleção em 1994.
“Tínhamos essa oportunidade de chegar muitas vezes ao fundo e fazer cruzamentos. A maior razão de não termos tantos laterais com as características do passado é que o jogo mudou muito”, reitera Jorginho.
Escassez de bons laterais brasileiros?
Olhando para a seleção brasileira, a situação é ainda mais grave por não ter encontrado nenhum jogador para ser o dono da posição desde a Copa do Mundo de 2022. Dos 96 jogadores convocados no atual ciclo da Seleção, 24 foram laterais. É a segunda posição com mais nomes testados, atrás apenas dos atacantes, com 29 nomes. Como comparação, entre 2018 e 2022, sob o comando de Tite, 13 laterais foram convocados, com apenas nove entrando em campo.
Veja os 24 laterais que foram convocados para a Seleção no ciclo 2023-2026
| Laterais-direitos | Danilo (Flamengo), Wesley (Roma), Ibañez (Al-Ahli), Éder Militão (Real Madrid), Dodô (Fiorentina), Arthur (Bayer Leverkusen), Emerson Royal (Flamengo), Paulo Henrique (Vasco), Vanderson (Monaco), Vitinho (Botafogo), William (Cruzeiro), Yan Couto (Borussia Dortmund) |
| Laterais-esquerdos | Douglas Santos (Zenit), Alex Sandro (Flamengo), Abner (Lyon), Alex Telles (Botafogo), Ayrton Lucas (Flamengo), Arana (Fluminense), Caio Henrique (Monaco), Carlos Augusto (Inter de Milão), Kaiki (Cruzeiro), Luciano Juba (Bahia), Renan Lodi (Atlético-MG) e Wendell (São Paulo) |
A média de idade dos laterais convocados na lista final da Copa do Mundo é de 30 anos. Se considerarmos todos os laterais testados no ciclo, essa média cai para 27,8, o que indica uma tentativa de renovação que não foi bem sucedida, com nomes mais experientes, como Danilo e Alex Sandro voltando a ser chamados no fim das contas.
“A grande época de lateral brasileiro fazendo sucesso nos principais clubes do mundo era de superlaterais que ocupavam todo o corredor. Hoje há uma diversidade de funções e, talvez, nessa nova diversidade, o Brasil não tenha achado jogadores que se destaquem a nível internacional executando essas novas funções” analisa Mansur.
Temos um problema de formação?
Vários laterais mais jovens foram convocados para a seleção brasileira no último ciclo, mas, por diferentes motivos, alguns não conseguiram se firmar. Só Wesley chegou ao Mundial com menos idade. O que há com a formação de laterais no Brasil? A reportagem ouviu o técnico Ramon Menezes, que comandou a seleção sub-20 entre 2022 e 2025.
“No meu período à frente da seleção brasileira, convoquei alguns laterais de muito potencial, bem promissores. Entendo que pelo investimento dos clubes nas categorias de base, no planejamento e balanço anual, na saúde financeira dos clubes, passa muito pela venda precoce desses atletas que saem do país ainda não tendo completado todo o seu processo de formação, de maturação.”
O ex-meia e hoje treinador, atualmente sem clube, considera prejudicial para o amadurecimento dos atletas a saída precoce de seu país. Ele citou exemplos de laterais de grande potencial que convocou em anos anteriores, mas que não conseguiram despontar na seleção brasileira.
“Dois exemplos são Arthur e Vinicius Tobias, que foi para o Shakhtar muito novo, com um ótimo histórico nas categorias de base do Inter e na seleção brasileira. Foi para o Real Madrid sem conseguir ter uma passagem de destaque e voltou para o Shakhtar… E o Arthur foi um atleta convocado para a Sub-20, jogando no América-MG, campeão sul-americano com a gente. Chegou a ser convocado por mim para a seleção principal. Negociado com o Leverkusen, com os mesmos problemas que os jovens enfrentam: adaptação, língua, país, processo de formação, falta de minutagem” conclui Ramon.
Zagueiros são soluções para laterais?
Uma saída muito utilizada nos últimos anos no futebol é a escalação de zagueiros nas laterais. Pep Guardiola empilhou títulos no Manchester City utilizando nomes como Akanji, Aké e Gvardiol pelos lados da defesa. Mais recentemente, o Arsenal venceu a Premier League jogando com Jurrien Timber, Ben White, Calafiori e Hincapié nos lados do campo, todos originados ou notabilizados na zaga.
“Usar zagueiros nas laterais é uma possibilidade dentro do cardápio de todos os treinadores. No lugar de você ter um lateral que vai basicamente defender, você pode ter um zagueiro, se acreditar que ele vai ter mais capacidade de ganhar duelos. Principalmente porque hoje se enfrenta cada vez mais pontas com drible. Se você entender que tem zagueiros com velocidade e capacidade de ganhar duelos, eles podem ser usados” destaca Carlos Eduardo Mansur.
A seleção brasileira também passou a se render à estratégia. Na Copa de 2022, Éder Militão, que é lateral de origem, mas atua como zagueiro no Real Madrid, jogou na ala direita. A tendência era de que fosse titular na posição novamente em 2026, mas se lesionou. Ancelotti optou por convocar Danilo, que tem atuado como zagueiro no Flamengo, e Ibañez, zagueiro do Al-Ahli, que pode também jogar como lateral, além de Léo Pereira, que também já fez o lado esquerdo no Fla.
“Muitas vezes o lateral está fazendo terceiro zagueiro, o que acontece com o Danilo, por exemplo. Para fazer linha de três na saída de bola. E pouco o Danilo avança, é muito experiente, mas não é hoje um lateral. Do outro lado, tanto Alex Sandro quanto Douglas Santos, são jogadores bons tecnicamente, mas não tão velozes, como o Wesley, por exemplo” acrescenta o ex-lateral Jorginho.
A crise de laterais de destaque ofensivo não é uma exclusividade do Brasil. Uma grande vantagem que a seleção brasileira tem como poucas no mundo é o alto número de pontas talentosos dos dois lados. Cabe a Carlo Ancelotti potencializar a ocupação das alas ofensivas com as peças que julgar ideais, de acordo com as características dos nossos jogadores.
A estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026 é contra o Marrocos, no próximo sábado, às 19h (de Brasília), na primeira rodada do Grupo C. A seleção brasileira vai enfrentar também o Haiti, no dia 19, e a Escócia, no dia 24, para decidir uma vaga na segunda fase.