Por Leticia H. Pabis
O Natal é uma celebração universal, mas com um toque único em cada canto do mundo. Como brasileira vivendo em Portugal, eu percebo que essa data reflete não apenas a cultura, mas também o clima e o espírito de cada país. As celebrações natalinas em Portugal e no Brasil, embora compartilhem raízes em comum, evoluíram de maneiras diferentes, refletindo as particularidades históricas e culturais de cada um destes países.
Em Portugal, o Natal ganha um charme aconchegante com as ruas iluminadas, mercados de Natal e o vento gelado soprando nos rostos das pessoas.Por aqui, o Natal tem as raízes mais profundas nas tradições cristãs, com práticas que revisitam séculos e mais séculos de histórias. A Missa do Galo, celebrada à meia-noite de 24 de dezembro, é um dos exemplos desta herança religiosa, simbolizando a vigília pelo nascimento de Jesus Cristo. Além disso, a montagem de presépios é outra tradição significativa, com representações detalhadas do nascimento de Cristo. Essas práticas refletem a continuidade de rituais que têm sido preservados e adaptados ao longo do tempo, mantendo viva a essência do Natal português.

Conforme a tradição, as famílias portuguesas se reúnem no dia 24 de dezembro para a Ceia, onde são servidos pratos típicos, como o bacalhau cozido com batatas e couve. O Bolo-Rei, recheado com frutas cristalizadas, e que eu particularmente acredito que é bem semelhante ao nosso panetonebrasilerio, além de outros bolos típicos da época, como as broas castelares, e os tradicionais fritos, como filhoses, sonhos e rabanadas, não podem ser deixados de fora desta noite tão importante.
No Brasil, as tradições natalinas foram inicialmente influenciadas pelos colonizadores portugueses, que trouxeram suas celebrações católicas no século XVI. Com o passar do tempo, essas tradições foram se mesclando às diversas influências culturais presentes no país, resultando em uma celebração única e diversificada de cada região. A Missa do Galo também é uma prática comum, refletindo a herança portuguesa, mas adaptada ao contexto brasileiro. A ceia de Natal no Brasil incorpora pratos que refletem a diversidade cultural do nosso país, como o chester, a farofa e o salpicão, demonstrando a fusão de influências indígenas, africanas e europeias.
Essas diferenças, no entanto, me fazem refletir: será que o que realmente importa no Natal é o lugar onde estamos ou o significado que carregamos no coração?Embora os filmes de Natal, como “O Grinch”, “Esqueceram de Mim”, “O Expresso Polar” e tantos outros que encontramos no catálogo da Netflix, nos apresentem uma perspectiva acolhedora do Natal frio e com neve, vivê-lo é uma outra realidade.
Ainda que na grande maioria do território Português não neve, é bem frio, e para mim, particularmente falando, o Natal tem cara de verão brasileiro e tradições específicas da minha família: fazer compras a noite na Munhoz da Rocha, ir à missa do dia 24 na Matriz Nossa Senhora da Luz, a família toda se reunindo na casa da minha avó, comer a maionese da dona Tereza Pabis e o chester da minha tia Neli, apreciar o pudim de leite condensado de sobremesa e realizar a revelação do amigo secreto.

Passear à noite nos mercados de Natal em Portugal, colocar várias camadas de roupas quentinhas, tomar vinho quente (semelhante ao nosso quentão) e ouvir coros cantando canções natalinas nas ruas é uma nova experiência que me faz ressignificar a minha definição desta festividade.
Porque, no final de tudo, celebrar o Natal é celebraro nascimento de Jesus Cristo, que simboliza a expressão máxima do amor divino pela humanidade. Este acontecimento acaba por estimular a prática do amor ao próximo, se tornando a época ideal para ajudar aqueles que mais precisam, partilhar momentos com entes queridos e reforçar vínculos emocionais. E é exatamente isso que eu percebo estando a mais de oito mil quilômetros de casa
No final das contas, não importa realmente o lugar em que você celebra o Natal, e sim quem partilha o significado desta data tão importante com você. A ausência da família biológica, particularmente em datas importantes como o Natal, pode provocar em nós uma procura por acolhimento e conforto em outros, nos levando a descobrir novos conceitos de família.Assim, mesmo longe dos laços sanguíneos, encontramos em outros corações o calor e a conexão que nos fazem sentir em casa.

Afinal, o Natal é uma comemoração diversificada que, além das tradições e comemorações de cada um de nós, nos instiga a uma reflexão intensa sobre os valores que conferem significado à vida humana. É um convite para praticar o amor, a solidariedade, a humildade e renovar a esperança em um mundo mais justo.