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Dependência de importação e alta nas cotações internacionais fazem custo do combustível subir mais de R$ 1,50 nas distribuidoras; especialistas descartam pânico, mas alertam para efeito cascata em alimentos e fretes
Foto: Esther Kremer

Esther Kremer com reportagem de Nilton Pabis

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O acirramento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, envolvendo o Irã, EUA e Israel, com foco principal no Estreito de Ormuz, por onde escoa 20% do petróleo mundial, desestabilizou o mercado de combustíveis e já reflete nas bombas em Irati e região. Com os intensos conflitos e a interrupção da exportação do produto, o preço do barril de petróleo (até o momento do fechamento desta edição), chegou a 101,31 USD (dólares), pouco mais de R$ 515,00 reais.

Em entrevista exclusiva para a Folha, Paulo Ivasko, diretor comercial da rede do Posto Rotta 400, que administra 21 postos pela região sudeste, revelou que o setor enfrenta um cenário atípico em 25 anos, a combinação de preços em ascensão e a entrega limitada de produto pelas distribuidoras. Embora a Petrobras mantenha certa estabilidade em suas refinarias, o Brasil depende da importação de cerca de 30% do diesel consumido internamente.

Como as distribuidoras compõem seus preços mesclando o produto nacional com o importado, o repasse das altas internacionais para os postos têm sido imediato. Segundo o empresário, o custo do diesel nas distribuidoras chegou a subir mais de R$ 1,50 por litro desde o início do conflito.

Mais do que o preço, a preocupação imediata do setor é a logística de entrega. “O problema não está apenas no preço maior, o problema é que não estamos tendo diesel para comprar em volume total”, afirmou o diretor. Relatos indicam que alguns postos da região já enfrentaram períodos de até um dia e meio sem produto devido ao sistema de cotas das companhias.

Diferente de outros setores, o estoque de combustíveis é subterrâneo e limitado, durando, em média, de dois a três dias. Essa dinâmica impede que os revendedores segurem os preços antigos por muito tempo, uma vez que precisam repor o estoque quase diariamente sob novas cotações.

Foto: Esther Kremer

E QUANDO POSTO NÃO FAZ PARTE DE UMA REDE?

O gerente administrativo do Posto Nadir, Silvaneide Ruoni, comentou, além do aumento do preço, principalmente sobre a falta do combustível nos postos. Segundo o mesmo, a procura tende a aumentar mais devido à época de colheita e em uma compra efetuada, por exemplo, de 45 mil litros, está chegando apenas cinco litros. “Principalmente falando do diesel. Todo mundo está precisando do combustível, está precisando do diesel S10, do BS500, devido o início da colheita e não estamos conseguindo atender todos os clientes”.

Segundo Silvonei, o estoque de diesel no posto já está baixo e na quinta-feira (12), já não havia mais o diesel S10 e nem o BS500. “Tem um pedido para chegar e eu acredito que na sexta-feira (13) já chega uma remessa, mas pode ocorrer a falta do produto, sim. Teve uma alta de 20% nas distribuidoras e ficou muito caro para comprar, e os custos, infelizmente, a gente tem que repassar, não consegue segurar”, explica.

Foto: Esther Kremer

O presidente da Associação dos Transportadores de Cargas de Irati e Região, Juliano Santa Clara de Oliveira, comenta que o aumento do diesel não foi comunicado por nenhuma autoridade competente na região, mas que a realidade já aparece nos postos. “Em alguns lugares esse aumento está chegando a quase R$ 2,00 a mais por litro, afetando violentamente o custo do caminhoneiro, que não está conseguindo repassar esse incremento do valor do diesel para seus clientes. Isso está deixando a categoria muito preocupada e acendendo a luz da alerta, porque não vamos aguentar muito tempo. Ou alguma coisa irá acontecer ou o setor vai ter que parar. Infelizmente, essa é a nossa realidade”, disse.

Impacto no agronegócio e fretes

A alta do diesel ocorre em um momento sensível para o Paraná, que está em pleno período de colheita da safra de soja. O diesel representa 29% do custo operacional do transporte, o setor projeta um efeito cascata nos preços de alimentos e mercadorias em geral.

Segundo o Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), um levantamento feito pelo Departamento Técnico e Econômico (DTE) da entidade indica que “73% da energia utilizada na agropecuária brasileira é proveniente de combustíveis fósseis, principalmente o diesel, que abastece máquinas agrícolas e sustenta parte da logística de transporte da produção […] o transporte rodoviário responde por mais de 60% da movimentação de cargas, incluindo grãos, fertilizantes, ração e outros insumos. 29% do diesel consumido é importado”.

Ainda, segundo a Faep, culturas como soja, milho, trigo e cana-de-açúcar utilizam máquinas movidas a diesel e diversas cadeias produtivas como avicultura, suinocultura e produção de leite, que dependem de fluxos logísticos contínuos com o abastecimento para transporte, serão afetados. 

“Subir o preço nem sempre é bom para o posto, porque atrapalha a economia e acaba reduzindo o volume de vendas lá na frente”, explica Paulo. A análise do setor é que o mercado brasileiro não suportaria um crescimento muito acima dos patamares atuais sem comprometer seriamente a cadeia de suprimentos e o poder de compra do consumidor final.

Isso já pode ser visto em supermercados de Irati, a equipe da Folha realizou uma pesquisa informal e pôde constatar que produtos simples, como o leite, que até semana passada custavam em média R$ 4,00, hoje pode ser encontrado com valores acima dos                R$ 6,00.

Setor de construção e pavimentação

O empresário iratiense, Jorge Derbli, proprietário da Construtora Derbli, que atua no ramo de pavimentação asfáltica, também faz parte de um dos segmentos que têm sofrido com a oscilação do preço do diesel. “É um absurdo esse aumento que houve nos últimos dias e estão projetando muito mais. Até hoje eu não escutei em nenhum noticiário da televisão dizendo que a Petrobras aumentou um centavo sequer na gasolina e no óleo-diesel. São as distribuidoras que estão fazendo isso, e os postos de gasolina comprando mais caro, óbvio que tem que vender mais caro, e nós, consumidores, estamos pagando por essa conta dessa guerra. É um absurdo o que está acontecendo”.

Outro relato de impacto no dia a dia de construtoras é o de Antônio Carlos Duda, diretor administrativo da Construtora Cathio. “Esse aumento vai chega a impactar em torno de 10 a 15% no custo total de uma obra. Porque o óleo-diesel tem um impacto direto no custo operacional da obra. Aumenta o frete, a matéria-prima, por exemplo, o tubo, agora vem com uma alteração de preço, a pedra, também acontece a mesma coisa. Tudo dá impacto, não é só no custo direto do nosso equipamento”.

Em relação ao preço do CAP (Cimento Asfáltico de Petróleo), utilizado para realizar obras de pavimentação, representa cerca de 40% da matéria-prima para a realização do serviço, Duda comenta que o preço ainda se mantém. “Nós compramos CAP a semana passada e hoje ele está no mesmo custo. Quem faz essa distribuição é a Petrobras e o preço se mantém, o xisto subiu um pouco, mas o CAP, que é o principal para nós, graças a Deus, até o momento, não teve nenhuma alteração. Espero que isso não aconteça. Senão, vai impactar muito nas obras”, explica.

Commodities e subprodutos

A reportagem ainda apurou que a volatilidade não se restringe ao petróleo. O etanol e o biodiesel, que compõem as misturas da gasolina e do diesel, respectivamente, também são regidos por bolsas de valores e fatores sazonais. Apesar da pressão, o setor evita projeções de pânico.

A expectativa é de que o mercado se estabilize em curto prazo, à medida que as rotas comerciais internacionais se adaptem ou que as tensões diplomáticas enfraqueçam. Até lá, a orientação para o consumidor é de cautela, enquanto os postos atuam como repassadores das tabelas impostas pelas grandes distribuidoras (como Ipiranga e Petrobras), que gerenciam o mix entre o combustível nacional e o importado.

PREÇOS DOS COMBUSTÍVEIS NO BRASIL

Postos em Irati (Rotta 400); Goiás; São Paulo; Mato Grosso; Irati (BR-277); Pará.

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