A rotina de quem vive no circo vai muito além das apresentações no picadeiro. Montagem de estrutura, manutenção de equipamentos, produção de figurinos, organização administrativa e logística de viagem fazem parte do cotidiano dos artistas que percorrem diferentes cidades com seus espetáculos.
Em passagem por Irati, os integrantes do Circo Torricceli, Ângela Carol Guimarães Zanquetin, filha do fundador Jaime Zanquetin, que dá vida para a palhaça Polina e André Mira, artista e contratado do circo, que também dá vida ao palhaço Chinchorito falaram sobre a dinâmica da vida circense, marcada pela itinerância, pela divisão de tarefas e pela convivência familiar dentro da companhia.

O Circo Torricceli foi fundado em 1998 pela família Zanquetin e, segundo Ângela, o circo surgiu após uma reorganização familiar. Antes da criação da nova companhia, a família trabalhava no Circo Zanchettini, fundado pela avó de Ângela. “Minha avó tinha muitos filhos e a família foi crescendo. Com o tempo, acabou ficando muita gente trabalhando no mesmo circo. Então decidimos abrir uma nova empresa, que foi o Circo Torricceli”, explica.
Foto: Circo Torricceli
Quando a companhia foi criada, o grupo era formado por seis pessoas. Hoje o circo conta com cerca de 20 integrantes, sendo que 19 pertencem à mesma família. Ângela também destaca a continuidade geracional da atividade circense. “Eu sou a quinta geração da família no circo e meus filhos já representam a sexta geração”, afirma.
A rotina fora do picadeiro
Embora o espetáculo seja o momento mais visível para o público, a rotina diária envolve uma série de tarefas que garantem o funcionamento da companhia. Segundo os artistas, o trabalho começa cedo e inclui atividades como manutenção da estrutura, organização logística, divulgação, montagem de equipamentos e preparação para as apresentações.
Dentro do próprio circo também são realizados diversos serviços que, em outras situações, seriam terceirizados. Entre as funções executadas pelos próprios integrantes estão costura de figurinos, manutenção da estrutura, pintura e reparos técnicos. “Durante o dia existem muitas atividades para preparar tudo para o espetáculo. Cada pessoa acaba assumindo várias funções dentro da companhia”, relata André.



Fotos: Circo Torricceli
A produção de figurinos também faz parte da rotina do circo. A maior parte das roupas utilizadas nas apresentações é confeccionada dentro da própria companhia por Elizabete Zanquetin, esposa de Jaime.
De acordo com os artistas, embora atualmente existem peças disponíveis para compra online, muitas roupas ainda são feitas internamente ou passam por reformas para serem reutilizadas. “Os figurinos podem durar vários anos, já que são utilizados apenas durante as apresentações e são guardados logo após o término do espetáculo. É igual uma roupa de gala que você não utiliza em qualquer lugar”, explica André.
Educação e formação fora do circo
Mesmo com a vida itinerante, a família mantém a preocupação com a educação formal dos integrantes mais jovens. Segundo Ângela, todos os membros da companhia possuem o ensino médio completo e alguns seguem ou já concluíram cursos superiores.
Quando o circo chega a uma nova cidade, as crianças e jovens são matriculados nas escolas locais durante o período de permanência da companhia. “Cada vez que chegamos em uma cidade, procuramos uma escola para matricular as crianças. Quem não for bem na escola, não pode participar das apresentações. Normalmente somos muito bem recebidos”, afirma.
Do interesse pelo circo à profissão
Além da família, o circo também conta com profissionais que ingressaram na atividade por escolha própria. É o caso de André Muller, que atualmente atua como secretário da companhia. Natural de Joinville (SC), André conta que não nasceu em família circense, mas desde criança demonstrava interesse pela atividade. “Eu tinha nove anos quando assisti a um espetáculo e decidi que queria trabalhar com circo”, relata.
Foto: Circo Torricceli

Ele começou a frequentar uma escola de circo em sua cidade e, ainda adolescente, passou a trabalhar em apresentações e em circos que passavam pela região. Após concluir o ensino médio, decidiu seguir definitivamente a carreira circense.
“O circo jamais vai morrer, ele pode se modificar, mas enquanto tiver os artistas, uma criança pra sorrir, vai ter uma loninha e um palhaço ali, pronto para levar alegria a quem precisa” – Ângela Carol Guimarães Zanquetin (Polina)
Hoje, André é responsável por grande parte da organização administrativa da companhia. Entre suas funções estão a locação de terrenos nas cidades onde o circo se instala, obtenção de alvarás, solicitação de serviços como água e energia elétrica e cumprimento das exigências legais para funcionamento do espetáculo. Ele também coordena a divulgação das apresentações.
“Além da parte burocrática, organizamos a divulgação do espetáculo, com parcerias com rádio, jornal, redes sociais e outras ações de publicidade”, explica.
O circo e a atualidade
Segundo contam os artistas, a internet passou a ter papel importante no processo de divulgação, permitindo manter contato com o público mesmo após a saída do circo da cidade.
Para os integrantes da companhia, o circo continua se adaptando às mudanças da sociedade, incorporando novas formas de divulgação e organização. Apesar das transformações ao longo do tempo, eles destacam que o espetáculo ao vivo continua sendo a essência da atividade circense. “Cada apresentação é diferente. Isso faz parte do circo”, afirmam.
Para Ângela, a magia nunca vai ter fim, mesmo com toda a evolução existente no mundo. “A alma do circo são os artistas, com toda a sua habilidade, com toda a sua coragem. O circo jamais vai morrer, ele pode se modificar, mas enquanto tiver os artistas, uma criança pra sorrir, vai ter uma loninha e um palhaço ali, pronto para levar alegria a quem precisa”.

Por fim, Ângela e André agradeceram a estadia em Irati e comentaram se sentir acolhidos pela cidade. “É muito especial poder contar a nossa história, a minha história, a história do circo para que todas as pessoas conheçam o que é o circo, porque o circo é o ar que a gente respira, é o nosso sustento, é a nossa forma de ganhar vida, é a nossa forma de falar com o mundo, de mostrar o que a gente tem de melhor para o mundo. Deixo um abraço a toda Irati, a cidade, que nos recebeu muito bem, espero poder voltar várias vezes para a cidade”, diz André.
Foto: Circo Torricceli
“Eu já estive em Irati quando era criança, tinha 12 anos, com o circo da minha avó, tenho recordações do Parque, do pedalinho e do mesmo jeito que as crianças da cidade vão ter a recordação do circo, eu também tenho a minha recordação de Irati e, agora, terei ainda mais com a temporada do circo Torricelli. Eu espero que possamos voltar e que meus filhos voltem também com os seus futuros filhos e mostrem essa cidade para eles. Um beijo da palhaça Polina”, finaliza Ângela.