Sthefany Brandalise, com reportagem de Nilton Pabis
A comunidade do Rio do Couro viveu um momento histórico ao celebrar os 100 anos da fundação da Igreja São Sebastião, marco central da vida religiosa, social e cultural da localidade. A data também marcou os 112 anos da chegada dos imigrantes italianos à região, reunindo famílias, lideranças e visitantes em um encontro que uniu fé, memória, cultura e identidade.
A celebração contou com uma Santa Missa rezada em italiano pelo padre Edvino Sicuro e cantada em italiano pelo Coral Italiano da Colônia Campina, de Campo Largo (PR). Após a celebração religiosa, a comunidade participou de um jantar típico italiano, que resgatou sabores tradicionais da imigração. O cardápio incluiu saladas de radicci com bacon, escarola, maionese, couve-flor, brócolis, pepino em conserva e tomate com cebola; guarnições como arroz, risoto, macarrão ao sugo, nhoque à bolonhesa e lasanha; além de carnes como coxa e sobrecoxa de frango e galinha ao molho, acompanhadas de polenta mole e polenta frita.
Um dos organizadores do evento, Bruno Maneira, destacou que a celebração vai além da festa e representa um reencontro com a história da comunidade. “É um momento muito importante para a gente celebrar e relembrar aqueles que nos antecederam. Ver todos esses povos reunidos, festejando a nossa etnia italiana, é algo muito bonito”, afirmou. Segundo ele, o que mais caracteriza o Rio do Couro é a fé herdada dos antepassados. “Com certeza é a fé. Essa fé que nós herdamos dos nossos antepassados é o que nos move até hoje”, completou.
A programação contou com a presença do Padre Edvino Sicuro, descendente de imigrantes italianos com raízes na comunidade. Emocionado, ele relembrou sua ligação com o Rio do Couro. “Meu avô veio para essa região e eu nasci a poucos quilômetros daqui. Eu vivi cinco anos em Roma e fiz questão de celebrar a missa em italiano para manter um pouco das nossas raízes e da nossa cultura”, explicou.

Foto: Reprodução Facebook Bruno Rafael Maneira
Durante sua fala, o sacerdote ressaltou o papel dos imigrantes na construção do Sul do Brasil. “Com a vida e o trabalho dos imigrantes, construímos um Sul rico. Não só italianos, mas também alemães e poloneses. Mas aqui, nessa região, os italianos tiveram uma presença muito forte. Eu tenho orgulho de dizer que sou do interior de Irati. Onde a gente vai, não pode esquecer as raízes”.
Presente no evento, o prefeito de Irati, Emiliano Gomes, destacou o valor simbólico e histórico da comunidade do Rio do Couro para o município. “Essa comunidade é um símbolo de tradição. Quando falamos da imigração italiana, falamos de coragem, de famílias que enfrentaram dificuldades enormes, inclusive a fome, para desbravar essa terra”, afirmou.
Emiliano também lembrou que a história da comunidade está fortemente ligada à polenta, alimento que simboliza a resistência dos imigrantes. “Foi a polenta que ajudou essas famílias a permanecerem aqui. É um símbolo de tudo aquilo que foi construído com esforço e união”, disse. O prefeito ainda falou sobre os investimentos em infraestrutura e destacou que, apesar dos projetos futuros, o momento era de celebração. “Hoje é dia de valorizar os antepassados e tudo o que essa comunidade representa”, completou.
Outro destaque da matéria foi o relato de Osmar Agio, descendente de italianos e integrante da terceira geração no Brasil. Ele explicou que o grande fluxo migratório ocorreu em meio a um cenário de extrema miséria na Itália. “Se fosse para resumir em uma palavra o que trouxe os imigrantes para cá, seria a miséria. Eles passaram fome na Itália e passaram fome aqui também”, relatou. Para ele, o sofrimento moldou a identidade da comunidade. “Eles foram verdadeiros heróis, e isso explica a força e a resiliência que vemos até hoje”, afirmou.
A importância da história para a construção do futuro foi ressaltada por Sandro Maneira, representante da comunidade. “Tudo vem de uma base, de uma história. O Rio do Couro hoje é uma comunidade forte, produtiva, mas isso só é possível porque alguém lá atrás lutou e construiu”, destacou.
O sentimento de gratidão também marcou o depoimento de Dirceu Gonçalves, morador da comunidade há mais de 50 anos e um dos voluntários na construção da igreja. “Foi um trabalho muito bonito, feito com união. Trabalhar pela comunidade é servir a Deus e servir ao irmão”, afirmou emocionado. Para ele, a capela sempre foi o centro da vida comunitária. Ao final da celebração, uma bênção em italiano simbolizou a união entre fé, cultura e memória.