Esther Kremer
Em meio à área rural próxima ao limite entre Irati e Fernandes Pinheiro, às margens de uma antiga paisagem marcada pela exploração florestal e pela expansão econômica do início do século XX, permanece em pé um dos imóveis mais emblemáticos da história regional: a antiga Casa Sede da Fazenda Florestal, também conhecida popularmente como Casarão do Iapar, Casarão do Pinho ou ainda Palácio do Pinho.
Mais do que uma construção antiga, o casarão representa um testemunho material de uma época em que a madeira ocupava lugar central na economia paranaense. Sua presença na paisagem remete ao ciclo madeireiro, ao avanço das serrarias e à formação de uma elite empresarial ligada à exploração das florestas de araucária na região.
A edificação teria sido construída em 1912 pelo empresário Alberico Xavier de Miranda, para servir de residência à família e também como sede da Serraria Florestal Miranda, empreendimento que figurou entre os mais expressivos e modernos da região naquele período. A propriedade integrava um complexo econômico de grandes proporções, com cerca de 1.200 alqueires, onde, além da casa principal, existiam também serraria, armazém, capela e até uma estação ferroviária particular, sinal da dimensão e da organização do empreendimento.
A casa foi pensada para abrigar a família Miranda em meio ao funcionamento dessa ampla estrutura produtiva. Sua localização, em uma estrada rural com ligação próxima à BR-277, mostra que o espaço ocupava posição estratégica em uma região que se consolidava economicamente a partir da força da madeira e de sua circulação.
Com o declínio desse ciclo econômico, a propriedade foi vendida ao Governo do Estado do Paraná, já na década de 1960, quando o setor madeireiro perdia centralidade. A área passou, então, a integrar o patrimônio do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), órgão hoje incorporado ao Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná). O casarão continuou sendo usado como moradia até 1970, quando deixou de cumprir essa função cotidiana e passou a ser visto, cada vez mais, como um bem de valor histórico e arquitetônico.
Esse reconhecimento se formalizou em 30 de julho de 1990, quando a construção foi tombada como Patrimônio Histórico do Estado do Paraná, por meio da inscrição Tombo 102-II, no processo nº 06/90. O tombamento consolidou o entendimento de que o imóvel não é apenas uma memória local, mas parte do acervo histórico do Estado.
Do ponto de vista arquitetônico, o casarão se destaca justamente por fugir ao padrão predominante das residências erguidas no Paraná naquele tempo. Com cerca de 400 a 500 metros quadrados de área construída, a casa possui dois pavimentos, sótão, porão e, aproximadamente, 40 cômodos, distribuídos entre quartos, salas e outros ambientes internos. A construção foi inteiramente feita em madeira, utilizando espécies nobres como carvalho, pinheiro e imbuia.
Sua inspiração remete às mansões anglo-americanas dos séculos XVIII e XIX, o que pode ser observado em elementos como os bow-windows (uma janela saliente curva, composta por quatro ou mais painéis de vidro formando um semicírculo que se projeta para fora da fachada), os pórticos de entrada e a composição das paredes, formadas por estrutura embutida com tabuado estreito disposto horizontalmente. Internamente, a casa preserva marcas de refinamento construtivo, como pisos em parquet, escadaria profunda em imbuia e paredes duplas montadas por encaixe, sem uso de pregos, característica que ajuda a explicar o fascínio histórico que o imóvel desperta até hoje.

Foto: Esther Kremer
Outro aspecto que contribui para o valor simbólico do espaço é a presença de afrescos em diferentes pontos da construção, recurso raro em edifícios residenciais desse tipo na região. Também os jardins integravam a imponência do conjunto. Segundo registros históricos, eles teriam sido projetados pelo paisagista italiano Giotto, o mesmo responsável pelos jardins do Passeio Público de Curitiba, o que amplia ainda mais a singularidade do imóvel.
Inserido em meio à área da Floresta Nacional de Irati, o casarão carrega, assim, várias camadas de significado. Ele é, ao mesmo tempo, memória de uma família influente, vestígio do poder econômico da madeira, exemplar arquitetônico incomum no interior do Paraná e marco da ocupação histórica regional.
Ao longo do tempo, a antiga residência passou a concentrar também o simbolismo de uma paisagem que ajuda a explicar a formação econômica e social de Irati e de seu entorno. Sua permanência física, apesar do desgaste do tempo, permite que possamos entender um passado, economia, os modos de vida e até mesmo a política da época. Por hora, o palácio segue como um sinônimo de abandona, porém, não deve continuar assim por muito tempo.
TRATATIVAS SOBRE O FUTURO DO CASARÃO
No mês de junho, a Prefeitura de Irati recebeu o presidente do IDR (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná), Altair Sebastião Dorigo, além da empresa responsável pelo projeto de restauração do palácio.
Nesta primeira etapa, a prioridade será a recuperação da fundação e a execução das obras de escoramento, consideradas fundamentais para assegurar a estabilidade e a segurança do casarão. Durante a reunião, ficou definido que será preparada a documentação para o lançamento do edital voltado especificamente à obra de escoramento, que ficará sob responsabilidade do IDR.
Na sequência, conforme informado, deverá ser lançado um novo edital para a elaboração e execução do projeto completo de restauração do imóvel. Há anos o processo de restauro mobiliza preocupação por seu valor histórico e pela necessidade de conservação.
Emiliano Gomes, prefeito de Irati, destacou que o município segue buscando cooperação e apoio em diferentes frentes para garantir a preservação do Casarão do Iapar. “Seguimos buscando cooperação e apoio em todas as frentes para garantir a preservação deste importante patrimônio histórico, tombado pelo Estado e de grande relevância para a história de Irati e do Paraná”.