Talita Ludvichak
Os brasileiros estão vivendo mais, porém também passam mais tempo convivendo com doenças, limitações ou incapacidades. É o que revela um estudo publicado na revista científica The Lancet Public Health, com base nos dados do Global Burden of Disease 2023, que analisou a situação de saúde em 204 países e territórios. Segundo o levantamento, a população brasileira vive, em média, 12,5 anos com algum problema de saúde, colocando o país na 16ª posição entre as nações com maior tempo de vida em condições não saudáveis.
O estudo mostra que a chamada “lacuna de morbidade” — diferença entre a expectativa total de vida e a expectativa de vida saudável — aumentou significativamente nas últimas décadas. Em 1990, os brasileiros conviviam, em média, com 10,4 anos de doenças. Em 2023, esse período passou para 12,5 anos, um crescimento de 20%. Apesar da expectativa de vida no país ter alcançado cerca de 76 anos, os pesquisadores destacam que o ganho em longevidade não foi acompanhado, na mesma proporção, por mais anos vividos com saúde e autonomia.
A pesquisa aponta que fatores como o envelhecimento da população e o aumento das doenças crônicas contribuem para esse cenário. Entre as principais condições responsáveis pela perda da qualidade de vida em nível mundial estão os distúrbios musculoesqueléticos, como dores lombares, transtornos mentais, incluindo ansiedade e depressão, doenças relacionadas à perda da visão e da audição, lesões decorrentes de quedas e outras doenças não transmissíveis. Já entre os principais fatores de risco aparecem a glicemia elevada, excesso de peso, obesidade, tabagismo e problemas relacionados à nutrição.
Segundo o endocrinologista Clayton Macedo, ouvido pelo estudo, o desafio atual da medicina vai além de aumentar a expectativa de vida. Para o especialista, o objetivo deve ser garantir que as pessoas vivam mais tempo com qualidade, independência e capacidade funcional, reduzindo os impactos das doenças crônicas ao longo da vida.
Os autores defendem que os resultados reforçam a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à prevenção de doenças, promoção da saúde, reabilitação e cuidados de longo prazo. O estudo também destaca que, embora as mulheres vivam mais do que os homens, elas passam mais anos convivendo com problemas de saúde, evidenciando a importância de estratégias específicas para melhorar a qualidade de vida da população em todas as fases do envelhecimento.