O fisiculturismo, esporte que registrou expansão comercial na última década com patrocínios que se assemelham aos de jogadores de futebol, exige um regime de preparação que transcende a musculação convencional. Em Irati, a atleta Herika Monik Vogt e o seu treinador Vitor Gonçalves de Souza detalham o planejamento para a estreia na MuscleContest, em Londrina, no dia 29 de março, competição de nível nacional que serve como porta de entrada para o circuito profissional.
Diferente de modalidades coletivas com horários fixos de treino, o fisiculturismo é definido por seus praticantes como um esporte de 24 horas. A preparação é dividida em fases biológicas distintas: o bulking, focado no ganho de volume muscular com superávit calórico, e o cutting, estágio atual da atleta, onde a restrição severa de alimentos e água visa reduzir o percentual de gordura ao limite para evidenciar a musculatura.

“Neste ano, completam quatro anos que eu treino. E com uns dois anos de treino, mais ou menos, algumas pessoas que eu conhecia comentavam sobre eu competir, ser atleta. Mas eu nunca tinha pensado. Então comecei a pesquisar sobre e entender como funcionava esse esporte. Tanto que, na época, eu não imaginava o quão difícil era ser uma atleta fisiculturista. Hoje eu estou sentindo na pele como é”, revela Herika.
Foto: Esther Kremer
A competição é descrita tecnicamente como um desfile de proporções. Os árbitros avaliam pilares como definição, volume, proporção e simetria. Segundo o treinador Vitor Gonçalves, que também já participou de competições de fisiculturismo, descreve o objetivo do esporte como um verdadeiro desfile, onde os pilares descritos acima devem ser seguidos à risca, mostrando o físico esperado para determinada categoria.
As poses, realizadas sobre saltos de 12 centímetros em algumas categorias femininas, são apontadas como um dos elementos mais extenuantes do processo. “O treino de pose exige mais esforço da coluna e da lombar do que a própria musculação e é realizado sob um cansaço extremo”, explica Herika. O físico apresentado no “dia D” é temporário, descrito como “mais agressivo” é resultado de uma manipulação hídrica na chamada Peak Week (semana final), onde a ingestão de água pode saltar de quatro para nove litros diários, sendo reduzida drasticamente na véspera do evento para “colar” a pele ao músculo, podendo ser ingeridas apenas 500ml de água no dia.
O Papel dos Hormônios e a Saúde Feminina
Um dos pontos mais polêmicos na sociedade envolvendo o fisiculturismo, é o da preparação para competições de alto nível com o uso de substâncias hormonais. Porém, a atleta e o treinador conseguem explicar com clareza e muito cuidado sobre esse processo. Herika se enquadra na categoria de atleta “hormonizada”. O treinador justifica a estratégia como uma ferramenta de manutenção: em estados de déficit calórico agressivo, o corpo tende a consumir a própria musculatura. O hormônio atua para segurar o tecido muscular e manter a força mínima para os treinos. Porém, Herika realiza acompanhamento em relação ao uso, tudo para assegurar sua saúde.
“A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. A dose que uso é mínima, o pessoal fala bastante sobre os efeitos colaterais, espinha, queda de cabelo. Não senti nada, pois é uma dose controlada e bem colocada, com acompanhamento”, pontua Herika.
Foto: arquivo pessoal

Segundo o Vitor, varia de pessoa para pessoa o uso de hormônios, porém, quando feito a escolha por profissionais e em dosagem correta para o corpo, e para fins corretos, é possível ser um aliado nas competições. Visto que em mulheres o monitoramento deve ser rigoroso para evitar efeitos colaterais irreversíveis, como o engrossamento das cordas vocais, queda de cabelo e alterações dermatológicas. “O hormônio é um negócio que não é brincadeira. Então foi muito pensado para manter a feminilidade dela e trazer os resultados que a gente precisa”, explica.
Logística de Categorias e Viabilidade Financeira

Herika estreará na categoria Bikini, que exige um físico mais slim e atlético. No entanto, o plano de carreira da atleta já prevê a migração para a categoria Wellness, modalidade onde o Brasil é referência e que valoriza o volume de membros inferiores (coxas e glúteos). Para se adequar à categoria atual, a atleta precisou reduzir a intensidade dos treinos de perna, visando não exceder o volume permitido.
Foto: arquivo pessoal
Com a proximidade do campeonato, o corpo entra em modo de economia de energia, afetando tarefas simples do cotidiano. O treinador Vitor reforça que o preparo mental é o que define o vencedor. “A pessoa está há meses passando fome e treinando todo dia para ficar minutos no palco. É preciso amar o processo, não apenas o troféu”, conclui.
“Eu já estou comendo arroz três vezes na semana só, cerca de 100 gramas. Apenas na hora do almoço. O restante é só mamão, legumes, salada e carne. Então, a gente fica um pouco mais debilitado, os treinos já não rendem a mesma coisa. E acaba que a questão psicológica pega mais, começa a pensar ‘poxa, se eu estou com essa preguiça, se eu estou com esse cansaço, não estou rendendo nos treinos’, você começa a achar que seu físico está caindo. Mas, na verdade, não. É parte do processo”, explica Herika.
Além do desgaste físico e psicológico, que inclui episódios de pressão baixa e fraqueza constante, o fisiculturismo apresenta um alto custo financeiro. Os biquínis de competição, confeccionados artesanalmente com pedrarias, podem custar entre R$ 800 e R$ 3.000. Somam-se a isso os custos com inscrições, suplementação manipulada, alimentação específica e serviços de estética. Atualmente, a atleta conta com apoio de parceiros para arcar com a estrutura necessária para o circuito nacional.
Ao finalizar, a atleta agradece aos apoiadores e a todos que estão acompanhando a trajetória. “Todos os dias eu recebo mensagem no meu Instagram das mulheres falando que se inspiram em mim, dizendo ‘fico muito feliz com a sua evolução, com o seu desenvolvimento’. Então essas pessoas, indiretamente, elas me ajudam a me manter constante e eu quero agradecer a elas também. Agradeço a todos que estão fazendo parte dessa evolução junto comigo”.
Foto: arquivo pessoal

O treinador Vitor, também fez um agradecimento. “Tem as críticas, como sempre vai ter, independente do que aconteça, tem pessoas que torcem muito pela gente. E não paramos por aqui, a gente vai trazer muita coisa ainda. E vamos tentar trazer os troféus para casa”, brinca.