Esther Kremer
Falar da história econômica de Irati sem mencionar a Associação Comercial e Empresarial de Irati (ACIAI) é deixar de lado uma das estruturas mais permanentes e influentes da vida pública e empresarial do município. Ao completar 80 anos, a entidade se apresenta não apenas como representante formal do comércio, da indústria e dos serviços, mas como uma instituição que, ao longo de décadas, ajudou a organizar o empresariado, pressionar por melhorias, construir pontes com o poder público e participar diretamente de projetos que alteraram o rumo do desenvolvimento local.
Fundada em 1946, a ACIAI surgiu em um momento em que a economia iratiense ainda se estruturava em torno da agricultura, do comércio tradicional, da rede ferroviária e, especialmente, do setor madeireiro. Desde então, sua atuação acompanhou e, em muitos momentos, antecipou as transformações do município. A trajetória da entidade mostra que sua importância nunca esteve restrita à defesa abstrata dos empresários. Ao contrário, a ACIAI foi se consolidando como elo entre o setor produtivo, o poder público e a comunidade, influenciando desde políticas locais até debates regionais e estaduais.

“Desde a sua fundação, a ACIAI tem como missão fortalecer o associativismo. Cada empresário, comerciante e profissional que fez parte dessa trajetória ajudou a construir uma entidade sólida, respeitada e preparada para os desafios do presente e do futuro. É uma honra poder fazer parte dessa história também”, comenta a atual presidente da ACIAI, Samara Coelho.
RELATOS QUE CONTAM A HISTÓRIA
Um dos aspectos mais reveladores dessa história é a capacidade da Associação de sobreviver a períodos difíceis e a reativação da entidade em 1982 foi um desses momentos. Sob a presidência de Enezito Ruppel, a ACIAI saiu de um período de inatividade e retomou seu papel de voz organizada do empresariado. “Não havia a estrutura atual, nem os serviços modernos de hoje, mas havia vontade política e compreensão de que comerciantes isolados tinham pouca força, enquanto unidos em torno de uma Associação passavam a ter peso político, institucional e até judicial”, explica o ex-presidente.
Naquele contexto, a diretoria precisou recadastrar associados, reorganizar a casa, retomar assembleias e convencer o comércio local de que o associativismo era a única resposta viável diante das dificuldades da época. A semente plantada ali foi decisiva para tudo o que viria depois.
Se Enezito representa a retomada, Elias Mansur simboliza a expansão e a maturidade institucional. Poucos nomes se confundem tanto com a história da ACIAI quanto o dele. Com seis mandatos à frente da entidade, Elias ajudou a transformar uma Associação pequena, com cerca de 20 ou 30 sócios, em uma força regional com mais de 500 empresas filiadas. Sua gestão deu personalidade política à entidade, tirando-a da posição de mero balcão de serviços e fazendo dela uma interlocutora respeitada em Irati e no Paraná. Foi sob sua atuação que a Associação ampliou a representatividade, participou da reabertura de outras entidades pelo Estado e ajudou a consolidar a Faciap como federação politicamente relevante.
A importância de Elias Mansur está também no modo como ele compreendeu e consolidou o associativismo, não como formalidade, mas como ferramenta para gerar resultado concreto no bolso do empresário e na estrutura da cidade. “Muitos não sabiam nem que tínhamos o SPC, a Fomento Paraná ou o Sebrae. Fizemos uma grande transformação para as pessoas conhecerem mais a ACIAI e deu certo. Hoje a ACIAI é uma potência, são 80 anos de muita história, nós fizemos muito pelo desenvolvimento e tudo valeu a pena”, comenta.
Essa mesma lógica reaparece na gestão de Oscar Muchau, presidente entre 2016 e 2018. Sob seu comando, a ACIAI consolidou uma das parcerias mais estratégicas da sua história recente com a Fomento Paraná, tornando-se a primeira Associação Comercial do Estado a trazer a agência de fomento para o interior, criando uma ponte direta de crédito com juros reduzidos para os associados.
Muchau também foi uma peça central na articulação do projeto de revitalização do centro de Irati, enquanto diretor da entidade, defendendo uma proposta arquitetônica custeada pela própria ACIAI e garantindo, por articulação política, repasse estadual para execução das melhorias que redefiniram o aspecto visual da cidade. Além disso participou diretamente das articulações em Brasília para tirar do papel a pavimentação da estrada Irati–São Mateus, uma demanda histórica da região. “Foi marcante, os trâmites começaram naquela viagem e hoje a estrada é uma realidade que integra nossa região”.
Mais recentemente, a gestão de Renato Hora, no biênio 2023-2024, introduziu um novo tipo de protagonismo: o de reposicionar a ACIAI como espaço de conteúdo, debate e aproximação institucional. Seu mandato ficou marcado, dentre tantas ações, pela criação do Café da ACIAI, evento que rapidamente deixou de ser apenas um encontro social para se tornar ferramenta diplomática e estratégica de diálogo entre empresários e autoridades dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Também foi na sua gestão que nasceu o 1º Congresso Empresarial, reunindo centenas de participantes em torno da ideia de que a Associação deve ser farol de atualização, orientação e conhecimento em um cenário de rápidas mudanças econômicas. Para Renato, a ACIAI exerce papel fundamental em dar direção aos empresários e representá-los com força, e os projetos buscaram exatamente isso: transformar a entidade em polo de informação, liderança e articulação institucional. “A Associação Comercial exerce um papel fundamental em dar direção aos empresários e representá-los com força, seja na esfera extrajudicial ou judicial. Esse espírito associativo é o que nos permite avançar”, comenta Hora.

Essas gestões, embora diferentes entre si, se conectam por uma mesma linha mestra: a defesa do associativismo como instrumento de desenvolvimento. Essa ideia aparece com clareza nos eventos realizados, nos cursos, nos workshops e tantas outras iniciativas.
IMPORTÂNCIA NO DESENVOVLIMENTO DE IRATI
A ACIAI é hoje a sexta Associação Comercial mais antiga do Paraná entre as filiadas à Faciap e sua força não está apenas no discurso, mas nas ações concretas. A entidade se consolidou como representante de centenas de empresas, mas também como articuladora de parcerias capazes de mudar o ambiente de negócios local. Exemplo disso é a atuação conjunta com a Fomento Paraná, o Escritório de Compras Públicas mantido com o município e o Sebrae, o Ponto de Atendimento ao Empreendedor instalado oficialmente em 2014 na sede da Associação, e a parceria com FIEP e IEL para conectar setor produtivo e meio acadêmico.
A ACIAI conta, ao todo, com 22 presidentes, sendo: Samara Coelho; Renato Hora; Elias Mansur; Oscar Muchau; Marcielo Mazzochin; Rogério Luis Kuhn; Maria Fátima Jenczmionki; Sérgio Luis Volski; Airton Trento; José Tadeu Jenczmionki; Rodrigo Hilgemberg; Ademar Chami; Ludovico Fritz Carlos Koch; Enezito Ruppel; José Andra-de Leite; Jorge Luiz Malucelli; Julio Wasilewski; Julio Domingos Marchiori; Francisco Pintal; Virgílio Moreira.

Ao olhar a evolução das empresas de Irati, a própria ACIAI identifica uma longa transformação de um comércio marcado pela gestão familiar, pouca formalização e comunicação boca a boca nas décadas de 1940, para a profissionalização entre os anos 1980 e 2000, com sistemas de gestão, crédito, publicidade e campanhas coletivas, até chegar ao presente, em que o empresariado local já opera em um ambiente conectado, com vendas multicanais, marketing digital, certificação digital e gestão orientada por dados.
Em todos esses ciclos, a Associação esteve presente como suporte e ponto de apoio para as mudanças. Hoje são mais de 500 CNPJs ligados à entidade, mas o impacto vai muito além dos números, pois são milhares de CPFs, entre empresários, colaboradores, parceiros e consumidores, atravessados pelo ambiente que a ACIAI ajudou a construir.
A Associação não ajudou apenas empresas, ajudou a moldar relações econômicas e sociais em Irati. A atração de investimentos, o fortalecimento do crédito e a participação em projetos de ensino e inovação, mostram que o papel da ACIAI extrapola a defesa corporativa clássica. Não à toa, colaborou na criação de outras Associações Comerciais da região, ajudou a articular a Cacesul como coordenadoria regional do associativismo e participou de movimentos que fortaleceram a economia para além dos limites do município.
Há, evidentemente, um componente humano decisivo nessa história, onde todos destacam que nenhuma gestão se fez sozinha. É registrado e notório a relevância da diretoria, do conselho superior e do corpo técnico da entidade, especialmente da continuidade administrativa garantida por profissionais que conhecem profundamente a casa e permitem que ela funcione com precisão ao longo dos anos. “Esse elemento ajuda a entender por que a ACIAI conseguiu atravessar tantas fases distintas sem perder identidade. A Associação funciona como apoio aos empreendedores e à cidade, isso não é atual, isso passa por diferentes gerações ao longo desses anos. Esse é um grande legado da entidade”, comenta Samara.
Aos 80 anos, a ACIAI pode ser lida, portanto, como um espelho do próprio desenvolvimento de Irati. “Quando a cidade precisou reorganizar o empresariado, a entidade esteve presente. Quando foi necessário buscar crédito, articular obras, atrair investimentos, qualificar o debate público e profissionalizar o ambiente de negócios, a Associação também esteve lá. E quando o mercado passou a exigir inovação, conhecimento e presença institucional mais sofisticada, a ACIAI também se adaptou. Então, isso mostra que o associativismo, quando levado a sério, gera resultado e serve como instrumento de defesa e de avanço”, comenta a atual presidente.

ALGUNS GRANDES MARCOS
A própria linha do tempo da Associação demonstra isso com clareza: ao longo dos anos, a entidade participou de mobilizações por infraestrutura, pela criação de condomínios industriais, pela atração de grandes empresas, por soluções urbanas e pelo fortalecimento do ambiente institucional de Irati.
Entre os marcos registrados estão a declaração de utilidade pública municipal em 1948, a reativação da entidade em 1982, a mobilização pela criação do Condomínio Industrial na BR-277 em 1992, a participação na comitiva que visitou a Siemens (hoje Yazaki) em 1997, a inauguração da sede própria em 2006, a criação da Cacesul em 2007, a participação na criação da Fundação Educacional de Irati (hoje Faculdade São Vicente) em 2008, a inauguração do Observatório Social em 2013, a construção do Portal de Irati em 2014, o movimento pela estrada Irati–São Mateus em 2015, a constituição do Comitê Territorial Terra dos Pinheirais em 2017, o projeto de revitalização das ruas centrais em 2018, o lançamento do Café da ACIAI em 2023, o Congresso Empresarial em 2024 e a adesão ao Ecossistema Local de Inovação em 2025.

Em 2026, a secretária executiva Simone dos Anjos completa 32 anos de trabalho na ACIAI, se tornando um dos nomes mais importantes da trajetória recente da entidade. Mais do que colaboradora, Simone é vista e lembrada por diferentes presidentes como uma das pessoas que ajudaram a fazer a Associação crescer com segurança, seriedade e eficiência.
Sua história na ACIAI começou ainda na gestão de Elias Mansur, em funções simples do cotidiano, como o serviço de xerox, atividade que durante muito tempo fez parte da rotina da entidade. A partir desse início, Simone construiu uma trajetória marcada por aprendizado constante. Ao longo dessa trajetória, não apenas acompanhou a evolução da entidade, mas participou ativamente dela. Presente em diferentes gestões, ela se tornou um ponto de equilíbrio entre as transições de presidência, ajudando a preservar a memória institucional da ACIAI e garantindo que os projetos tivessem continuidade.
Mas o papel de Simone vai além da organização administrativa. Sua atuação também ajudou a manter vivo o espírito do associativismo, fortalecendo o vínculo entre a ACIAI, os associados e a comunidade empresarial de Irati. Em uma entidade construída pela união de esforços, sua dedicação diária representa a força silenciosa que faz as ações acontecerem, os serviços funcionarem e a história continuar sendo escrita como foi até hoje.