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Foto: Reprodução

por Orlando Luiz Azevedo

Terminava o ano de 1951. O pequeno rádio Philips inundava a casa com o maravilhoso som das músicas natalinas.

Muita coisa de especial havia acontecido naquele ano e meu coração transbordava de alegria.

O término do meu primeiro ano escolar no Grupo, novos amigos e a chegada das férias. Ter escapado de um grave acidente, quando um carro de praça quase me atropelou e uma fase da nossa vida, de tantos altos e baixos, com um pouquinho menos de aperto nas contas.

Minha mãe se esmerava na limpeza da casa – cortinas lavadas esvoaçavam, vidraças lavadas e o assoalhado encerado espalhava pela casa um perfume agradável.

– “Não entrem com os pés cheios de barro”. Alertava minha mãe, após a faxina.

Os dias que antecediam o Natal tinham o aroma das flores da árvore Eugênia, plantada no terreiro de casa. Suas pétalas brancas cobriam o chão parecendo uma camada de neve.

A expectativa de ir buscar o pinheirinho no “mato” animava a piazada e logo estávamos encarapitados na carroceria do caminhão do meu pai, rumo ao nosso destino: achar o mais lindo pinheirinho!

– “Olha aquele lá, está bonitinho!”

– “Não dá, não tem copa…”

E percorríamos a estrada poeirenta até encontrar a árvore perfeita e trazê-la para o nosso Natal.

Dá saudade até das espinhadas que a gente levava ao tentar carregar o pinheiro.

Fixado numa lata vazia de banha, com terra, bem socada, ali estava o nosso pinheiro instalado na nossa sala, aguardando para ser enfeitado.

Havia uma pessoa que sabia fazer isso como ninguém: minha Tia Rosa. Sua arte em ornamentar o pinheirinho era única. E as crianças aguardavam ansiosas a sua chegada para iniciar com os enfeites.

Bolas coloridas, castiçais com velinhas, algodão imitando neve, fios prateados iam sendo colocados pelas suas delicadas mãos formando a mais linda obra de arte aos nossos olhos.

Como um dos últimos detalhes era armado o pequeno presépio de papelão, com musgo de árvore, imitando grama e um pequeno lago, feito com um espelhinho, onde carneiros pareciam estar bebendo água.

Tudo pronto e a tarde se esticava preguiçosamente não querendo deixar entrar a noite em que íamos ganhar os presentes.

Se acreditávamos em Papai Noel, ou não, pouco interessava. A magia do Natal estava presente, na família reunida, na cerveja caseira, na carne assada e nas tradicionais músicas natalinas.

Era chegada a tão esperada hora de rezar no pinheirinho, enquanto, aproveitando uma janela propositalmente deixada aberta, o Velhinho do Natal entraria para deixar os presentes na cama de cada criança.

Um Pai Nosso, uma Ave-Maria e os ouvidos atentos para algum ruído que podia indicar a chegada do Bom Velhinho.

Terminada a reza, ao consentimento dos pais, corríamos para os nossos quartos e encontrávamos os pacotes com os presentes tão sonhados.

Papéis eram rasgados e a expectativa de saber se fomos atendidos tinha tudo a ver com o nosso comportamento.

Carrinhos, revólveres de espoleta e bonecas municiavam agora as brincadeiras de dois irmãos e uma irmãzinha até altas horas dessa linda noite de Natal.

Após uma noite encantada de sonhos de criança, a chamada da minha mãe ao amanhecer:

– “Levantem criançada que está quase na hora da missa. Tem que agradecer pelos presentes!”

Estamos nos dirigindo à Igreja de São Miguel, para Missa de Natal.

Ao passar rente ao muro do Colégio N.S. das Graças, com a sua grade entrelaçada de era,

peço ao meu pai:

– “Pai, posso pegar uma folhinha?”

Ele me pega no colo e eu arranco uma folhinha e a guardo no bolso. Era um costume fazer isso cada vez que passava por ali.

Continuamos nossa caminhada pela rua ainda sem calçamento, sulcada pelas rodas das carroças que chegavam do interior.

No pátio da Igreja, lotado de carroças, algumas cobertas de folhas de palmeira, relincham os cavalos, descansando da pequena viagem.

Entramos na Igreja, perfumada pelo incenso fumegante. Respeitando a tradição, homens se dirigem para o lado esquerdo e as mulheres se cobrindo com seus véus negros ou brancos, se acomodam nos bancos do lado direito.

Olho para minha mãe, ainda colocando sua fita encarnada do Sagrado Coração, iniciando suas preces.

A Igreja resplandece pelo clima de Natal, com dois lindos pinheiros enfeitados no altar, trazidos pelos colonos, como era tradição dos paroquianos.

O padre com sua voz grave inicia a missa em Latim dizendo:

– “In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti”.

Cantos natalinos, um olhar pausado sobre o presépio, lembrando a figura do Menino-Deus que veio ao mundo para espalhar o amor e a missa termina com os fiéis se cumprimentando desejando um Feliz Natal.

Passo hoje pela mesma rua, tudo tão diferente! Apenas a grade ferro permanece fixada ao muro do Colégio.

Ela é a guardiã das minhas lembranças;

É a magia do Natal!

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