Talita Ludvichak
Há 158 anos, uma descoberta feita durante um eclipse solar revelou aos cientistas a existência de um elemento que, naquele momento, sequer havia sido encontrado na Terra. Em 18 de agosto de 1868, ao analisar a luz emitida pela atmosfera do Sol, o astrônomo francês Jules Janssen identificou uma linha espectral amarela que não correspondia a nenhum elemento conhecido. A observação seria posteriormente confirmada por outros pesquisadores, entre eles o astrônomo britânico Norman Lockyer, dando origem à história do hélio.
O episódio marcou uma situação incomum na história da química: o hélio foi identificado primeiro no espaço e somente décadas depois confirmado na Terra. Hoje, 18 de agosto de 2026, são 158 anos desde aquela observação que começou com um eclipse e terminou colocando um dos elementos mais leves da tabela periódica entre os recursos importantes para a ciência e a medicina.
Na segunda metade do século XIX, os cientistas já utilizavam a espectroscopia para investigar a composição dos astros. A técnica permite decompor a luz em diferentes comprimentos de onda, produzindo linhas que funcionam como uma espécie de “impressão digital” dos elementos químicos. Foi utilizando esse princípio que Janssen observou, durante o eclipse solar de 1868, uma linha amarela até então desconhecida no espectro da luz solar. Norman Lockyer observou a mesma assinatura e concluiu que ela deveria estar relacionada a um elemento ainda não identificado na Terra. O nome escolhido foi hélio, derivado de Helios, a palavra grega associada ao Sol. Durante anos, o elemento permaneceu como uma espécie de “morador do Sol” para a ciência. Somente em 1895 pesquisadores conseguiram confirmar sua presença em um mineral terrestre. O químico William Ramsay detectou o gás associado a um mineral de urânio, enquanto Per Teodor Cleve e Nils Abraham Langer também trabalharam na confirmação e determinação de suas características.

Mas afinal, o que é o hélio?
O hélio é um elemento químico representado pelo símbolo He e de número atômico 2. É um dos chamados gases nobres, grupo conhecido por sua baixa reatividade química. Em condições normais, apresenta-se como um gás incolor, inodoro e não inflamável. Sua baixa densidade explica algumas de suas aplicações mais conhecidas, como o uso em balões e dirigíveis. Porém, reduzir o hélio à imagem de um gás que faz balões flutuarem é ignorar uma série de propriedades físicas que fazem dele um material de grande interesse científico. Uma das características mais importantes está justamente em seu comportamento em temperaturas extremamente baixas. É essa propriedade que abre caminho para uma de suas aplicações mais relevantes na área da saúde.
Do espaço para os hospitais: onde entra o hélio na medicina?
Ao longo dos anos, pesquisadores descobriram que as características físicas do hélio poderiam ser aproveitadas em diferentes áreas da medicina. Uma das aplicações mais importantes está relacionada à ressonância magnética. Equipamentos desse tipo utilizam ímãs supercondutores que precisam ser mantidos em temperaturas extremamente baixas para funcionar adequadamente. O hélio, na forma líquida, é utilizado como refrigerante criogênico nesses sistemas, ajudando a manter as condições necessárias para que o ímã produza um campo magnético intenso e estável. Na prática, isso significa que um elemento descoberto pela observação da luz solar há mais de um século e meio também está associado ao funcionamento de uma tecnologia utilizada diariamente para produzir imagens detalhadas do interior do corpo humano. A aplicação não é pequena. Dados do U.S. Geological Survey indicam que, nos Estados Unidos, a ressonância magnética respondeu por cerca de 15% do uso de hélio em 2025, mostrando a relevância do elemento para essa área tecnológica.
Um gás que também pode ajudar na respiração
Outra frente de utilização médica está relacionada ao chamado Heliox, uma mistura de hélio e oxigênio. A explicação está na baixa densidade do hélio. Quando utilizado em uma mistura adequada com oxigênio, o gás pode reduzir a resistência à passagem do ar por determinadas regiões estreitadas das vias respiratórias. Com isso, em situações clínicas específicas, o Heliox pode diminuir o esforço necessário para respirar. Estudos médicos já investigaram sua utilização em situações como obstruções das vias aéreas, asma, exacerbações da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), crupe, bronquiolite e alguns quadros de insuficiência respiratória. O mecanismo é relativamente simples de compreender: como o hélio é muito menos denso que o ar, a passagem da mistura pelas vias respiratórias pode gerar menos turbulência e reduzir o trabalho respiratório em determinadas condições. Isso, porém, não significa que o Heliox seja um tratamento universal ou substitua as terapias convencionais. As evidências variam de acordo com a doença e a situação clínica. Revisões científicas apontam benefícios fisiológicos em alguns cenários, mas também destacam limitações nas evidências e a necessidade de avaliação médica individualizada.
E as outras possibilidades na medicina?
O interesse científico pelo hélio não termina na ressonância magnética e no uso respiratório. Pesquisas também investigam possíveis aplicações do elemento em áreas como proteção de tecidos contra danos provocados pela falta e posterior retorno do fluxo sanguíneo, proteção neurológica, procedimentos cirúrgicos e novas técnicas de imagem. Entretanto, existe uma diferença importante entre uma aplicação já estabelecida e uma possibilidade ainda estudada. Algumas dessas linhas de pesquisa permanecem predominantemente experimentais e ainda não representam tratamentos médicos de uso rotineiro. Uma revisão recente sobre o uso clínico do Heliox, por exemplo, aponta que as aplicações respiratórias são as que possuem maior consolidação clínica, enquanto os estudos envolvendo sistemas nervoso, circulatório e imunológico ainda estão, em grande parte, no campo experimental.
Muito além da medicina
A importância do hélio também pode ser percebida fora dos hospitais. O elemento é empregado em pesquisa científica, laboratórios, fibra óptica, fabricação de semicondutores, indústria aeroespacial, soldagem, mergulho, detecção de vazamentos e como gás de elevação em balões e dirigíveis. Dados mais recentes do U.S. Geological Survey mostram justamente essa diversidade: em 2025, nos Estados Unidos, o hélio foi utilizado em aplicações analíticas, de engenharia, laboratoriais e gases especiais; atmosferas controladas, fibra óptica e semicondutores; gás de elevação; ressonância magnética; setor aeroespacial; soldagem; mergulho e detecção de vazamentos.
Um elemento abundante no Universo, mas limitado na Terra
Existe ainda um paradoxo envolvendo o hélio. Ele é extremamente abundante no Universo, mas sua disponibilidade na Terra é limitada. O gás é produzido naturalmente em processos geológicos associados à desintegração radioativa e pode se acumular em determinadas formações subterrâneas. Por ser muito leve e pouco reativo, entretanto, o hélio que chega à atmosfera tende a escapar para o espaço. Isso faz com que o hélio disponível para uso comercial seja um recurso que exige extração, processamento e, cada vez mais, estratégias de conservação. A própria comunidade científica tem buscado formas de recuperar e reciclar o hélio, especialmente em equipamentos que utilizam grandes quantidades do gás, como instalações de pesquisa e sistemas de ressonância magnética. A escassez e a necessidade de reciclagem aparecem atualmente como desafios importantes para ampliar o uso do elemento no futuro.
158 anos depois, a descoberta continua presente
Em 1868, a descoberta do hélio parecia pertencer principalmente ao campo da astronomia. Um cientista observou uma linha desconhecida na luz do Sol e abriu caminho para a identificação de um novo elemento. Hoje, 158 anos depois, a história ganhou outra dimensão. O mesmo elemento que ajudou os cientistas a compreender melhor a composição do Sol está relacionado a equipamentos capazes de produzir imagens do corpo humano, pode ser utilizado em situações respiratórias específicas e participa de processos industriais, científicos e tecnológicos que estão muito distantes daquela observação realizada durante um eclipse. A trajetória do hélio mostra como uma descoberta científica pode atravessar gerações e ganhar novas funções conforme o conhecimento avança. Do espectro solar de 1868 aos equipamentos médicos e laboratórios do século XXI, o hélio permanece como um exemplo de como a ciência transforma uma simples descoberta em novas possibilidades para compreender, pesquisar e cuidar da vida.
Pesquisa e produção: Esta reportagem foi produzida pela Folha de Irati, a partir de pesquisa e consulta a diferentes fontes científicas e veículos especializados, com informações sobre a história, as propriedades, as aplicações médicas e os usos tecnológicos do hélio.