Leticia H. Pabis
O Dia Internacional da Mulher (8 de março) é uma data marcada não apenas por homenagens, mas por um simbolismo profundo de resistência, conquistas e luta por direitos. Neste ano de 2025, o Jornal Folha de Irati traz histórias de determinação e superação, que mostram que não há limites para onde as mulheres podem chegar.
Na região da Amcespar, Iasmin, Maressa, Thaysa, Alinne, Ana Luiza, Carolina, Ghessi e Luciane compartilham suas trajetórias, provando que é possível conciliar desafios e sonhos, enfrentando estereótipos e construindo carreiras de sucesso em áreas diversas.
SUSTENTO E RESISTÊNCIA NA RECICLAGEM
Para Luciane Malinoski, a reciclagem não é apenas um trabalho: é uma missão de vida. Sua história começou em um momento de dificuldades financeiras, quando sua família passou a separar materiais recicláveis para sobreviver. O começo foi duro, especialmente quando a Prefeitura proibiu a reciclagem em casa. “O pai sempre dizia “fia, não desista. Fia, não desista”, relembra.
A oportunidade veio quando foi chamada pela Prefeitura para estruturar uma associação de reciclagem. O caminho, porém, foi cheio de desafios. “Eu aluguei o barracão, daí eles [a Prefeitura] começaram a levar [o lixo], daí a gente foi conquistando. E o pai sempre ali me dando força. Quando eu pensava em desistir, o pai me dava força. E fomos lutando”, afirma.
Hoje, à frente de uma cooperativa que sustenta diversas famílias, Luciane enfrenta dificuldades diárias. “O trabalho nosso aqui, de toda essa mulherada e da piazada, é nós recebermos o material que a Eco-Vale faz a coleta de reciclado, triar e fazer o nosso salário. Então nós dependemos da triagem nossa para cada um receber. Quanto mais a população separar, mais vai ficar melhor para nós, mais o trabalho nosso rende”, explica.
Apesar disso, ela segue firme. “Trabalhar com reciclado não é fácil. Muitas pessoas acham que, como eu costumo dizer, eles acham que o reciclado fabrica ouro, mas não. Se toda a população soubesse o quanto esse trabalho é sofrido, não julgariam com tanto faz”.
Luciane também carrega consigo o luto do pai, que trabalhou na reciclagem até os 70 anos. “Meu pai sempre foi um pilar muito forte. Ele se foi com 70 anos e ainda trabalhava aqui”.


CONFEITANDO COM AMOR
Aos 24 anos, Iasmin encontrou na confeitaria uma saída para dificuldades financeiras. Sem experiência, começou vendendo doces em caixinhas e, em poucos meses, tornou-se referência na cidade de Fernandes Pinheiro. “Eu não tinha nem noção de como que fazia, assim, nenhuma noção mesmo. Tanto que eu até fui lá na casa da minha sogra pra pedir ajuda pra ela, pra ela me ajudar a fazer as massas dos docinhos”, conta.
Inicialmente, a confeitaria era uma solução temporária para um problema urgente. Precisando pagar uma conta, ela decidiu vender doces, mesmo sem grandes conhecimentos na área. Com ajuda da sogra e inspiração de redes sociais, produziu e vendeu suas primeiras caixinhas com quatro doces cada. O sucesso foi imediato. Em poucos dias, as vendas cresceram e Iasmin percebeu que havia encontrado uma oportunidade real.
O que começou como necessidade se transformou em paixão. Hoje, ela se especializa em bolos e outros doces. “Quando eu vi, cada semana que passava, as coisas iam acontecendo de uma forma tão natural. Fui pegando encomenda, pegando encomenda e foi indo”.
Apesar de ainda sonhar em cursar faculdade de medicina, Iasmin encontrou na confeitaria uma maneira de garantir estabilidade financeira para sua família, especialmente porque seus pais são deficientes visuais e vivem com um salário mínimo. “Eu sei que por mais que eu passe numa faculdade pública, eu ainda vou precisar ter dinheiro, né. Então, por isso que eu optei por focar agora no trabalho mesmo. Mas é uma coisa, assim, que eu descobri uma paixão mesmo”.
PAIXÃO PELOS CAMINHÕES E O EMPREENDEDORISMO
Desde criança, Maressa Muchau sabia que queria dirigir caminhão, seguindo os passos do pai, do avô e até do bisavô. Aos 21 anos, ganhou seu primeiro caminhão e passou dois anos viajando. “Meu pai sempre foi motorista de caminhão e eu sempre tive essa vontade absurda de ser motorista de caminhão”, relembra.
No entanto, a chegada do primeiro filho a fez repensar sua rotina. “Ainda tentei ali ficar um, dois meses viajando, mas não deu muito certo. A gente acabou vendendo esse meu caminhão na época, só que eu nunca consegui ficar parada”. A nova fase a levou ao empreendedorismo. Com o apoio da família, abriu uma loja de roupas, que começou como um passatempo e se tornou um negócio consolidado ao longo dos anos.
Ainda assim, a estrada nunca deixou de ser parte da sua vida. Até pouco tempo, ela e o marido tinham três caminhões, e sempre que podia, Maressa dirigia em viagens de compras para a loja. “Sempre que eu podia, eu dava uma aproveitadinha nessa minha paixão por caminhão para ir fazer compra para a loja, […] eu entrava no caminhão com o pai, já aproveitava, já ia dirigindo para matar a saudade do caminhão, e já unia o útil ao agradável”.
Apesar de não ter mais caminhões atualmente, ela sente falta e tem vontade de voltar a ter um, não para viajar, mas por necessidade e pela ligação emocional com essa parte da sua história.
“Eu acho que a gente pode tudo. Eu sempre digo isso, sempre disse isso. Para mim é assim, eu não vejo diferença nenhuma entre homem e mulher. Se homem pode, mulher pode também, por que não? ”, finaliza Maressa.


‘MENINA DA FUMICULTURA’
No interior de Rebouças, Thaisy Paluski, de 22 anos, cresceu em meio ao cultivo do tabaco e decidiu seguir a profissão dos pais, que trabalham na área há 35 anos. Nas redes sociais, compartilha sua rotina na roça e seu dia a dia como fumicultora.
Thaisy reforça que seu amor pela profissão veio de seus pais e que o incentivo do público nas redes sociais também a motiva. “Para ficar nessa área, tem que gostar mesmo do que faz. Gosto por conta dos meus pais, eles me ensinaram muito bem. Também gostei por causa do TikTok, muitas pessoas falam que é para mim continuar, que não é para mim desistir, que eu trago uma paz”, afirma.
Atualmente, a fase mais intensa da colheita já passou, e agora Thaisy e a família estão focados no preparo do solo. “Não é fácil. É muito serviço, muita mão de obra hoje em dia, como nós não temos implementos, não temos maquinário para colheita”
Inicialmente, ela postava vídeos de dança e conteúdos diversos. Porém, um vídeo sobre a vida na roça viralizou, incentivando-a a criar mais conteúdos sobre a rotina agrícola. Essa mudança foi bem recebida pelo público, e hoje ela conta com mais de 76 mil seguidores no TikTok. “Eu postava vídeos de dança, vídeos simples. Quando eu decidi mostrar o que a gente faz aqui na roça, eles [o público] começaram a gostar muito mais. Aí eu fui desenvolvendo mais vídeos assim”.
DA ADVOCACIA À MAQUIAGEM E INFLUÊNCIA DIGITAL
Alinne Xavier, original de Teixeira Soares, se formou em direito em 2010 e atuou na área por seis anos, mas sempre teve interesse por maquiagem. Em 2015, enquanto trabalhava no fórum em Irati, notou o crescimento do setor e passou a atender clientes regularmente, conciliando as duas profissões. Com a alta demanda, precisou escolher entre as carreiras e, em 2016, decidiu dedicar-se exclusivamente à maquiagem.
Mas o interesse por esta forma de arte veio desde a juventude, ainda na adolescência, aprendendo a se maquiar através de tutoriais de revistas. “Na época, maquiagem não era uma coisa tão usada, e eu falei: vou começar a treinar, e eu comecei a treinar. Com 14 anos, eu comecei a maquiar para fora de casa, fazendo o meu dinheirinho”, relembrou Alinne.
Com o passar dos anos, foi conquistando mais clientes e a demanda aumentou, abrindo seu próprio estúdio de maquiagem. A internet a ajudou a impulsionar seu trabalho e, durante a pandemia, tornou-se sua principal fonte de renda. Agora, beirando os 40 anos, ela quer focar em maquiagem para mulheres maduras. “A minha ideia é levar um pouco mais para esse lado, sabe? Ensinar as mulheres a se maquiarem, ajudar a autoestima, a se cuidar, essas coisas, que é o que eu gosto de fazer”
Além disso, Alinne venceu o câncer de mama em 2022, e decidiu usar sua experiência para conscientizar outras mulheres. “É uma doença difícil e ela afeta principalmente a autoestima das mulheres […] Então eu pensei, por que não ajudar as mulheres que não conseguem passar por isso?”, conta Alinne.


MATERNIDADE E TRABALHO DIGITAL
Para Ana Luiza Boni, de Rio Azul, a maternidade transformou sua trajetória. Antes do nascimento de seu filho, Leonardo, Ana focava em conteúdos de moda e beleza. No entanto, após a chegada dele, precisou dar uma pausa e se adaptar à nova realidade. Inicialmente, a mudança foi um choque, mas, ao compartilhar sua vivência real da maternidade, percebeu um aumento significativo no engajamento e na conexão com outras mães. “Eu mostro aquilo que é real mesmo, sabe? Eu lá, sem filtro, toda descabelada, o Leo gritando. E depois que eu tive ele, que eu consegui me aparecer mais e ter mais conteúdo, o meu Instagram ficou algo mais divertido também, não algo tão regrado”, diz.
Ana ressalta que a internet lhe proporcionou uma oportunidade única: poder trabalhar e gerar renda sem precisar sair de casa ou deixar Leo com outra pessoa. Enquanto cuida do filho, aproveita os momentos livres para criar e editar vídeos. Esse formato de trabalho permitiu que ela equilibrasse a maternidade e a vida profissional, trazendo sustento para a família sem abrir mão da presença do filho.
“Foi uma forma que eu vi para não precisar trabalhar fora e precisar deixar ele em creche ou com outra pessoa, uma forma que eu vi que eu poderia trabalhar, trazer um pouco de renda para dentro de casa e cuidar dele ao mesmo tempo. Então, enquanto eu estou ali postando, eu estou cuidando dele. Ele dorme, eu vou correr fazer algum vídeo, ou editar algum vídeo”, contou Ana.
A DEDICAÇÃO À FAMÍLIA COMO ESCOLHA
Já para Carolina Rodrigues, a maternidade sempre foi prioridade. Ela conheceu seu marido em um grupo de jovens, e em 2017, decidiram iniciar um relacionamento, pois compartilhavam o desejo de formar uma família numerosa. Desde o início, Carolina já planejava dedicar-se à criação dos filhos. Hoje, ela e o marido têm quatro filhos, com idades próximas.
Seu dia a dia é estruturado e organizado para dar conta das tarefas domésticas e do cuidado com as crianças. Carolina é personal organizer e, através da internet, compartilha dicas de organização com outras mulheres. Ela acorda antes deles, realiza atividades educativas e mantém uma rotina bem definida para equilibrar todas as responsabilidades, e enfatiza se sentir realizada com a escolha.
“É uma coisa que me realiza, eu não me vejo hoje fazendo outra coisa, né. Eu vejo que Deus me preparou para isso […] A maternidade, ela é exigente, mas quando a gente compreende o propósito de tudo isso, não tem como você não ser feliz”, conta.


COMPROMISSO E IMPACTO
Ghessi Bucco, secretária de Assistência Social e primeira-dama de Rio Azul, expressa seu orgulho em atuar na melhoria da qualidade de vida das mulheres e suas famílias, especialmente no Dia Internacional da Mulher. “O Dia Internacional da Mulher é um momento especial para refletir sobre o impacto do nosso trabalho e como ele pode transformar vidas”, conta.
Ela destaca o compromisso da equipe na promoção da igualdade de gênero, no combate à violência e na garantia de serviços essenciais como saúde, educação e assistência social. Para ela, essa missão vai além do profissional, sendo um compromisso pessoal em fazer a diferença na vida das mulheres.
“Como mulher, sinto-me comprometida em usar minha posição para fazer a diferença na vida das outras mulheres. Além disso, é incrível ver o impacto que nosso trabalho pode ter na comunidade. Desde a criação de programas de empoderamento feminino até a implementação de serviços de apoio às vítimas de violência, sabemos que estamos fazendo uma diferença real nas vidas das pessoas”, diz Ghessi.
Essas histórias são um reflexo da força feminina em todos os setores. Do campo às redes sociais, da estrada à cozinha, do escritório ao lar, cada mulher carrega consigo o poder de transformar o mundo ao seu redor. E neste 8 de março, fica a reflexão: o futuro é feminino, mas o presente já é delas.